1. INTRODUÇÃO
O objetivo deste trabalho é, ainda que de forma exploratória, avaliar, através de um estudo experimental, as relações de concordância associadas a estruturas coordenadas adversativas corretivas. A investigação dos padrões de concordância associados à coordenação poderá conduzir a pistas importantes sobre a sua configuração básica, aos mecanismos subjacentes à verificação dos seus traços formais e à interação entre a morfossintaxe e a semântica.
Embora existam vários trabalhos sobre a concordância sujeito-verbo de estruturas coordenadas (cf. ; ; , ; , e.o.), o seu foco principal tem sido a coordenação copulativa com e (cf. 1), com observações pontuais sobre frases com valor corretivo (cf. 2a e 2b), e ainda menos considerações sobre frases adversativas com valor corretivo (cf. 3a e 3b). A ausência de estudos sobre estas construções é também referida por , no seu estudo para o estoniano.
- (1)
[Eu e tu] temos muitas coisas em comum. ()
- (2a)
[O guarda-redes], (ou) melhor, [os defesas centrais], foram os responsáveis pelo golo.
- (2b)
[Os polícias], (ou) antes, [o inspetor], atuou erradamente. ()
- (3a)
[[Os alunos], mas não o professor], faltaram às aulas. ()
- (3b)
[A Transbrasil], mas não a Lufthansa], deixou de fazer voos para Portugal. ()
Assim, neste trabalho, analisaremos as relações de concordância que se estabelecem com estruturas coordenadas adversativas em posição de sujeito pré e pós-verbal com valor corretivo através de uma tarefa de escolha forçada. Testaremos dois tipos de construções: (i) não X mas Y (cf. 4a e 4b); e (ii) X mas não Y (cf. 5a e 5b), em frases a completar com os verbos na forma flexionada adequada, como as seguintes:
- (4a)
Não os cães mas o gato fugiu/fugiram de casa.
- (4b)
Fugiu/Fugiram de casa não os cães mas o gato.
- (5a)
Os cães mas não o gato fugiu/fugiram de casa.
- (5b)
Fugiu/Fugiram de casa os cães mas não o gato.
O trabalho está estruturado da seguinte forma: na secção 2 apresentamos a motivação para este estudo, explicitamos brevemente o seu enquadramento teórico, assim como os problemas que estas construções podem levantar; na secção 3, apresentamos os estudos experimentais realizados para esta investigação, as hipóteses consideradas e os resultados obtidos; por fim, na secção 5, são discutidos os resultados obtidos e esboçadas as considerações finais.
2. MOTIVAÇÃO DO ESTUDO: PORQUÊ ANALISAR FENÓMENOS DE CONCORDÂNCIA EM FRASES CORRETIVAS?
Como referido, a investigação sobre concordância em frases coordenadas tem-se centrado na coordenação aditiva, exemplificada em (1), enquanto o estudo da concordância em coordenação adversativa com valor corretivo tem sido descurado. Além disso, os escassos estudos sobre a coordenação corretiva apresentam perspetivas divergentes relativamente à natureza parentética ou integrada do constituinte coordenado corretivo e à sua possibilidade de desencadear concordância verbal.
Em defende-se que, em construções parentéticas com a conjunção e, como o exemplo abaixo, o DP parentético não participa na relação de concordância com o verbo:
- (6)
Entretanto, eu – e os milhares de pessoas que o leram no Público (da passada segunda-feira) – vou-me contentando com as suas Cartas de Inglaterra. ()
A assunção de que o DP parentético participa na concordância sujeito-verbo é pouco comum na literatura, uma vez que as orações parentéticas se caracterizam por serem sintática, semântica e prosodicamente independentes (; ; ; ). Assim, as expressões coordenadas parentéticas contrapõem-se às integradas. De acordo com , as construções coordenadas integradas são aquelas em que toda a estrutura complexa "é parte integrante da oração que a contém, prosodicamente, sintaticamente e semanticamente" (veja-se (7) por oposição a (8)):
- (7a)
A Maria fala francês e estuda música.
- (7b)
O livro e a música são escolhidos pelos alunos.
- (8)
Cada aluno escolhe o livro - e a música - que quer apresentar aos colegas. (cf. )
No entanto, referem o facto de, do ponto de vista sintático, ser possível o termo parentético tomar parte ou não na relação de concordância que se estabelece entre o sujeito hospedeiro e o verbo, quando o parênteses é um constituinte nominal que potencialmente integra o sujeito frásico (veja-se (9a) e (9b)).
- (9a)
O meu filho, e (, por sinal,) alguns colegas, decidiu não ir à visita de estudo.
- (9b)
O meu filho, e, por sinal, alguns colegas, decidiram não ir à visita de estudo.
(, adaptado)
analisa as construções com valor corretivo do tipo X mas não Y como tendo um segundo termo parentético, o que tipicamente implica que o termo, analisado como parentético não participe na relação de concordância que se estabelece entre o primeiro termo da estrutura coordenada, [o professor], e o verbo, desencadeando-se concordância sujeito-verbo no singular.
Com uma perspetiva diferente, , analisando construções corretivas com expressões como "ou antes/melhor", defende uma análise em que a concordância sujeito-verbo se dá com o DP parentético, uma vez que o DP hospedeiro é descartado, como em (11). Além disso, o autor sugere a existência de duas estruturas parentéticas, uma correspondente ao conector “ou antes/melhor” e outra ao segundo DP, [o inspetor].
A relevância do nosso trabalho, que consiste num estudo experimental comparativo, é dupla:
- (i)
Visa clarificar, através das relações de concordância que estabelecem com o verbo, o estatuto parentético ou não de sujeitos nominais corretivos do tipo não X mas Y e X mas não Y, considerando o seu grau de independência semântica e morfossintática face à frase hospedeira.
- (ii)
Procura comparar as estruturas corretivas usualmente consideradas para o português X mas não Y, em que a negação surge no segundo termo coordenado (e.g. ), com as de línguas como o espanhol e o alemão, que diferentemente do português, possuem uma conjunção adversativa especializada para o valor corretivo - sino e sondern, cf. (12) e (13) e em que o marcador de negação ocorre no primeiro termo coordenado, correspondendo prototipicamente à estrutura de correção não X mas Y.
- (12)
Una tesis no se hace en cuatro días, sino lentamente. (: 3860)
- (13)
Es hat nicht Erich sondern Magda die Torte gegessen. ()
'Erich didn’t eat the cake, but Magda did.’
Porém, apesar de, como mostrámos, existirem propostas divergentes em relação à inclusão do constituinte parentético na relação de concordância que se estabelece em construções do tipo X mas não Y, exemplos como os de (14) a (17), que correspondem aos exemplos prototípicos de adversativas corretivas em espanhol e alemão, ainda não foram analisados em português europeu e não é óbvio como se processa a concordância sujeito-verbo, que para alguns falantes do português parece admitir tanto o singular como o plural, apesar de a negação do primeiro termo coordenado pressupor a irrelevância semântica da entidade mencionada para o estabelecimento da concordância (contrariamente ao referido em ).
- (14)
[Não o cão mas os gatos] fugiu/fugiram de casa.
- (15)
Comeu/Comeram o bolo [não o tio mas os sobrinhos].
- (16)
[Não os alunos mas o professor] chegou/chegaram tarde.
- (17)
Fez/Fizeram um desenho [não as crianças mas a educadora].
, para o estoniano, discute o fenómeno da concordância de sujeitos coordenados com o termo mais próximo (Closest Conjunct Agreement, CCA), especificamente no contexto de frases corretivas (replacives, nos seus termos, ou seja, construções em que um sujeito é substituído por outro).
Neste estudo refere-se que o estoniano também tem apenas um morfema adversativo e que a dificuldade na resolução da concordância destas construções se prende também com a falta de input e que, por isso, “agreement patterns with conjuncts mismatching in their person, number or gender features thus provide a window to grammatical preferences in cases of impoverished input.” (). Note-se que por falta de input se entende baixa frequência de construções deste tipo, já que os falantes optam por paráfrases das frases em estudo.
A autora refere ainda, sobre a importância de analisar este tipo de construção coordenada, o facto de serem as únicas, face às coordenadas aditivas ou disjuntivas, a terem apenas um termo-sujeito asserido, já que o outro termo do sujeito coordenado é negado e, por isso, não asserido. Algo que, de acordo com o seu estudo, tem um papel relevante na relação de concordância que se estabelece entre o sujeito e o verbo.
De forma a atestar as preferências dos falantes em termos dos padrões de concordância, construiu três tarefas experimentais. Na primeira experiência, a autora testou os efeitos de Closest Conjunt Agreement (CCA) em construções corretivas, aferindo se o verbo concorda, preferencialmente, com o termo coordenado mais próximo.
Note-se, porém, que CCA pode ser interpretado quer em termos de ordem linear, quer em termos de c-comando, ou seja, c-comando com o constituinte mais próximo. Neste caso não se esperaria que a concordância fosse com o segundo termo coordenado, mas com o primeiro, como nas relações de ligação de expressões anafóricas reflexas:
- (18)
[A filhai do Pedro] nunca pensa em si própriai.
- (19)
*[A filha [do Pedroi]] nunca pensa em si próprioi.
No entanto, consideramos que a semântica interna ao DP coordenado, por efeito dos marcadores de negação, pode estabelecer relações de localidade diversas e interferir no processamento, que, talvez, por isso, demore mais tempo.
- (20)
[A filha [(mas) não o Pedro]] só pensa em si própria/*em si próprio.
- (21)
[Não a filha [mas o Pedro]] só pensa ??em si própria/em si próprio.
Na segunda tarefa, cujo objetivo era avaliar a importância do sujeito asserido (vs. sujeito mais próximo) na concordância sujeito-verbo, o resultado mostrou que, em tarefas de aceitabilidade com controlo de tempo, a ordem linear é um fator mais determinante do que a interpretação em questões de concordância (). A autora admite, no entanto, que os resultados poderiam ser diferentes num “different paradigm allowing the comprehender more time to arrive at the intended interpretation and to resolve the semantic dependency between the verb and the asserted subject.” (). Por fim, a tarefa de naturalidade revelou que os padrões de concordância nestas estruturas são influenciados, entre outros fatores, pela interpretação do sujeito asserido e pela ordem linear (CCA): “both closest conjunct agreement (CCA) and asserted subject agreement (ASA) [are] relevant to determining verbal agreement with coordinated subjects of mismatching person features.” ().
Assim, analisou os efeitos que interferem no estabelecimento da relação de concordância e verificou que tanto o sujeito asserido quanto o sujeito que corresponde ao termo coordenado mais próximo (CCA) desempenham um papel relevante. Porém, o estudo mostrou também que em tarefas de aceitabilidade com controlo de tempo, a sintaxe, i.e., o sujeito que corresponde ao termo coordenado mais próximo, é um fator mais dominante do que a semântica, ou seja, o sujeito asserido.
Assim, reforçamos a importância de testar estas construções em português europeu de forma a avaliar os aspetos que regulam as relações de concordância sujeito-verbo que se estabelecem nestas frases.
2.1. O Problema
Embora existam argumentos para que, em construções do tipo X mas não Y (cf. (22a)) e (22b)), o constituinte 'mas não Y' possa ser analisado como um constituinte parentético, uma vez que a sua omissão não implica a agramaticalidade da frase, a omissão de 'mas Y' em estruturas do tipo não X mas Y gera estruturas agramaticais (cf. (23a) vs. (23b)), o que nos leva a assumir uma análise para esta última expressão como a proposta para as estruturas correlativas (cf. ; ) e considerar que o segundo termo coordenado não é parentético, é antes um correlato obrigatório do primeiro termo coordenado:
- (22a)
O cão mas não os gatos fugiu/fugiram de casa.
- (22b)
OKO cão mas não os gatos fugiu de casa.
- (23a)
Não o cão mas os gatos fugiu/ fugiram de casa.
- (23b)
*Não o cão mas os gatos fugiu de casa.
Uma propriedade essencial da coordenação corretiva é o facto de exigir que se estabeleça entre os seus termos uma relação de contraste. No caso destas construções em particular, tal é assegurado pela conjunção e pela posição do marcador de negação: o termo que vai desencadear a concordância com o verbo será aquele que não é negado. Neste sentido, uma construção do tipo X mas não Y (cf. (22)) contrasta com uma construção do tipo não X mas Y no que diz respeito à posição da negação e, consequentemente, à posição do sujeito asserido.
Interessa, por isso, começar por perceber como é que os falantes fazem a concordância sujeito-verbo em frases deste tipo e que fatores influenciam essa tomada de decisão. As tarefas desenvolvidas no âmbito desta investigação têm como objetivo aferir se os falantes são consistentes na exclusão do termo negado da relação de concordância ou se a concordância poderá ser localmente desencadeada (CCA) independentemente do locus da negação.
3. ESTUDOS EXPERIMENTAIS
Tal como o trabalho de , para o estoniano, o estudo experimental que apresentamos em seguida tem como objetivo perceber qual o padrão de concordância sujeito-verbo preferido em construções coordenadas adversativas corretivas.
3.1. Tarefa de Escolha Forçada – Frases do tiponão X mas Y
A primeira tarefa realizada incidiu sobre construções corretivas do tipo não X mas Y, que, como referido, correspondem à estrutura típica de correção em línguas que têm uma conjunção adversativa especializada para a correção. Descrevemos, de seguida, as características desta tarefa.
3.1.1. Método
Participantes
Participaram neste estudo 32 informantes falantes nativos de português europeu (M= 27, 8 anos; DP = 4,21), com formação superior ao nível da licenciatura ou mestrado na área das humanidades (18 do género feminino; 14 do género masculino). Apenas depois de terminarem a sua participação neste estudo foram informados sobre os seus objetivos.
Materiais
Foram criados 48 estímulos, 16 itens experimentais e 32 itens distratores para compor o questionário, seguindo , que consideram que as tarefas de aceitabilidade deverão ter até 72 itens, de forma a não comprometer os resultados obtidos por efeitos de cansaço dos participantes.
Os itens experimentais consistiam em frases-teste com dois sujeitos numa configuração do tipo não X mas Y, sendo que estes poderiam ocorrer em posição pré ou pós-verbal. Além disso, fez-se variar o traço de número nos sujeitos coordenados. As 16 frases-teste foram distribuídas em listas de quadrado latino, empregando-se, assim, um desenho intra-sujeitos (within subjects). Este tipo de desenho experimental permite que os informantes vejam todas as frases (e todas as condições experimentais), sem, no entanto, verem a mesma frase em mais do que uma condição. Os itens experimentais foram apresentados de maneira pseudo-randomizada, de forma a garantir que não surgem dois itens experimentais consecutivamente. Os participantes foram divididos pelas quatro listas do quadrado latino, atribuindo 8 participantes a cada lista.
Cada frase-teste foi modificada considerando dois fatores, com dois níveis cada: posição do sujeito (pré ou pós-verbal) e ordem do traço de número (primeiro sujeito singular e segundo sujeito plural; e primeiro sujeito plural e segundo sujeito singular), gerando quatro condições experimentais (Quadro 1). Note-se que, de forma a não induzir uma interpretação parentética, o que poderia alterar as preferências de concordância, optámos por omitir a vírgula que, tipicamente, precede mas.
Os 32 itens distratores consistiam em 16 frases disjuntivas e 16 frases copulativas negativas (com nem; cf. Quadro 2). A opção de incluir frases com alguma complexidade e semelhança estruturais no grupo de distratores tem por objetivo garantir que se alcançam os objetivos do estudo, uma vez que, por exemplo, considera que em questionários em que a diferença entre os distratores e as frases-teste é demasiado evidente os propósitos da investigação podem ficar comprometidos.
Apesar de existirem várias opções para o número de distratores a incluir numa tarefa, optámos por um rácio de 2:1 de distratores face a itens de teste (cf. ) e por repetir dois tipos de construção, de forma a garantir que os participantes não identificavam as estruturas em teste.
Note-se que nos distratores em que surge a conjunção coordenativa negativa (nem) é necessária a ocorrência de um constituinte de polaridade negativa (não ou nem) no primeiro termo de forma a legitimar o nem do segundo termo coordenado (veja-se, por exemplo, ). Quanto às frases disjuntivas distratoras, optámos por coordenadas não correlativas com o objetivo de que os participantes não assumissem que se tratava de um estudo sobre coordenação correlativa e também porque, tendo em conta o trabalho de , sabemos que as relações de concordância que se estabelecem em disjuntivas correlativas e disjuntivas simples são semelhantes.
Procedimentos
A tarefa foi implementada numa plataforma destinada à realização de questionários (o Google Forms) que nos permitiu registar as respostas aos estímulos, bem como alguns dados sociodemográficos dos participantes. Embora o estudo tenha sido disponibilizado na web, os participantes de todas as tarefas realizadas foram recrutados em ambiente académico, de forma a garantir a homogeneidade do grupo de participantes.
As frases foram apresentadas como contendo uma lacuna que tinha de ser preenchida por uma de duas formas verbais que surgiam abaixo e em simultâneo (cf. Figura 1), forçando, assim, os participantes a escolher uma das formas.
Considerámos que uma Tarefa de Escolha Forçada (TEF) apresenta vantagem face a, por exemplo, uma de completamento que poderia sobre-gerar (overgenerate) respostas não relevantes para este estudo. Assim, com a TEF, assegurámos a obtenção do tipo de resposta pertinente para as hipóteses que apresentamos de seguida.
3.2. Hipóteses e Resultados
Tendo em conta o exposto acima, colocamos as seguintes hipóteses/predições para a nossa análise:
- (A)
Assumimos que a negação de um dos sujeitos conduzirá, de uma forma geral, à sua exclusão da relação de concordância (cf., por exemplo, ).
- (B)
Quando o sujeito ocorre em posição pós-verbal, uma vez que não consideramos esta estrutura como parentética, esperamos uma preferência para concordância com o termo coordenado linearmente mais próximo, ignorando o termo coordenado com negação em alguns casos, favorecendo uma interpretação semântica/lógica.
- (C)
Com sujeitos pré-verbais, a estratégia de concordância com o termo coordenado mais próximo coincide com a escolha do sujeito asserido, facilitando a sua escolha.
3.2.1. Sujeitos pré-verbais
Os dados obtidos com esta tarefa em construções com sujeitos pré-verbais apresentam-se no gráfico 1. e os resultados descrevem-se, de seguida.
O Gráfico 1 mostra que, em frases com sujeitos em posição pré-verbal, a preferência dos participantes pelo estabelecimento da concordância com o sujeito asserido é clara. Note-se, porém, que em construções do tipo não X mas Y, o sujeito asserido é também aquele que ocorre linearmente numa posição mais próxima do verbo em Forma Fonética, já que, em sintaxe, nestas frases, o sujeito asserido é o mais encaixado (consequentemente o menos acessível em termos de c-comando mais próximo), veja-se (24).
Nas frases em que ocorre a ordem SG-PL, i.e., o primeiro sujeito coordenado é singular e o segundo é plural, os resultados não mostram variação, já que todos os participantes optam pela forma verbal no plural:
Assumimos, tendo em conta os resultados obtidos para construções com a ordem SG-PL, que a forma verbal no plural está associada ao termo coordenado plural e não à concordância resolvida.
Em construções em que os sujeitos ocorrem na ordem PL-SG, ou seja, o primeiro sujeito coordenado, negado, é plural e o segundo, asserido, é singular, um pequeno número de informantes escolhe, ainda assim, colocar o verbo no plural, sendo, no entanto, a preferência pelo singular:
Apesar de se tratar de um valor residual, sem relevância significativa para o estudo, consideramos interessante que a escolha pela forma verbal singular não seja a única privilegiada. Acreditamos que a opção pela forma verbal no plural é favorecida pelo facto de não excluir da relação de concordância nenhum dos termos coordenados. Em estudos posteriores será necessário avaliar qual o referente que os participantes associam à forma verbal plural.
3.2.2. Sujeitos pós-verbais
Apresentamos o Gráfico 2 que ilustra os resultados obtidos em frases com sujeitos pós-verbais e descrevemo-los de seguida.
Os resultados, diferentemente do que ocorre nas construções com sujeitos pré-verbais, mostram alguma variação. Porém, mantém-se a preferência pela concordância com o sujeito asserido, apesar de este não ser o que está linearmente, nem em termos de c-comando, nem em Forma Fonética, mais próximo do verbo, dado que no caso dos sujeitos pós-verbais, o termo coordenado linearmente mais próximo do verbo é também o que obedece a c-comando mais próximo.
Além disso, em ambas as condições, i.e., independentemente do traço de número dos sujeitos, parece haver a possibilidade de estabelecer a concordância com o termo coordenado mais próximo, com cerca de 20% das respostas a mostrar que, para um pequeno grupo de participantes, a negação não desempenha um papel preponderante.
Note-se que florir é um verbo inacusativo, razão pela qual o DP que é seu argumento interno assume as funções de sujeito, podendo ficar na posição em que foi basicamente gerado ou movendo-se para posição pré-verbal. Em (28), esse argumento interno, que corresponde à estrutura coordenada não as rosas mas a margarida, permanece in situ.
Propomos, ainda, para estes sujeitos coordenados, uma análise em termos de expressões correlativas (cf. ), que ocorrem numa projeção de foco contrastivo. A negação de constituintes é tradicionalmente analisada como metalinguística (cf. ), visto que pode implicar a correção de algo no conhecimento partilhado (common ground), tendo, assim, uma função pragmática e não semântica, como ocorre com a negação descritiva. Assim, não X torna-se um foco contrastivo e mas Y ocorre como um foco informacional.
3.3. Tarefa de Escolha Forçada – Frases do tipo X mas não Y
Esta segunda tarefa realizada analisou construções corretivas do tipo X mas não Y, que correspondem a uma estrutura que em português europeu permite veicular correção. Em espanhol e alemão, apesar de sino e sondern serem partículas especializadas para a correção, pero e aber, quando seguidos de negação, também permitem veicular este valor (; ; ). Descrevemos, de seguida, as características desta tarefa.
3.3.1 Método
Participantes
Participaram neste estudo 32 informantes (M = 29,4 anos; DP = 6,11), com formação superior ao nível da licenciatura ou mestrado (16 do género feminino; 15 do género masculino; 1 ‘prefiro não dizer’). Apenas depois de terminarem a sua participação neste estudo foram informados sobre os seus objetivos.
Materiais
Foram apresentados os mesmos itens experimentais e distratores do pré-teste, sendo que, em relação aos itens experimentais se alterou a construção para que corresponda à estrutura que nos interessa analisar. Assim, a frase em (29) da Tarefa 1 foi alterada para (30), de forma a corresponder à configuração X mas não Y:
- (29)
Não o cão mas os gatos fugiu/fugiram de casa.
- (30)
O cão mas não os gatos fugiu/fugiram de casa.
Não consideramos que seja problemático fazer uso dos mesmos materiais, uma vez que o grupo de participantes é distinto. Tal como nas tarefas anteriores, também nesta os itens foram apresentados de forma pseudo-randomizada e as frases-teste foram distribuídas em listas de quadrado latino, empregando-se, assim, um desenho intra-sujeitos (within subjects). Os participantes foram divididos pelas quatro listas do quadrado latino, atribuindo 8 participantes a cada lista.
3.4. Hipóteses e Resultados
Tendo em conta o exposto acima, colocamos as seguintes hipóteses/predições para a nossa análise:
- (A)
Assumimos que a negação de um dos sujeitos conduzirá, de uma forma geral, à sua exclusão da relação de concordância (cf., por exemplo, ).
- (B)
Sintaticamente, o DP negado, fazendo parte de um constituinte parentético, não participará na relação de concordância (cf. ) e, portanto, não ocorrerão diferenças entre as condições de sujeito pré e pós-verbal.
Se ocorrerem diferenças, estas podem pôr em causa o estatuto parentético de mas não Y e esperamos que:
- (C)
com sujeitos pré-verbais, haja uma preferência para concordância com o termo coordenado linearmente mais próximo (CCA), ignorando a negação.
- (D)
com sujeitos pós-verbais, esteja facilitada a escolha do sujeito asserido, já que coincide com o termo coordenado mais próximo.
3.4.1. Sujeitos pré-verbais
Apresentamos no Gráfico 3 os resultados obtidos em construções do tipo X mas não Y com sujeitos coordenados em posição pré-verbal.
Diferentemente do que se verificou na primeira tarefa em que, com sujeitos em posição pré-verbal, os resultados eram absolutos, neste caso verificamos alguma variação na escolha dos participantes.
Porém, os dados mostram que os informantes preferem estabelecer a relação de concordância com o sujeito asserido, ainda que este seja o mais distante do verbo. Note-se que é em termos fonológicos mais distante do verbo, mas em termos sintáticos de c-comando, é a posição mais próxima, já que o segundo termo coordenado está mais encaixado na estrutura coordenada. Assim, estes dados parecem fazer confluir a semântica e a sintaxe.
Nas frases em que ocorre a ordem SG-PL, i.e., o primeiro termo do sujeito coordenado é singular e o segundo é plural, os resultados mostram que cerca de 20% das respostas correspondem à estratégia de proximidade fonética, uma vez que a relação de concordância se estabelece com a forma verbal no plural, ainda que este não corresponda ao sujeito asserido. Por outro lado, na ordem PL-SG, ou seja, o primeiro termo do sujeito coordenado é plural e o segundo é singular, a escolha pela estratégia de proximidade fonética, i.e., pela forma verbal no singular, ocorre em menor número. Assim, em ambas as condições testadas verifica-se uma preferência pelo sujeito asserido, que é também aquele que estabelece uma relação de c-comando mais próximo com o verbo.
3.4.2. Sujeitos pós-verbais
Veja-se o Gráfico 4, que ilustra os resultados obtidos em frases com sujeitos pós-verbais.
O gráfico 4 mostra-nos que a preferência dos participantes é mais clara nas condições com sujeito pós-verbal face àquelas em que ocorre em posição pré-verbal. Também nestes casos, os informantes preferem estabelecer concordância com o sujeito asserido, que também corresponde àquele que, em Forma Fonética, está mais próximo do verbo, em Sintaxe, àquele que o verbo c-comanda mais localmente. Neste caso, a estratégia semântica e a estrutura sintática não entram em conflito.
4. DISCUSSÃO E CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com este trabalho, apesar de exploratório, analisámos as relações de concordância em estruturas coordenadas adversativas corretivas, acreditando que um melhor entendimento das mesmas nos permite compreender as propriedades das estruturas coordenadas adversativas corretivas.
Em geral, os dados que obtivemos mostram que existe uma preferência pela estratégia semântica para estabelecer a relação de concordância, tanto nas estruturas do tipo não X mas Y quanto nas estruturas do tipo X mas não Y. Porém, tendo em conta a variedade de construções analisadas, consideramos que estão em jogo diversos fatores: (i) em frases com expressões do tipo não X mas Y como sujeitos em posição pós-verbal e em frases com expressões X mas não Y como sujeitos pré-verbais verificou-se uma preferência pelo sujeito asserido, que, no caso de X mas não Y, é também aquele que estabelece com o verbo uma relação de c-comando mais próximo, sendo que, em ambos os casos, este sujeito, em Forma Fonética, é o mais distante do verbo; e (ii), por outro lado, em frases incluindo não X mas Y como sujeitos coordenados em posição pré-verbal e em frases contendo expressões X mas não Y como sujeitos pós-verbais a preferência é também pelo sujeito asserido, que em Forma Fonética é o mais próximo do verbo em ambas as expressões, mas que só com sujeitos como X mas não Y é localmente c-comandado pelo verbo.
Os nossos dados corroboram os resultados que obteve para o estoniano, já que a tendência, de forma geral, é para os falantes escolherem o sujeito asserido e excluírem o DP negado. Consideramos, como Kaps, que a resolução da relação de concordância nestas frases é dificultada pela falta de input e, somando a este aspeto, o facto de termos realizado uma tarefa sem limite de tempo, a escolha pelo sujeito asserido foi facilitada. Será, por isso, importante, em trabalho futuro, replicar a tarefa com controlo de tempo e comparar os resultados com os obtidos.
Nas estruturas do tipo X mas não Y, talvez devido à possibilidade de interpretar mas não Y como parentético, que na posição pós-verbal ocorre como um comentário final, verifica-se apenas uma ligeira tendência para a concordância com o sujeito mais próximo em Forma Fonética; por outro lado, na condição com sujeitos em posição pré-verbal com a ordem singular plural (SG-PL), cerca de 20% dos participantes escolhe a forma verbal no plural por também ser o que em Forma Fonética surge mais próximo do verbo.
Quanto às construções do tipo não X mas Y, retomemos as nossas hipóteses e predições face aos resultados obtidos com os estudos experimentais:
- (A)
Assumimos que a negação de um dos sujeitos conduzirá, de uma forma geral, à sua exclusão da relação de concordância (cf., por exemplo, ).
Esta hipótese foi confirmada, já que os dados nos mostraram que, em geral, apenas o sujeito asserido foi tido em conta no estabelecimento da relação de concordância, o que reforça a ideia de que, perante construções com baixa frequência, os participantes recorrem a uma estratégia lógica (de semântica).
- (B)
Quando o sujeito ocorre em posição pós-verbal, uma vez que não consideramos esta estrutura como parentética, esperamos uma tendência para concordância com o termo coordenado linearmente mais próximo, ignorando o termo coordenado com negação em alguns casos, favorecendo uma interpretação semântica/lógica.
Contrariamente ao esperado, a negação não foi ignorada na maioria dos casos, levando os participantes a estabelecer a concordância com o sujeito asserido, que é também o que obedece a c-comando mais próximo. Assim, há coincidência das estratégias semântica e sintática.
- (C)
Com sujeitos pré-verbais, a estratégia de concordância com o termo coordenado mais próximo (CCA) coincide com a escolha do sujeito asserido, facilitando a sua escolha.
Esta hipótese também foi confirmada, uma vez todos os informantes que participaram no nosso estudo escolheram estabelecer a relação de concordância com o sujeito que, nesta condição, corresponde ao constituinte asserido e mais próximo em Forma Fonética.
Em relação às frases com uma estrutura do tipo X mas não Y, recuperamos, abaixo, as hipóteses e predições que serviram de ponto de partida ao nosso estudo:
- (A)
Assumimos que a negação de um dos sujeitos conduzirá, de uma forma geral, à sua exclusão da relação de concordância (cf., por exemplo, ).
Esta hipótese foi confirmada, uma vez que os dados mostram que, em geral, apenas o sujeito asserido foi tido em conta no estabelecimento da relação de concordância verbal. No caso das frases com sujeitos em posição pré-verbal, esta escolha coincide com o sujeito que c-comanda o verbo. Note-se que, assumimos que a hipótese é confirmada de uma forma geral, não tomando, por isso, em linha de conta os 20% que fogem à preferência global.
- (B)
Sintaticamente, o DP sujeito negado, fazendo parte de um constituinte parentético, não participará na relação de concordância (cf. ) e, portanto, nenhuma diferença ocorrerá entre as condições de sujeito pré e pós-verbal.
Esta hipótese foi infirmada, já que se verificaram diferenças dependendo da posição pré ou pós-verbal do sujeito.
Assim, porque se verificaram diferenças que põem em causa o estatuto parentético de mas não Y, na expressão X mas não Y, analisaremos separadamente os casos em que os sujeitos coordenados ocorrem em posição pré ou pós-verbal:
- (C)
com sujeitos coordenados pré-verbais, há uma preferência para concordância com o termo coordenado linearmente mais próximo (CCA), ignorando a negação.
- (D)
Com sujeitos pós-verbais, está facilitada a escolha do sujeito asserido, já que coincide com o termo coordenado mais próximo.
Assim, com este trabalho, concluímos que, em relação a frases do tipo X mas não Y, o constituinte mas não Y parece corresponder a um elemento parentético e funcionar como uma adenda do falante (cf. ), embora consideremos necessário explorar em trabalho futuro a existência de diferentes graus de integração de constituintes parentéticos. Esta possibilidade foi já notada por vários autores, como , e , para outras construções e parece-nos pertinente alargar estes estudos a construções corretivas deste tipo.
Iniciámos este trabalho porque considerarmos pouco clara a forma como a concordância sujeito-verbo se estabelece em frases corretivas, particularmente em construções do tipo não X mas Y. Embora os dados mostrem que a negação desempenha um papel relevante na resolução da concordância, acreditamos que é necessária uma análise sintática que dê conta da sua convergência com a estratégia semântica.
FINANCIAMENTO
A investigação apresentada foi desenvolvida e financiada no Centro de Linguística da Universidade de Lisboa (CLUL), inicialmente pelo projeto UIDB/00214/2020 [DOI 10.54499/UIDB/00214/2020] e posteriormente pelo UID/00214: Centro de Linguística da Universidade de Lisboa, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).
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Notas
[1] Salvo indicação em contrário quanto à autoria dos exemplos, os restantes foram elaborados pelas autoras, com base nos seus juízos enquanto falantes nativas de português europeu.
[3] Note-se, porém, a possibilidade de ocorrência de exemplos como (i), em que o constituinte parentético é tido em conta na relação de concordância sujeito-verbo, que ocorre na primeira pessoa do plural:
(i) Certamente que eu, tal como muitos milhares de outros portugueses, ocupámos postos de trabalho que poderiam pertencer a brasileiros e nem por isso fomos embarcados para regressar às antigas colónias, ou com destino a Portugal. (par=ext1553344-soc-93a-1)
[4] Recordem-se os conceitos relevantes:











