O leitor que se debruça sobre a obra Espaço(s) com e para a(s) criança(s). Olhares plurais a partir das ciências sociais, da arquitetura e do urbanismo, organizada por Maria Manuela Mendes- ISCSP/UL e Florbela Samagaio Gandra-ESE Paula Franssinetti/CIPAF, sem dúvida, deparar-se-á com uma temática contemporânea, discorrida de forma didática e profunda, cujos olhares plurais proporcionam uma reflexão onde as preposições com e para convidam a discutir sobre a conexão entre infância e os estudos sobre o espaço.
Para tanto, didaticamente apresentada, com o objetivo de contribuir para dar visibilidade e expandir o conhecimento a despeito da literatura científica de fronteira entre os estudos da infância e os estudos do espaço urbano, a obra é composta por doze capítulos, estruturados a partir de três eixos, a saber: i) Infância(s), cidadania e cidade - quatro capítulos; ii) Infância(s) e experiências espaciais: do espaço público à casa - cinco capítulos e iii) Infância(s) e espaços escolares - três capítulos.
No eixo 1, nomeadamente, Infancia(s), cidadania e cidade, estribando-se no campo do saber da Sociologia da Infância, cuja tónica é evidenciar a forma como as crianças transformam os espaços urbanos em “lugares”, ou seja, contextos de interações revestidos de sentido e emoções, o primeiro capitulo apresenta três fatores primordiais no tocante a mudança na visibilidade das crianças: i) migrações – presença das crianças nas cidades grandes, logo as crianças passam a tornar-se habitantes citadinos contribuindo para transformar as cidades; ii) o direito à cidade - enquanto desafio teórico e prático de interpretação e iii) ação das crianças - reivindicação de políticas públicas e concretas.
Ao longo do capítulo um, o autor menciona seis fatores de restrição da cidadania da infância: 1. domesticação, 2. institucionalização, 3. insularização, 4. dualização, 5. fragmentação e 6. limitação da autonomia de mobilidade. Por outro lado, considera que é possível potencializar a cidadania da infância por meio de políticas urbanas que permitam a concretização do reconhecimento e participação das crianças. Assim, destaca: 1. personalização; 2. affordance; 3. experiência; 4. intergeracionalidade. 5. participação e 6. urbanidade, como possibilidades para tal potencialização.
No capítulo dois, no tocante à (in)visibilidade da infância no espaço público, a autora vai ao encontro do posicionamento do autor do primeiro capitulo e retoma três, entre os seis fatores de restrição da infância e cidadania: 1. domesticação; 2. institucionalização e 3. insularização. Neste percurso, a mesma caracteriza a cidade enquanto espaço de encontros geracionais onde as crianças a vivenciam, a constroem e a transformam e reafirma o posicionamento de Machado Pais (), onde as cidades a partir dos conceitos de espacialidade e de territorialidade, conotam com relações de poder distintas e capacidade de inclusão e exclusão. Partindo deste pressuposto, optou metodologicamente, por evidenciar um estudo de caso, de natureza qualitativa, desenvolvido em um projeto local inserido no programa CAC. - Cidade Amiga das Crianças, realizado entre 2011 e 2012, com o objetivo de identificar perspetivas das crianças sobre a cidade em que habitavam.
Com o objetivo de refletir sobre a importância do espaço cidade enquanto impulsionador de uma nova gestão que compartilhe os principios da sustentabilidade numa plataforma de resposta holística aos desafios urbanos, no capítulo três - Quando a cidade deixa de ser escutada pela infância urbana, as autoras proclamam a cidadania enquanto construção em sociedade. Assim, a cidadania é vista como espaço de valores, ações e instituições comuns que integram indivíduos, permitindo o mútuo reconhecimento como membros de uma comunidade na qual coexistem cidadanias compostas efeito das migrações, mesclas étnicas e religiosas. Isto posto, trazem a seguinte questão enquanto norteadora para discorrer sobre o capítulo: estará garantida a presença da criança cidadã na cidade de hoje, no ato de participação desta enquanto cidadã e elemento transformador de realidades no elo de ligação do lugar?
A resposta a esta pergunta, segundo as autoras, apresenta dois caminhos. De uma lado o aspeto normativo - Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança / 1989 que assegura a condição da criança cidadã. Do outro, a sua não efetivação, o que caracteriza um logo caminho a percorrer.
Embora o direito das crianças à cidade não seja referendado de forma explicita na CNU - Convenção das Nações Unidas - 20/1171989, consoante aponta o autor do capítulo um, as autoras do capítulo três afirmar que o mesmo só cimenta-se quando o desenho do espaço público proporciona abertura ao desafio que impõem locomoverem-se de forma autónoma e independente, permitir possibilidade de interagir com o outro e em conexão com a natureza, resgatar e descobrir a cultura do lugar e sentir-se parte integrante do espaço. (Veloso e Correia, p. 48).
O término do Eixo 1 se concretiza com o capítulo quatro - A invenção da infância-o direito à memória, à identidade e à cultura, onde a autora amplia o conceito de arquitetura enquanto processo formativo junto das crianças, logo, ilustrativa e pedagógica, não limitando-se ao plano exclusivamente funcional: habitação humana. Desta maneira, a autora, afirma a importância de todos desfrutarem de um conjunto de direitos fundamentais, dentre os quais o direito à cidadania enquanto agregador dos demais - direito à infância, no caso das crianças. A autora indaga: em que a infância pode exigir algo que a cidade lhe deve providenciar? Com base neste debate, a mesma apresenta quatro aspetos enquanto possibilidades de garantia do direito à cidadania - imaginação, segurança, sentido de comunidade e esperança, e evoca como anti pedagógicas as arquiteturas infantilizadas.
O Eixo 2, Infância (s) e experiências espaciais: do espaço público à casa, inicia com o capítulo cinco - Requalificação urbana e espaços públicos abertos - Heterotopias infantis, onde as autoras debatem, inicialmente, os efeitos da requalificação urbana. Após tais considerações, trazem um exemplo de requalificação urbana, enquanto experiência espacial, Afurada, um modo de vida que se dá “a porta”, Programa Pólis, 2001, fazendo o leitor mergulhar naquilo que ganha destaca no título do próprio capítulo: Heterotopias infantis ou espaços heterótópicos. Logo, lugares de resistência na defesa de valores e práticas das culturas infantis.
De forma metodológica rigorosa, o olhar das autoras sobre o que acontece com a Afurada, revela possibilidades de reinvenção, onde espaços e equipamentos ganham outros atributos de acordo com os ocupantes, as atividades praticadas e seus significados.
O capítulo seis, intitulado Children in public spaces, o autor pondera as consequências da desumanização do espaço urbano para o desenvolvimento social, físico e psicológico das crianças. Assim, continua a discorrer sobre a temática e retoma o conceito de CAC - Cidade Amiga da Criança mencionado no capítulo dois, e reitera que o mesmo apoia o “direito à cidade” das crianças cujas expectativas sobre a cidade devem ser ouvidas de suas próprias vozes e as decisões devem ser tomadas com elas.
Na sequência, o autor traz uma das experiências espaciais realizadas no bairro do Benfica, Lisboa. Para tanto, apresenta algumas questões que nortearam o estudo: (1) Os parques infantis são suficientes para as crianças brincarem ativamente?; (2) Os parques infantis são adequados e totalmente acessíveis para crianças com diferentes idades/habilidades/interesses/competências?; (3) A localização dos parques infantis e suas características de design afetam a densidade de uso?; (4) Os usos dos parques infantis diferem de acordo com os dias e horas; (5) Existe alguma diferença entre meninos e meninas no uso dos parques infantis?. O estudo traz uma gama de sugestões para que as crianças brinquem de forma segura, confortável e livremente.
Já o capitulo sete, El grado cero, os autores tomam como ponto de partida a observação da cidade e infância através de um relato etnográfico visual - captura de jogos e vivências e reinterpretação destes construindo um imaginário coletivo - de cenas da infância e fotografia das ruas.
O título assim o é, dado ao desaparecimento das cenas tangíveis do urbano e dos corpos lúdicos. Desta maneira, pactuam a ideia de olhar a infância a partir do cinema, como documento ou a partir da própria ideia de cinema. Sugerem, pois Benjamin () e Schulz (), do novo cinema, da cidade descoberta, da infância e das decisões educativas.
O capítulo oito, Investigação de fronteira, a autora, após referendar o multimétodo como abordagem promissora no que refere-se à investigação com crianças, descreve um estudo exploratório e experimental realizado no bairro da Torre, com metodologias participativas em um projeto de investigação-ação. A investigação buscou envolver os participantes num processo de aprendizagem social e empoderamento com o intuito de se operar um mudança social.
O Eixo 2 é concluído com o capítulo nove, Projetar o ambiente arquitetónico para a infância- o espaço da casa que nos faz sonhar, criar, brincar e crescer, onde a autora a partir da pergunta principal da investigação: quais as opiniões e as perceções das crianças sobre o espaço da casa?, traçou três objetivos: 1. compreender a importância do ambiente do quarto para o desenvolvimento das crianças; 2. valorizar o trabalho do arquiteto como idealizador do espaço da criança na casa da família; 3. posicionar a arquitetura como veículo de expressão das vozes das crianças procurando sensibilizar os pais sobre a importância de lhes concederem a voz no que diz respeito à projeção do espaço de utilização delas próprias.
À vista disto, a autora dividiu o texto em três partes: parte um - o espaço e o desenvolvimento infantil: o pioneirismo do trabalho de Montessori - destacou que o mesmo concretizou-se enquanto proposta adequada ao grupo social das crianças; parte dois - Escutar as crianças: estratégias e metodologias utilizadas na investigação - pesquisa bibliográfica e análise documental em conjunto com a realização de entrevistas e desenhos por parte das crianças e, por fim, parte três - O que aprendemos com as crianças? - Analise dos dados recolhidos durante a investigação.
Especificamente, e válido relatar, enquanto pista para o leitor que inicia sua trajetória como investigador, ou mesmo para os que já iniciaram e desejam aprofundar-se no assunto, que a temática apresenta pouco trabalho empírico. Portanto, um caminho que pode ser explorado trazendo contributos que fomentam o debate. Todavia, a fim de opulentar o debate, cabe ao investigador perguntar: que criança é essa que será ouvida para projetar o seu próprio ambiente (quarto)? Será uma criança que mora na periferia? Como seria facultado o acesso ao arquiteto enquanto idealizador deste espaço na família? Será que a criança da habitação social teria essa mesma oportunidade de ser ouvida? Se sim, como?
A última parte, o Eixo 3, intitulado Infância(s) e espaços escolares, começa com o capítulo dez, Avaliação dos espaços escolares por alunos do ensino básico - Diversidade de vivências e apreciações, e apresenta, à semelhança do capítulo nove, um campo fértil de investigação dada a escassez de pesquisas que analisem a relação das crianças com o espaço escolar, a avaliação que fazem deste espaço e das necessidades que sentem no cotidiano escolar.
Neste sentido, as autoras afirmam que o contributo não advém de pesquisas realizadas que tenha como objeto central o espaço escolar. Assim, intersetaram tal questão e fornecem elementos para reflexão em torno da mesma. Para tanto, o texto traz pesquisas realizadas pelo CIES - IUL - Centro de Investigação e Estudos em Sociologia do Instituto da Universidade de Lisboa desenvolvidas em tempos diferentes: 2003 - Inquérito aos aluno de Lisboa e Loures; 2007 - Inquérito aos trajetos de descendentes de imigrantes e 2014 - Inquérito aos brasileiros em escola pública. Dado as especificidades do estudo, as autoras sugerem um multimétodo para estudos futuros.
O capítulo onze, Da escola arquipélago à escola em rede - os espaços da infância como realidades descontínuas, tem como objetivo analisar a forma como a nível local os diversos agentes institucionais relevantes na garantia dos direitos das crianças interagem e cooperam para atingir este fim.
A metodologia empregada, refere-se a um conjunto de pesquisas sobre violência na escola realizadas em diversos agrupamentos de escolas de um conselho de Lisboa. Os resultados apresentam necessidade de maior convergência e dinamismo das instituições a nível de conselho, visto que as organizações cujos dirigentes se conhecem face a face têm maior relevância na capacidade local.
À guisa de conclusão, o livro apresenta o capítulo doze, Perceções dos jovens a partir do edificado escolar - Um olhar preliminar a partir da noção de instituições totais, onde o autor e a autora, delineou como objetivo refletir sobre as representações da escola com base na auscultação de sentimentos, memórias e aprendizagens que os jovens identificam a partir da visualização de fotografias sobre o edifício escolar. A uberdade do capítulo encontra-se na proposta metodológica sugerida por ambos no processo de investigação: uma pesquisa de natureza qualitativa, amparada na sociologia visual - produção da imagem.
O autor e a autora elucubram sobre a escola enquanto lugar de socialização, fundamental para o desenvolvimento psicossocial do indivíduo, não enquanto instituição totalitária.
Concluir a leitura da obra Espaço(s) com e para a(s) criança(s). Olhares plurais a partir das ciências sociais, da arquitetura e do urbanismo, é como ter feito uma visita a Fedora (). Marco Polo, responsável por descrever ao conquistador Kublai Khan cada cidade visitada de um infinito império, chegou a Fedora. A mesma é descrita como:
No atlas do seu império, Ó Grande Khan, devem constar tanto a grande Fedora de pedra quanto as pequenas Fedoras das esferas de vidro. Não porque sejam igualmente reais, mais porque são todas supostas. Uma reúne o que é considerado necessário, mais ainda não o é; as outras, o que se imagina possível e num minuto mais tarde deixa de sê-lo (p.16)
Assim, o leitor também chegará a Fedora! De um lado a obra apresenta aquilo que é considerado necessário no tocante à temática da infância e espaço – consagração do direito à cidade para além dos aspectos normativos; possibilidades de metodologias e/ou estudos aprofundados sobre a temática; do outro, o que se imagina possível - ouvir as vozes das crianças enquanto possibilidade de firmar políticas públicas e no seu espaço privado - família, potencializar a resignificação dos espaços por parte das crianças quando estes sofreram alterações. É sobre este último aspecto, o que se imagina possível, que Tonucci () confere à criança um papel importante: o que a criança pode representar para a cidade, as cidades podem representá-lo para o nosso país - a política, a boa administração, a participação e o controlo democrático começam pelas cidades, assim como pelas cidades começa o acolhimento, a solidariedade. Num momento de tão grande e grave degradação social e moral, as crianças poderão salvar as nossas cidades e estas, o nosso país. Portanto, um percurso frutífero.

