1. INTRODUÇÃO
O manuscrito do Dicionário Português Chinês (em chinês: 葡漢辭典), compilado entre 1580 e 1581, é, mesmo que inacabado, a primeira obra lexicográfica bilíngue em português e chinês (; ). Esse marco na história da lexicografia das línguas portuguesa e chinesa foi encontrado em 1934 pelo sinólogo italiano Pasquale M. D’Elia nos Arquivos da Companhia de Jesus, em Roma (Archivum Romanum Societatis Iesu, ARSI). Em 2001, o manuscrito finalmente foi disponibilizado ao grande público em uma edição facsimilar (). Nos últimos 40 anos, o Dicionário Português-Chinês (DPC), cujo fólio 33r está reproduzido na Figura 1, tem sido objeto de um amplo conjunto de reflexões historiográficas, filológicas e linguísticas, dentre os quais, ; ; Barreto (, , , ); ; ; ; Levi (, , , ); ; ; ; ; Yang (, , ); ; , entre outros.
Estudiosos como , Yang (, , ), e Zhang (, ), entre outros, têm contribuído para a descrição do conteúdo do documento manuscrito, no entanto, não há, na literatura, uma discussão completa sobre a ordem da redação das entradas e dos demais itens do DPC. Dessa forma, nosso objetivo é discutir a ordem de redação das entradas em português, da notação romanizada, dos caracteres chineses e das notações posteriores em italiano, e da revisão do DPC. Dessa maneira, realçaremos detalhes do trabalho lexicográfico dos assistentes de cada parte do DPC, auxiliando nosso entendimento sobre a natureza do trabalho e o percurso de amadurecimento de seu autor principal. Para este trabalho, além da edição fac-similar (), recorremos ao manuscrito original, depositado no Arquivo da Companhia de Jesus, em Roma. Na visita ao ARSI, além de observarmos aspectos importantes do códice Jap.-Sin. I, 198, analisamos os tipos de tinta empregados no manuscrito e as eventuais emendas pouco destacadas na edição fac-similar.
O trabalho está organizado da seguinte forma: após essa introdução, apresentamos a contribuição metodológica da Filologia para a análise da obra e de seu contexto de produção, seguida de uma descrição do manuscrito. Posteriormente, apresentamos uma análise da ordem de redação das entradas, das notações romanizadas, das grafias chinesas, das anotações em italiano e das partes revistas no trabalho, bem como evidências que demonstram que Ruggieri é o autor principal do DPC. Em seguida, apresentamos nossas considerações finais.
2. MÉTODOS, METODOLOGIA E CONTEXTO DE PRODUÇÃO DO DPC
A Filologia investiga os textos escritos do passado para fins de estabelecimento, fixação, interpretação e edição, incluindo a crítica textual, a compilação de comentários, os estudos estilísticos e métricos, considerando a originalidade do texto e a restituição do significado na medida do possível (, ; ; ). Contudo, a edição de textos requer outras disciplinas auxiliares para a análise física do texto e de seu meio, como a paleografia. A diplomática, por sua vez, permite determinar a autenticidade de um manuscrito examinado ao compará-lo com outras produções do mesmo autor. Por fim, a codicologia, permite conhecer os materiais utilizados na produção de manuscrito e analisá-lo, tendo em vista as informações paleográficas e diplomáticas. Dessa maneira, aqui valemo-nos da função adjetiva da Filologia, isto é, da possibilidade de deduzir e analisar do texto elementos que nos permitem compreender sua ordem de produção e os agentes envolvidos (; ).
O DPC é parte de um conjunto de documentos agrupados no códice Jap.-Sin. I, 198, e compreende 189 fólios manuscritos em papel chinês, com dimensões de 23 x 16,5 cm. O códice contém um conjunto de documentos reunidos a posteriori e numerados sequencialmente. Assim, essa numeração foi adicionada por um arquivista e, portanto, não se trata necessariamente de uma organização original, como proposta por seu autor no séculoxvi. Em linhas gerais, o códice pode ser dividido em três partes: a seção do Dicionário Português-Chinês, e as partes dos fólios soltos que o precedem e o sucedem. O corpo principal do DPC abrange os fólios 32r-156v, embora contenha vários em branco.
A ideia da compilação de um dicionário bilíngue português-chinês foi estimulada pelo jesuíta italiano Alessandro Valignano (1539-1606), hierárquico superior de Michele Ruggieri (1543-1607). Desde o início de sua chegada a Macau, China, Ruggieri atuou sob a coordenação de Valignano, com o objetivo de aprender a ler, escrever e falar a língua chinesa, sendo “the first step towards the cultural penetration of China” (). Em uma carta endereçada ao Padre Claudio Acquaviva, datada de 7 de fevereiro de 1583, Ruggieri menciona que, em Macau, teve grande dificuldade em encontrar naquela época um professor para lhe ensinar a língua mandarim da Corte porque, fora de Macau, não se falava o português, por isso,
(...) fu necessario che con pinture me insegnasse le lettere cine e anco la lingua; come, per exemplo, volendomi insegnar come se chiama il cavallo in questa lingua, e como se scrive, pintava un cavallo e sopra di quello pintava la figura che significa cavallo, e se chiama ma, cose certamente ridiculosa, e pareva agli Portoghesi, e anche alli padrj, cosa impossibile de poter io imparare di quella maneira. ()
Portanto, o início do aprendizado foi difícil, mas Ruggieri conclui que “Ma la virtù e la forza de l’obedientia me dava animo, inclinatione e anche facilità”. E per la gracia del Signore Iddio cominciaj a imparar a quel modo di leggere li loro librj (...).” (). Contudo, o labor de compilação de um dicionário é de natureza coletiva, e o DPC não constitui exceção a essa regra. Assumimos que, embora o DPC tenha sido elaborado por agentes europeus e chineses, o autor líder da empreitada foi Michele Ruggieri, corroborando e . Aqui, todavia, consideramos que o agente principal e líder da equipe responsável pelo DPC não era um lexicógrafo profissional e sequer possuía experiência na compilação de dicionários. Por isso, investigar o processo de redação das várias partes do DPC nos permite compreender o labor lexicográfico de Ruggieri em um momento em que a própria atividade de compilação de dicionários bilíngues era recente no Império Português. Como atividade prática, a compilação de um dicionário requer reflexão sobre sua macro- e microestrutura, além de compreensão da natureza das palavras nas línguas de partida e de alvo. Atualmente, a lexicografia constitui uma das subdisciplinas da Linguística Aplicada. No entanto, no século xvi, já havia reflexão sobre o trabalho lexicográfico. , por exemplo, menciona, entre outros aspectos, a questão trivial do uso não estrito da ordem alfabética no dicionário de . Para , a ordem não muito alfabética de Cardoso deriva de um conjunto de concepções linguísticas na prática lexicográfica da época:
Diremos que, em Jerônimo Cardoso, a ordem alfabética apenas tem a função auxiliar de retomada da ordem, mas não configura a ordenação em si dos verbetes. Desse modo, há necessidade de distinguir ordem (que só pode ser alfabética) de ordenação (que revela outros critérios além do alfabético). ()
Se o léxico reflete a realidade dos falantes, as obras lexicográficas são um instrumento útil para registrar as diferentes dimensões da língua de determinada época (). Os dicionários (e os vocabulários) bilíngues, por sua vez, contêm a equivalência de unidades lexicais entre duas línguas e constituem material valioso para linguistas, filólogos, historiadores e interessados em geral. Ademais, caracteriza-se como um espelho que reflete os conhecimentos, costumes e práticas existentes na época, marcando o contato entre línguas e culturas de regiões geograficamente distintas no mundo. Mesmo que seja um trabalho inacabado (não chegou a ser publicado), trata-se de um documento valioso para a tentativa de interpretar as técnicas empregadas e até mesmo as dificuldades encontradas no processo de compilação, bem como para relevar aspectos das culturas e das línguas envolvidas. Assim, um momento auspicioso do encontro entre o Oriente e o Ocidente, do zelo e da dedicação dos missionários ocidentais, a insistência de Valignano no aprendizado do idioma e da cultura chinesa pelos missionários estacionados em Macau, além da estratégia ativa de adaptação cultural por parte dos ocidentais, constituem uma nota essencial para a história das relações entre a China e o Ocidente no final do século xvi. O Dicionário Português-Chinês foi elaborado nesse contexto.
Basicamente, o processo de compilação do DPC pode ser dividido em duas partes. Inicialmente, o autor (líder) utilizou uma lista pré-preparada por um amanuense, com as entradas de A-C, copiadas diretamente do dicionário de . Podemos afirmar que, pelo menos nos fólios A-C, o autor pressupôs que a tarefa seria executada de determinada maneira. Sem embargo, a própria coleta e o confronto entre os itens lexicais de duas línguas de tipologia muito diversas, o fez abandonar essa lista de palavras pré-preparada e, utilizar uma técnica que considerasse as correspondências lexicais que conseguia do(s) assistente(s) chineses, mas que fosse flexível o suficiente para abandonar entradas da lista original de . Dessa forma, pode-se dizer que a parte das entradas de D a Z do DPC pode ser considerada autoral, isto é, se configura em algo diverso do que uma mera cópia da lista de (Cardoso), revelando assim, um entendimento do autor sobre a sua própria prática lexicográfica. Neste sentido, então, é necessário assumir que o principal autor do DPC liderou o trabalho de compilação do dicionário, sem nenhuma experiência prévia (pelo menos não se conhece trabalho lexicográfico prévio de Ruggieri, nem menção própria de seu interesse no assunto antes de sua partida à Macau), mas acabou por tomar decisões que revelam o melhor aproveitamento dos recursos humanos disponíveis e que, em seu percurso, foi transformado em um lexicógrafo diletante. Além de liderar os assistentes, Ruggieri teria sido responsável pelas entradas da seção D-Z na primeira coluna, pelas notações romanizadas na segunda coluna e pela coluna em italiano, bem como por ter contribuído com sua própria escrita em caracteres chineses adicionados em vários pontos no DPC. No entanto, Ruggieri estava em processo de aprendizado e, portanto, sua caligrafia chinesa é imatura.
A escrita dos ideogramas chineses requer prática sistemática. Assim, as características da caligrafia, por sua vez, constituem um reflexo direto das manifestações desse hábito de escrita. defende que o processo de formação do hábito na prática da escrita de caracteres chineses pode ser dividido em quatro fases: início, evolução, estabelecimento e pós-estabelecimento. Aqui, denominamos caligrafia imatura a prática da escrita de caracteres por indivíduos nas fases de início e evolução. A fase inicial inclui, comumente, praticantes, crianças em idade pré-escolar e adultos, tanto nativos quanto não nativos, que estão no processo de ‘alfabetização’ inicial ou de aprendizagem da língua chinesa escrita. Neste momento, o estabelecimento da relação entre a forma e o significado dos caracteres chineses está apenas no estágio inicial. Os caracteres chineses são formados por elementos denominados traços, que têm formas específicas. Esses traços componentes devem ser desenhados (escritos) em determinada ordem e com traçados específicos. A prática da ordem adequada para desenhar os tipos de ‘traços’ é crucial para que o aprendente se torne habilidoso. Na Figura 2, o caractere chinês 開 (kāi), por exemplo, contém 12 traços, de diferentes tamanhos e formas.
Para um escritor com pouca experiência, é comum desenhar caracteres incorretos ou utilizar erroneamente caracteres com formas semelhantes. Por isso, frequentemente pode haver confusão entre a forma e o significado dos caracteres chineses nas fases iniciais de aprendizagem. Na Figura 3, o caractere chinês 開 (kāi) foi escrito no DPC por uma mão imatura, possivelmente, de Ruggieri. Pode-se observar que, no interior do radical 門 (mén), há o caractere 井 (jǐng); porém, o caractere correto é 开 (kāi). Na fase inicial, o movimento da mão é frequentemente influenciado pela imitação ou pela memorização, o que pode resultar em uma escrita pouco controlada. A postura incorreta ao segurar o pincel (ou caneta) pode levar a uma estrutura caligráfica desproporcional, e a tinta tende a ser mais uniforme, sem variações de espessura e de fluidez nas pinceladas, o que torna o traço mais monótono. Assim, os traços na Figura 3 são uniformemente retos e não há diferenciação entre as diversas formas. Na Figura 4, por sua vez, o mesmo caractere foi escrito por uma mão estabelecida (experiente) e contém caracteres corretos, além de apresentar fluidez na forma e no uso dos traços adequados.
Na Figura 5, observa-se a escrita incorreta do caractere chinês 薨 (hōng). A representação deste caractere de 16 traços foi produzida por uma mão imatura e apresenta a omissão de dois traços (a posição do aparente traço horizontal ausente, formado por dois traços, foi destacada). A Figura 6, por sua vez, apresenta a forma correta.
A composição do caractere 薨 (hōng) é complexa. Os traços 9 e 10, destacados com um grifo, na Figura 7, estão ausentes na escrita imatura exposta na Figura 5.
Na fase de evolução, as habilidades de escrita aumentam um pouco, com tendência a formas mais consistentes em tamanho e a maior ligação de traços. As características da caligrafia, porém, são mais variáveis nesse estágio, com mudanças frequentes entre as práticas antigas e as novas. No DPC, observa-se evolução da mão imatura, especialmente na segunda metade do manuscrito. Como exemplificado na Figura 8, tanto o caractere chinês 輕 (huài) como 淡 (dàn) exibem características de ligação de traços, contudo, tanto o radical 工 como o radical 氵foram simplificados para dois traços. Outrossim, esses dois caracteres chineses continuam a apresentar características típicas de um iniciante: uma aplicação de tinta relativamente monótona, com rigidez no movimento para o próximo traço e uma estrutura geral ainda não completamente harmoniosa. Encontramos, no DPC, a escrita madura dos mesmos caracteres chineses 輕 (Figura 9) e 淡 (Figura 10), exibidos aqui isoladamente a título de comparação, para exemplificarmos a escrita madura (Figura 9 e Figura 10) e imatura (Figura 8). O primeiro caractere 輕, na Figura 9, apresenta uma estrutura uniforme, com as linhas horizontais e verticais dispostas adequadamente. O caractere 淡, na Figura 10, por sua vez, exibe igualmente pinceladas rítmicas, cuja aparência geral é organizada, com traços fluidos e naturais.
Dessa forma, o conceito de maturidade na escrita é fundamental na caligrafia chinesa. Destarte, aqui, é crucial distinguir as mãos do autor líder do DPC e de seus assistentes.
3. A ORDEM DE COMPILAÇÃO DO DPC
Na literatura, poucos trabalhos abordam explicitamente a ordem de redação do DPC. Yao (2015), por exemplo, concentra-se principalmente na escrita dos caracteres chineses e destaca a ordem de compilação do DPC, propondo um processo tríplice, envolvendo um ocidental selecionando termos em português com base em um dicionário, um coordenador chinês elaborando correspondências em chinês e um ocidental adicionando a notação romanizada a partir da pronúncia em chinês. Entretanto, essa hipótese simplifica demais o processo de compilação e contraria sua complexidade real. Foi estabelecido, consensualmente, que os termos em italiano na quarta coluna foram adicionados posteriormente por uma mão europeia. Além disso, afirmou que, na parte das entradas em português, dois copistas teriam elaborado a lista de palavras portuguesas seguindo um método ditado. Outrossim, concordamos com a hipótese de , que sugere que os verbetes geralmente seguem a ordem do dicionário de , embora as grafias nem sempre correspondam estritamente à ortografia do dicionário de base, o que sugere fortemente uma lista ditada e não copiada item por item. e , entre outros, observaram que emendas significativas, especialmente em caracteres chineses, enriqueceram as traduções e tiveram origem europeia. Ademais, nem sempre o DPC segue a ordem alfabética. Esse aspecto aparentemente caótico da ordenação apresentada no DPC foi influenciado, em grande medida, pelo dicionário de .
, contudo, sugere uma alternância entre a pessoa que ditava e a pessoa que anotava a parte ditada. Ademais, quanto à hipótese de acerca da alternância de papéis da pessoa que ditava, e destacaram a ocorrência de uma possível alternância de mãos na produção de determinadas entradas iniciadas com a letra C. Porém, esses autores abstiveram-se de fornecer exemplos concretos. Adicionalmente, comentaram, em uma nota, que essa alternância de mãos se manifestou no começo das partes correspondentes às letras L e M. Ao revisar as entradas iniciadas com as letras C, L e M, porém, a evidência interpretada pelos autores como indicativa de outra mão é, na realidade, uma variação no uso de tinta. De forma geral, constata-se uma homogeneidade tanto na seção A-C quanto na seção D-Z, no que diz respeito à mão do redator que elaborou as entradas em português. Portanto, a regularidade das seções A-C e D-Z rechaça a hipótese de Zamponi.
Em resumo, os itens em português foram retirados principalmente da lista de entradas do dicionário de , seguindo uma abordagem na seção A-C e outra na seção D-Z. Portanto, na parte em português, isto é, na primeira coluna do DPC, há duas mãos: a primeira, de um amanuense (como se observa na caligrafia profissional e coesa), e a segunda, do autor-líder do DPC (uma caligrafia pessoal e sem esmero técnico), escrita, na maior parte das vezes, no momento da interpretação romanizada da pronúncia dos dados chineses.
Para uma análise da caligrafia do autor líder, Michele Ruggieri, optamos por apresentar um conjunto documental de três peças, tendo em vista sua datação, associada à época de sua produção. Conjunto este, formado por um fólio do DPC, um manuscrito de 1578 e uma carta de 1584, sendo estes dois últimos de autoria confirmada de Ruggieri. Escolhemos as grafias do mesmo período, pois a escrita de uma pessoa tende a manter certa consistência em um curto intervalo de tempo. Na Figura 11, apresentamos uma reprodução do fólio 129v do manuscrito do DPC (adiante manuscrito 1, M1), sendo de interesse a produção textual das primeiras e das segundas colunas, escritas pelas mesmas mãos. Na Figura 12 e Figura 13, por sua vez, dois textos escritos (M2 e M3) por Ruggieri, sendo o último assinado pelo autor.
Em primeiro lugar, observou-se que os traços caligráficos, incluindo o estilo das letras, a inclinação e a forma da assinatura, são consistentes entre as três amostras. A assinatura na Figura 13, especificamente, apresenta características típicas de Ruggieri, como a mesma fluidez no desenho do “M” inicial, seja na palavra ‘migalha’ (Figura 14), seja em sua assinatura (Figura 15).
O manuscrito do DPC também apresenta um padrão coerente, caracterizado pela mesma grafia e pelo mesmo estilo de escrita nas partes em português das seções D-Z, o que reforça a interconexão entre o Dicionário e os dois documentos ruggierianos aqui apresentados. Exemplos claros dessa semelhança podem ser observados nas letras <f>, <d>, <p> e <g>. Elementos mais sutis, como a pressão da pena e o uso de certos traços ornamentais ou detalhes gráficos, são idênticos nestas amostras. Assim, no Quadro 1, a grafia de <f> identificada com o número 2, revela uma característica na qual a parte inferior da primeira linha do traço, uma serifa à esquerda do <f>, possui um movimento mais alongado e pesado, no M1, resultando em um maior acúmulo de tinta na serifa inferior, como também pode ser observado nos itens de número 2 do M2 e do M3. Da mesma forma, a consoante <d> apresenta maior concentração de tinta na parte superior do traço inicial, na serifa à esquerda, nos exemplos identificados com o número 1. Quando concatenado às vogais subsequentes, o <d> perde a serifa à esquerda e ganha uma pequena serifa à direita. Para <p>, apresentamos três ocorrências da letra maiúscula, com serifas decorativas semelhantes. Por fim, <g> é representado três vezes, com uma redução de peso na parte final do gancho inferior, em direção ao centro da letra. As correspondências entre esses excertos indicam que, embora possa haver variações sutis devido ao contexto de escrita, as grafias são do mesmo autor, Michele Ruggieri.
| Letra | Exemplo no M1 | Exemplo no M2 | Exemplo no M3 |
|---|---|---|---|
| <f> | |||
| <d> | |||
| <p> | |||
| <g> |
Em fevereiro de 2024, realizamos uma visita ao ARSI em Roma. Na ocasião, obtivemos cópias digitalizadas de diversos documentos, incluindo o DPC, e identificamos as tintas distintas empregadas no manuscrito do Dicionário. Além disso, obtivemos uma cópia de um documento autógrafo de Matteo Ricci (cf. Códice Jap.– Sin., 9 II), amplamente reconhecido como o principal autor do DPC. Na Figura 16, é possível observar a grafia de Ricci. Defendemos que esta grafia de Ricci não se alinha, em nenhum momento, à existente no DPC; ou seja, inexiste qualquer semelhança entre a grafia de Ricci e as grafias não chinesas do DPC. Portanto, Ricci não pode ser considerado autor ou coautor.
Além das evidências apresentadas, o DPC pertencia a Ruggieri e foi encontrado no seu espólio. Ademais, nenhum jesuíta assumiu a autoria do trabalho nem mencionou, em outro documento, que trabalhava em um dicionário. Por fim, itens lexicais (palavras e expressões) encontrados no DPC foram empregados por Ruggieri em suas traduções, como demonstrado por . Ruggieri, portanto, deve ser considerado o autor líder do DPC.
No que diz respeito ao processo de redação propriamente dito, a lista de entradas de A-C foi copiada sem os equivalentes, mantendo as demais ‘colunas’ em branco, isto é, a seção A-C foi elaborada previamente. Ao simplesmente elencar as entradas em português a partir de , o amanuense as redigiu em linhas muito próximas, o que dificultou a inserção dos demais itens nas demais ‘colunas’, que, por sua vez, seriam adicionadas em momento posterior. Contudo, a abordagem empregada na parte A-C produzia uma quantidade enorme de itens sem equivalentes em chinês (possivelmente pela incapacidade do compilador europeu de se fazer entender pelo tradutor ou pela inabilidade do(s) colaborador(es) chinês(es) em oferecer um equivalente), sem desmerecer os colaboradores chineses que não tinham a obrigação de conhecer todas as palavras do dicionário de , apresentadas em situações abstratas e seguindo um padrão de lista, com pouco ou nenhum contexto de uso.
Ao examinarmos o DPC, fica evidente que as entradas em português que começam com A-C diferem substancialmente das que começam com D-Z. Consideramos, portanto, que as entradas em português na seção D-Z e todas as notações romanizadas foram escritas por Ruggieri, diferentemente das entradas em português na seção A-C, por um amanuense.
Na Figura 17, pode-se observar que as entradas em português na seção A-C empregam uma tipografia humanista, caracterizada por sua legibilidade e clareza: utilizam traços fluidos e finos, frequentemente apresentam traços de escrita cursiva e inclinação (leve) à direita. Este estilo foi amplamente adotado por estudiosos e monges nos séculos xv e xvi na elaboração de cópias de manuscritos. Podemos até notar uma heterogeneidade na caligrafia no mesmo fólio: as entradas em português na primeira coluna empregam uma fonte humanística mais legível, enquanto as notações romanizadas na segunda coluna são mais rápidas e informais, o que indica que as duas primeiras colunas da seção A-C foram escritas por indivíduos distintos. No que diz respeito à seção D-Z, como exemplificado na Figura 18, o estilo de escrita é cursivo, com formas bem arredondadas, geralmente anotado de forma rápida e sem apuro técnico, o que muitas vezes pode tornar a leitura desafiadora. Aditivamente, identificamos a consistência entre este estilo nas entradas em português começadas na seção D-Z e nas romanizações.
Para documentar apenas as entradas com equivalentes em chinês e eliminar as sem equivalentes, como se observa na seção A-C, o método de compilação foi radicalmente alterado na seção D-Z. Inicialmente, pode-se observar que, na redação das entradas de D a Z, a primeira coluna (em português) apresenta um espaçamento maior entre as linhas, o que permite a escrita de itens na segunda coluna antes de se passar à anotação da próxima entrada. A mudança da técnica se deve ao fato de que a entrada seguinte (em português) somente foi anotada quando o autor foi capaz de propor uma transliteração do que ouvia em chinês, após os colaboradores chineses oferecerem um ou mais equivalentes em chinês. Dessa forma, na seção D-Z, o item lexical (a entrada) era inicialmente ditado (por um colaborador falante de português). Em seguida, o redator consultava um ou mais falantes nativos de chinês para obter o equivalente (em chinês) e sua pronúncia, registrando a entrada portuguesa e o resultado romanizado de forma imediata. Em muitos casos, quando se deparava com entradas que os colaboradores chineses não conseguiam compreender ou traduzir, ou com o compilador que não se fazia entender, o autor sequer anotava essas entradas incompletas, abandonando-as. Isso resultou em equivalentes chineses para a maioria das entradas em português anotadas na seção D-Z, enquanto, na seção A-C, muitas palavras em português permaneceram sem equivalentes chineses. Após uma breve análise estatística, de modo geral, quase 1/6 das palavras em português no DPC não foram traduzidas, sendo 33% na primeira seção (A-C) e 5% na segunda (D-Z). Essa diferença é compreensível, pois um dicionário contém também formas cultas e vernaculares que podem estar fora do conhecimento do colaborador chinês e do próprio autor (Ruggieri, um falante nativo de italiano), supondo, igualmente, que os próprios colaboradores chineses e o autor não eram completamente proficientes na língua portuguesa.
De acordo com , pelo menos três mãos atuaram na produção do DPC nas colunas em português, na parte da notação romanizada e do italiano: uma mão da seção A-C na primeira coluna, outra nas primeiras duas colunas da seção D-Z e outra nas colunas centrais da seção A-C, que possivelmente se relaciona à coluna das romanizações. Os autores também afirmaram que, na terceira coluna da escrita chinesa, há pelo menos outra mão, porém não conduziram uma análise mais aprofundada da parte chinesa. Nossa hipótese sobre as mãos na produção do DPC é diferente da defendida por , há pelo menos duas mãos na parte da escrita ocidental: uma mão da seção A-C na primeira coluna (PT1), uma mão na coluna central e na coluna italiana da seção A-C e nas primeiras duas colunas da seção D-Z (PT2).
No que diz respeito à parte chinesa, a nossa análise sugere a presença de pelo menos quatro mãos, responsáveis pelas seguintes contribuições:
-
(1)
- a.
Equivalentes chineses na seção A-C e em partes da seção D-Z;
- b.
Equivalentes chineses na seção D-Z e em partes da seção A-C;
- c.
Emendas chinesas na seção A-Z, com caligrafia imatura, incluindo algumas palavras ou letras em português em momentos diferentes e emendas de poucos caracteres chineses, com tinta marcadamente diferente, com caligrafia chinesa mais habilidosa, porém, ainda imatura;
- d.
Emendas chinesas na seção D-Z.
- a.
O Quadro 2 contém o mesmo caractere chinês 開 (kāi), escrito por diferentes mãos. Esse caractere aparece várias vezes em diferentes seções no DPC e nos permite ilustrar as distintas formas encontradas no texto. Na coluna ‘escrita’, listamos cinco possíveis mãos. Como há raras menções na documentação disponível sobre os colaboradores e seus papéis, é difícil conjecturar sua contribuição real (ver para uma discussão sobre os auxiliares chineses). CH4 e CH5 possivelmente derivaram do mesmo redator, porém em momentos distintos. Supomos que esse redator seja Ruggieri, e a diferença na qualidade da grafia revela maior familiaridade com a escrita em caracteres chineses. Assim, CH4 é uma mão muito imatura que redige em caligrafia chinesa, ao passo que, em CH5, há uma grande evolução qualitativa.
Nos fólios 33v (Figura 19), por exemplo, é possível observar algumas entradas redigidas com uma tinta diferente da empregada no mesmo fólio. Possivelmente, essa tinta foi usada em momento posterior à coleta inicial dos dados.

Na segunda coluna da Figura 19, nas linhas [3], [4], [9] e [10], pode-se observar que as formas romanizadas <coi>, <yen>, <zai> e <ti yo> foram registradas com tinta distinta dos demais itens da coluna, porém semelhantes às utilizadas na escrita de toda a parte em italiano na quarta coluna (mão IT1). Essa evidência sugere uma revisão por parte de Ruggieri e a adição de itens em italiano e de romanizações. Assim, a escrita da parte italiana foi elaborada pela mesma mão responsável pela notação romanizada, pelas entradas de D-Z e por diversas intervenções em caligrafia chinesa imatura encontradas no DPC. Além disso, há emendas com tintas marcadamente distintas na primeira, segunda e terceira colunas, várias vezes no DPC, como nos casos dos fólios 32r, 33v, 37v, 40a, 63v, 73r e 156r. Essas emendas ocorrem tanto na seção A-C, como na D-Z. A escrita de algumas emendas foi identificada como a mesma que a escrita pela mão PT2, e a tinta empregada foi idêntica à empregada na escrita IT1 na quarta coluna (cf. Figura 20, Figura 21, Figura 22 e Figura 23).

Na Figura 24, as emendas chinesas mostram uma tinta marcadamente diferente na terceira coluna, com caligrafia imatura, sendo possivelmente um exemplo da escrita CH5.
A Figura 25, por sua vez, revela que 生物 e 天主生萬物 foram adicionadas posteriormente por outra mão (CH5). Os caracteres 天主生萬物 foram inicialmente escritos na entrada “Crestal comeas” (primeira linha da Figura 25), mas posteriormente riscados e reanotados na última linha. A parte de sua romanização quase se sobrepõe aos caracteres chineses. É necessário, em momento futuro, realizar uma investigação completa sobre essas emendas.
Posto, isto, identificaram dois tipos de escrita principais em língua portuguesa (PT), em italiano (IT) e cinco tipos em língua chinesa (CH). Considerando a possível sobreposição entre os redatores das seções em chinês e em português, é razoável afirmar que pelo menos cinco indivíduos estiveram envolvidos no trabalho de redação de todo o DPC.
Há duas mãos na caligrafia em língua portuguesa: um amanuense português (PT1) preparou as entradas de A-C, ao passo que um agente europeu (PT2) ficou responsável pelo resto da escrita em português (e em italiano, IT1). Adicionalmente, a produção de um dicionário bilíngue, como o DPC, requer conhecimento das línguas de partida e da língua-alvo, ou a participação de um (ou mais de um) conhecedor de ambas as línguas. Assim, o fato de haver três mãos chinesas (CH1, CH2 e CH3) versadas em caligrafia no DPC comprova que, de fato, houve a colaboração de pelo menos três agentes chineses com conhecimento de português (ver para uma discussão sobre os auxiliares chineses). Há uma quarta mão que escreve na caligrafia chinesa no DPC, porém, essa mão é de um agente europeu, com uma caligrafia imatura no início do processo (CH4), mas com avanços substanciais na técnica caligráfica da língua chinesa no processo de revisão (CH5).
Desta forma, podemos analisar, separadamente, as entradas das diferentes seções em relação à ordem de compilação do DPC. Na seção A-C, uma característica notável é o desalinhamento regular entre as entradas em português (primeira coluna), os equivalentes em chinês (terceira coluna) e suas romanizações (segunda coluna). Isso confirma que a lista portuguesa foi preparada de antemão e que a tarefa do autor (Ruggieri) era ‘preencher’ as demais colunas com a ajuda de colaboradores chineses. Pode-se observar que o amanuense que preparou a lista em português da seção A-C (Figura 26) deixou pouco espaço entre as linhas das entradas, o que fez com que as demais colunas nem sempre apresentassem alinhamento perfeito em relação aos dados da primeira coluna. Todavia, a romanização e os caracteres chineses encontram-se alinhados, o que sugere que o alinhamento entre as linhas era relevante e ocorreu em momento posterior à redação das entradas em português.

Fonte: modificado de Ruggieri e Ricci (2001).
| [1] | Corda corda | so zi | 索子 |
|---|---|---|---|
| [2] | Cordadeuiola | chin schiẽ | 琴弦 |
| [3] | Corda de besta | cum schiẽ | 弓弦 |
| [4] | Cordão de çeda | si tai | 絲帶 |
| [5] | Cordeiro | sie' jam zi - cau | 綿羊子-羔 |
| [6] | Cordel |
Com base nos dados observáveis na Figura 26, o alinhamento adequado deveria evidenciar a relação entre os itens em português, a romanização e os caracteres chineses (Quadro 4).
Na Figura 26, a sequência de palavras foi adaptada do dicionário de , no qual o ordenamento original é ‘corda / corda de linho canemo [cânhamo] / corda de esparto / corda de viola / corda de besta / cordão de seda / cordeiro / cordeirinha / cordel’. Portanto, as entradas em português ‘corda de linha canemo [cânhamo]’, ‘corda de esparto’ e ‘cordeirinha’ não foram copiadas da lista de . Adicionalmente, no DPC, não há equivalente em chinês para a entrada ‘cordel’, isto é, uma forma diminutiva da palavra ‘corda’, embora a entrada tenha sido redigida no DPC (ver linha [6] do Quadro 4). As diferenças entre a lista de palavras de Cardoso e a do amanuense evidenciam variações típicas da grafia portuguesa no século xvi e podem corroborar, igualmente, o fato da lista ter sido ditada ao amanuense, em vez de copiada ipsis litteris. Além disso, as correspondências em chinês estão dispostas na mesma linha das romanizações (ver Figura 26). Há itens com a parte chinesa anotada, sem, contudo, haver uma notação romanizada correspondente (ver Figura 27). Podemos supor, por conseguinte, que, na seção A-C, a redação das entradas portuguesas (primeira coluna) ocorreu em primeiro lugar, seguida da anotação dos equivalentes chineses e, por fim, foi inserida a notação romanizada. As informações em italiano ou as revisões, adicionadas com outra tinta e mão imatura, foram incorporadas posteriormente. Na linha 3, por exemplo, o caractere 貨 pode ter sido inserido posteriormente.
| [1] | Alfaça espareguada | cuo cai ciu ti | 莴菜煮的 |
|---|---|---|---|
| [2] | Alfayate | zai fun | 裁缝 |
| [3] | Alfaya | chia cuo | 家火貨 |
| [4] | Alfayar | ||
| [5] | Alfamdigua | 抽分厰 | |
| [6] | Alferas de bamd[ei]r[as] | ||
| [7] | Alfenete | 計 | |
| [8] | Alforge | fan tai | 飯袋 |
A presença de romanizações incorretamente anotadas também reforça essa conclusão. Um exemplo disso pode ser observado no excerto do fólio 59r do DPC, no qual aparecem as entradas colmea ‘colmeia’ e colmear ‘colmeal’ (Figura 28). Os caracteres 蜂岫 (fēng xiù) são oriundos de uma palavra do dialeto fukiense, que significa ‘colmeia’ ou ‘cortiço’. Todavia, a romanização dessa palavra foi registrada como <fu’ sa’ tien>. O redator da terceira coluna anotou erroneamente o segundo caractere 岫 como dois caracteres separados: 山 (shān) e 田 (tián). O redator que anotou os caracteres chineses na terceira coluna nem sempre é, portanto, o mesmo que o da notação romanizada na segunda coluna, posto que os redatores que escrevem bem os caracteres chineses possuem mãos experientes. Ademais, pode até ser a pessoa que ofereceu a pronúncia ‘dialetal’ dos caracteres chineses a serem romanizados, uma vez que, neste caso, 蜂岫 (fēng xiù) é uma forma equivalente usada por um chinês do dialeto fukiense. Dessa maneira, o colaborador que ofereceu a fonte da romanização podia não conhecer a palavra dialetal fukiense, o que geraria <fu’ sa’ tien>, embora a leitura dos caracteres chineses sugira a notação ‘fēng xiù’. O mesmo fenômeno também foi observado por Yao (2015), que apresenta exemplos de romanizações ‘inapropriadas’. Segundo o autor, esses eventos podem ser atribuídos à falta de conhecimento da língua chinesa (mandarim) por parte dos europeus ou a possíveis equívocos na pronúncia por parte dos auxiliares chineses que poderiam possuir conhecimento limitado dos caracteres.
| [1] | colmea | fu’ sa’ tien | 蜂岫 |
|---|---|---|---|
| [2] | colmear |
Após a seção A-C, observa-se uma mudança significativa na natureza e no método de compilação do DPC. Na seção A-C, a sequência de redação pode ser estabelecida como: entradas em português (lista previamente anotada) > caracteres chineses > notação romanizada (e, posteriormente, em italiano e revisão). Todavia, na seção D-Z, a ordem de redação foi alterada para entradas em português (anotadas no momento da coleta total) > notação romanizada > caracteres chineses (e, posteriormente, italiano e revisão).
Um destaque notável da seção D-Z é a alta taxa de sucesso na coleta de equivalentes em chinês. Isso indica que o autor principal atua de forma mais pragmática no processo de redação do dicionário e abandona uma ideia preconcebida, o que resultava em baixa taxa de sucesso. Ruggieri menciona que aprendeu chinês com o auxílio de imagens, pois os colaboradores chineses não sabiam muito bem falar português. Entretanto, algumas inconsistências entre as romanizações e os equivalentes em chinês, em certos casos, persistiram na seção D-Z:

| [1] | Esfarappado | lan leu | 爛縷① | 藍縷② |
|---|---|---|---|---|
| [2] | Esforçar, dar a[ni]mo | cia’ cçi | 長志① | 助志② |

| [1] | Marca | hau teu | 号頭① | 封皮② |
|---|---|---|---|---|
| [2] | Marco limite de cãpo | chie chiaj | 隔界① | 界止② |
| [3] | Marcar cõ fogo | zo hau | 做號 |

| [1] | Enobreçer | pau yudi | |
|---|---|---|---|
| [2] | Enq[ua]nto | na sci | 那時 |

| [1] | Regatão | fan zi | 販子 | ||
|---|---|---|---|---|---|
| [2] | Regato | sciau bo | |||
| [3] | Regueiro | tien co | 田溝 | 水道 | 溝㳑 |
A nossa hipótese em relação à sequência geral de compilação na seção D-Z assume que, quando o autor estava anotando as entradas ditadas a partir do dicionário de Cardoso (pois nessa parte, as diferenças na escrita portuguesa em relação à língua escrita fixada por Cardoso aumentam, o que reforça o papel de Ruggieri, um italiano não completamente proficiente na escrita da língua portuguesa), um (ou mais de um) colaborador chinês nativo era(m) consultado(s) para se determinar o equivalente oral em chinês. Se houvesse uma correspondência em chinês, isto é, se ambos chegassem a um acordo sobre uma determinada entrada, Ruggieri escrevia a entrada em português e registrava imediatamente a notação romanizada do item, elaborada a partir da pronúncia da língua chinesa. Posteriormente, um colaborador chinês nativo escrevia os caracteres correspondentes na coluna ao lado da forma romanizada. Essa hipótese encontra respaldo em várias evidências no DPC:
-
(2)
- a.
A romanização era redigida depois da entrada em português e, comumente, antes dos equivalentes em escrita chinesa. Com base no exemplo da Figura 33, podemos observar que, na segunda coluna, há a romanização <chien sin>, equivalente ao item <虔心 (qián xīn)> na terceira coluna. Na primeira coluna, encontra-se a entrada deuodo, isto é, ‘devoto’, em português contemporâneo. Imediatamente depois da entrada portuguesa (i. é, à direita), está presente o grafema “ch”. Porém, essa anotação foi riscada, resultando em “ch”, que constitui precisamente a primeira parte da romanização desta entrada, presente na segunda coluna. Isso sugere que a romanização foi escrita imediatamente após a entrada em português, em um momento em que o autor do DPC já tinha acesso ao equivalente oral chinês. A rasura se deve ao fato de o autor ter se lembrado de que deveria manter a notação na segunda coluna do fólio, alinhada com toda a coluna, e não junto à entrada portuguesa. Ainda na Figura 33, podemos observar a presença da mesma mão para a entrada portuguesa e para a notação, ao passo que há duas mãos, marcadas com os números ① e ②, atuando na anotação dos caracteres chineses, o que sugere que o dado foi anotado e, posteriormente, revisto por outro colaborador chinês, que dessa vez, forneceu um conjunto de caracteres diferentes, embora portadores de significados análogos: ① 虔心significa ‘devoto, sincero’, enquanto ② 誠意 significa ‘sinceridade’.
- a.

[1] |
Deuodo ch |
chien sin |
虔心 ① |
誠意 ② |
- b.
Na seção D-Z, as entradas e as notações romanizadas estão alinhadas (cf. Figura 26). Contudo, há desalinhamento na seção chinesa, pois foi elaborada por colaboradores que não participaram da redação da primeira e da segunda colunas. Na Figura 34, por exemplo, os colaboradores chineses, ao escreverem os caracteres relativos à forma <cai cum>, ocuparam duas linhas porque cada uma das equivalências precisou de uma linha, gerando um efeito em cascata (de desalinhamento) nas demais colaborações nas linhas subsequentes. Às vezes, o autor documenta mais de uma forma romanizada na entrada em português. Igualmente, a Figura 34, segundo nossa leitura, também indica que o item na linha [6] Embrenharse, meterse nos matos possui duas formas romanizadas <zaõ sa’ lin> e <zaõ scin san> (Quadro 12), uma em cada linha (fileiras [6] e [7]). Todavia há apenas uma forma chinesa equivalente, 山林, na qual os caracteres chineses não correspondem exatamente à romanização.

Assim, no exemplo apresentado na Figura 34, as entradas da primeira coluna correspondem às da segunda, como na entrada Em breue tempo, ou seja, ‘em breve tempo’, cuja romanização apresentada é <quai>, em chinês 快. Contudo, no fólio 87v (Figura 34), em vez de encontrarmos 快 na mesma linha de Em breue tempo, há o equivalente chinês 掛住, ou seja, item correspondente ao significado da entrada anterior embicar. Nesse caso, não há alinhamento entre as colunas português > romanização > chinês. Portanto, isso constitui evidência de que as entradas em português e as formas romanizadas foram escritas sequencialmente, uma vez que o alinhamento da primeira coluna é exatamente correspondente ao da segunda. Por conseguinte, os equivalentes em chinês (na terceira coluna) devem ter sido adicionados posteriormente.
- c.
Em alguns casos, as romanizações não têm equivalentes em chinês (cf. Figura 35). No exemplo, a entrada em português Denotar possui a forma romanizada <gni cu>, mas a contraparte em chinês não foi redigida. Pode-se tratar de um lapso dos colaboradores chineses ou do principal redator, mas permite-nos demonstrar que, na seção D-Z, a coluna chinesa era inserida após a romanização.

| [1] | Denunciar mal | po hau ciau teu | 不好兆頭 | |
|---|---|---|---|---|
| [2] | Denotar | gni cu | ||
| [3] | d’ouro e | pian ci | 嫖致 | 生得好美貌 |
Já no exemplo da Figura 36, a romanização na linha [3], <na sci cie>, não possui um equivalente em escrita chinesa e, portanto, não está alinhada com nenhum dos equivalentes em chinês encontrados no fólio.

| [1] | Ja aguora | giu chin | 如今 | |
|---|---|---|---|---|
| [2] | Ja muyto a | schiu chieu | 許久① | 這久② |
| [3] | Ja entonçes | na sci cie | ||
| [4] | Ja a pedaço | yeu ye quei - chio zai | 有一會 | 却才 |
Além disso, é possível observar romanizações não correspondentes aos caracteres na terceira coluna. Por exemplo, na Figura 37, a romanização da entrada Escumar da boca é <yeu cheu pau>, a qual poderia ser escrita com os caracteres 有口泡 (yǒu kǒu pào), significando ‘há espuma na boca’; entretanto, na terceira coluna, tem-se o registro de 泡多 (pào duō), romanizada como <yeu cheu pau>. Contudo, os caracteres chineses e a transliteração correspondem literalmente à expressão ‘muita espuma’.

| [1] | Escumar da bocca | yeu cheu pau | 泡多 |
Na Figura 38, por sua vez, a romanização da entrada Estar dependurado é <tiau chij>, cujos caracteres correspondentes deveriam ser 吊起 (diào qǐ), que significa ‘pendurar’, em vez de 吊在 (diào zài), presentes na terceira coluna, que significa ‘estar pendurado em’.

| [1] | Estar dependurado | tiau chij | 吊在 |
Por fim, na Figura 39, a entrada Estar fora de si recebeu a romanização <tien liau> e os caracteres chineses 㒹狂 (diān kuáng). Contudo, esses caracteres seriam mais apropriados para a expressão ‘estar louco’, ao passo que 㒹了 (diān liǎo) pode ser considerada a forma mais adequada para ‘ficar louco’.

| [1] | Estar fora de si | tien liau | 㒹狂 |
- d.
Há um espaço adequado entre as entradas portuguesas e as várias formas romanizadas, empilhadas em colunas, como se observa na Figura 40 e na Figura 41. Nas mesmas figuras, nem sempre os equivalentes em chinês estão alinhados às formas romanizadas ou até mesmo correspondem às romanizações. A entrada na linha [1] da Figura 40, por exemplo, possui três formas romanizadas: duas equivalentes à primeira notação na segunda coluna (não há romanização para o item 致富na linha [1], como indica a leitura no Quadro 18) e as demais, aos equivalentes nas linhas [2] e [3], respectivamente. Na leitura da entrada portuguesa na linha [4], por sua vez, embora os itens em escrita chinesa estejam todos na mesma linha do original, no Quadro 18 realinhamos cada romanização ao respectivo equivalente chinês.

| [1] | Enriqueçerse | fa zai | 致富② | 發財① |
|---|---|---|---|---|
| [2] | ghi chia | 起家 | ||
| [3] | fa cie | 發跡 | ||
| [4] | Enrouqueçer | scie yn | 失音 | |
| [5] | cuo lu' ya | 喉啷啞 | ||
| [6] | Ensaboar | fan chien | 放𣻹 | |
| [7] | Ensanharse irascor | fa sin | 發性① | 激怒② |
Na Figura 41, por sua vez, a entrada Falcão recebeu subentradas com suas respectivas romanizações. Contudo, a correspondência dos equivalentes chineses se limita a黄鶯鷹, 老鶯鷹 e鷂鶯鷹.
| [1] | Falcão | quam yin | 黄鶯鷹 | |
|---|---|---|---|---|
| [2] | Açor | lau yin | 老鶯鷹 | |
| [3] | spa mnieri | yau yn | 鷂鶯鷹 | |
| [4] | volette | sum ciu | ||
| [4] | Faisca de fogo | cuo sin | 火星 |
Os dados das Figuras 40 e 41 comprovam que as entradas portuguesas foram escritas primeiramente, imediatamente seguidas pelas formas romanizadas, alinhadas adequadamente nos fólios da seção D-Z.
- b.
Nas entradas iniciais da seção D-Z, mais especificamente nos fólios 72r-89r, há, muitas vezes, um ‘pontinho’ antes de cada entrada da terceira coluna (cf. Figura 42 e Figura 43), enquanto, na seção A-C, os pontinhos aparecem quase sempre antes das entradas portuguesas na primeira coluna (cf. Figura 44). A observação desses pontinhos revela nuances no processo de compilação do DPC. Na seção D-Z, por exemplo, a entrada “denotar”, na Figura 42, linha 4, recebeu um pontinho (indicado pela seta), mesmo que não tenha um equivalente em chinês na área da terceira coluna. Todavia, a entrada possui uma forma romanizada na segunda coluna.
Já na Figura 43, diante de duas entradas em português, aparece o item lexical vide, ou seja, uma forma de remeter o leitor a outro ponto do trabalho. De tal modo, na linha 2, foi grafado descoroçoar vide desanimar. Contudo, a entrada desanimar não está no DPC. Portanto, essa remissão mostra-se pouco útil. Ao contrário, a entrada discrepar vide descõcordar, linha 6, possui a forma remissiva desconcordar no fólio 78v. Em ambos os casos, não foram redigidas as formas romanizadas nem os equivalentes em grafia chinesa. Igualmente, essas duas entradas não possuem um ‘pontinho’, o que sugere que não foram confirmadas pelo próprio autor líder.

Na seção A-C, por sua vez, somente as entradas em português, com suas formas romanizadas, possuem um pontinho, conforme apresentado na Figura 44. Isso sugere que esses ‘pontinhos’, nessa seção, podem ter sido usados para indicar que o redator conseguiu obter as informações de que necessitava em alguns dos itens da lista previamente elaborada. Contudo, na linha [7], embora haja o pontinho, a forma romanizada e o caractere chinês se referem ao item da linha [6], o que mostra que, nesse momento, o conhecimento do autor sobre a língua chinesa é bastante limitado.

Em suma, a ordem de redação do DPC revela uma decisão pragmática ao abandonar um sistema previamente estabelecido na seção A-C e adotar, na seção D-Z, um sistema mais eficiente, ou seja, um sistema no qual cada entrada em português possui pelo menos um equivalente em chinês e uma forma romanizada. Esse sistema permite a recolha de um maior número de entradas com suas romanizações e equivalentes chineses.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com base na análise da contribuição dos agentes envolvidos no processo de redação, estabelecemos a ordem de redação do DPC. Para tanto, foi necessário, primeiramente, dividir o DPC em 2 partes. A primeira parte contém as entradas de A a C. Nesta parte, todas as entradas em português foram escritas previamente por um amanuense, seguidas dos equivalentes em chinês (quando os auxiliares eram capazes de oferecer esses equivalentes) e, por fim, pela notação romanizada dos itens chineses. Posteriormente, o manuscrito recebeu uma quarta coluna com as palavras em italiano, escritas com uma tinta diversa da empregada nas demais colunas. Dessa forma, o que temos nessa primeira seção é um agente que ainda busca as melhores soluções para o seu trabalho lexicográfico. Esse compilador parte da hipótese inicial de que haveria um correspondente chinês para todos os itens listados como entradas no DPC, com base no dicionário de . Para sustentar essa hipótese, é necessário que haja um grupo de colaboradores chineses que dominem duas línguas (chinesa e portuguesa), a ponto de obter todos os equivalentes desejados. Contudo, a redação da primeira parte do DPC apresenta baixa taxa de sucesso, ou seja, a formulação da sequência entrada em português > notação romanizada > equivalente em chinês, atinge apenas 1/3 das entradas de . Além disso, devido às limitações físicas (o espaço no papel) provocadas pela escolha da lista previamente produzida, alinhar tanto as formas romanizadas como os equivalentes chineses em um espaço reduzido se torna uma tarefa impossível.
Diante de um cenário complexo para a compilação do dicionário, a técnica de redação da segunda parte do DPC precisa ser ajustada. Nesse momento, o autor assume o seu papel de lexicógrafo diletante e passa a tomar decisões que terão implicações em todo o trabalho. O autor-líder, primeiramente, abandona a lista fixa e passa a utilizar um sistema no qual cada entrada em português é anotada somente quando os auxiliares chineses oferecem um equivalente em chinês ou quando o autor consegue romanizar ou transliterar uma determinada pronúncia ou escrita, respectivamente. No entanto, para tal é necessário alterar a ordem de redação. Ruggieri agora registra a entrada principal, seguida da notação romanizada e, por fim, anota os caracteres chineses pelos auxiliares. Posteriormente, em um momento de revisão do trabalho, são acrescidos outros caracteres chineses, dessa vez, anotados por Ruggieri com uma mão imatura na caligrafia chinesa. Possivelmente, é nesse momento que o autor retorna à primeira parte de seu manuscrito e inclui novas intervenções, como, por exemplo, as formas romanizadas inseridas com uma tinta europeia, bem como as próprias observações em italiano, igualmente inseridas com a mesma tinta.
Na segunda parte do DPC (entradas D-Z), Ruggieri abandona algumas práticas malsucedidas da seção A-C. Assim, o autor desiste, ou pelo menos parece abdicar, da ideia de encontrar um equivalente para cada entrada do dicionário de e se satisfaz com os equivalentes que de fato consegue. Neste momento, o dicionário de ainda é uma referência, porém, dadas as limitações no processo de coleta de dados, o autor acaba por adicionar e remover palavras da lista do dicionário-base. Ademais, a lista pré-preparada em português é abandonada e cada entrada em português só é redigida quando se obtém um (ou mais de um) equivalente em chinês. A redação da romanização passa a ser crucial. Por fim, elementos de revisão ou em italiano são anotados a posteriori.
A nova prática de redação na seção de D-Z revela também o amadurecimento do autor como lexicógrafo, percurso no qual ele abandona um modelo estanque e busca as melhores soluções e práticas, criando seu próprio discurso. Portanto, o desenho da segunda parte do DPC é condicionado à sua ideia de um dicionário bilíngue pragmático, no qual é mais importante alcançar o possível do que trabalhar com um modelo inviável. A taxa de sucesso passa a ser de 95%. Contudo, esse valor se refere às entradas redigidas e não mais à lista de Cardoso. Portanto, o manuscrito do Dicionário Português Chinês deve ser compreendido como um trabalho em construção, interrompido. Tratá-lo como uma obra acabada e pronta para publicação implica assumir que seu autor principal era um lexicógrafo experiente. Por outro lado, isso não significa que o DPC seja menos importante. Sua importância reside no fato de ser o pioneiro, tendo sido a primeira obra lexicográfica português-chinês e, ao mesmo tempo, revelando o processo de amadurecimento de um trabalho lexicográfico. Além disso, o DPC é uma fonte de documentação das línguas chinesa e portuguesa escritas, seja no uso de caracteres chineses especiais (folclóricos, autorais e em desuso), seja no registro, pela primeira vez, de vinte e oito palavras da língua portuguesa (; ). Como a primeira obra bilíngue português-chinês constitui também uma janela entre duas civilizações.
Agradecimentos
Agradecemos ao editor e a três revisores anônimos pelos comentários e sugestões em uma versão anterior deste texto. Igualmente somos gratos pelos comentários e sugestões da audiência nas Conferências da Primavera do Centro Científico e Cultural de Macau, Lisboa, 2024, e no Seminário The history of lexicography: language variation in bilingual lexicography 1500–1900 na International Conference on the History of the Languages Sciences, Tbilisi, 2024. O acesso ao manuscrito do DPC foi possível graças à generosidade do Arquivo da Companhia de Jesus em Roma, especialmente do Dr. Festo Mkenda S. J. e do Dr. Mauro Brunello, a quem deixamos um agradecimento especial.
Referências bibliográficas
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Notas
[1] Na lombada do códice Jap-Sin I, 198, há a etiqueta Vocabulario Port.Chin, porém, seguindo a tradição estabelecida por D’Elia, empregaremos o termo Dicionário Português-Chinês.
[2] D’Elia é o primeiro a interpretar as formas romanizadas do DPC como um tipo de notação fonética. Contudo, aqui empregaremos os termos romanização e formas romanizadas, por não haver evidências de que se trata de um sistema de transcrição da fala.
[3] Segundo : “esso è scritto su carta cinese, in 189 fogli di centimetri 23 × 16,5. Ogni pagina contiene tre colonne, la prima per i termini portoghesi, scritti da un amanuense qualunque, la seconda per la fonetizzazione, tutta di mano del Ricci, e la terza per i caratteri cinesi. Nelle prime tre pagine vi è pure, di mano del Ruggieri, una quarta colonna per le parole italiane. La lingua cinese è la lingua mandarina. Non si tratta quindi di un dizionario fonetico di suoni cinesi disposti secondo l’ordine alfabetico, come aveva supposto ultimamente il Pelliot, ma di un dizionario portoghese-cinese che comincia con abitar e finisce con zunir” (tradução: “O manuscrito foi escrito em papel chinês, composto por 189 fólios de 23 × 16,5 centímetros. Cada página contém três colunas: a primeira destinada às palavras em português, escritas por um amanuense qualquer; a segunda para notações fonéticas, integralmente redigida por Ricci; e a terceira para os caracteres chineses. Nas três páginas iniciais, há também uma quarta coluna, com palavras em italiano, anotadas por Ruggieri. A língua chinesa empregada é o mandarim. Desta forma, este não constitui um dicionário fonético de sons chineses dispostos em ordem alfabética, conforme recentemente sugerido por Pelliot, mas um Dicionário Português-Chinês que começa com abitar e termina com zunir”).
[5] Tradução nossa: “(...) foi necessário que eu aprendesse a escrita e a língua chinesa falada por meio de desenhos; como, por exemplo, querendo aprender como se diz e como se escreve ‘cavalo’ nessa língua, desenhava um cavalo e acima dele desenhavam para mim a caligrafia chinesa que equivale a cavalo, em chinês ma, certamente um processo de aprendizagem ridículo. Tanto aos portugueses, como aos meus colegas padres, era impossível que eu aprendesse a língua assim.”
[6] Tradução nossa: “Mas a virtude e a força da obediência me deram coragem, inclinação e até facilidade. E pela graça do Nosso Senhor Deus comecei a aprender assim a ler seus livros (...)”.
[8] A obra lexicográfica do Cardoso inclui pelo menos quatro dicionários bilingues latim-português, português-latim.
[9] Aqui, Viaro se refere à prática no processo de gramaticalização das demais línguas da Europa, posto que o trabalho publicado em 1562-1563 se configura como o primeiro dicionário impresso da língua portuguesa, embora seja um dicionário bilíngue português/latim.
[11] afirma que a ordem alfabética não é seguida de forma estrita no dicionário de Cardoso, devido à consideração de fatores fonéticos, morfológicos e semânticos, e não à falta de conhecimento do autor. Em outras palavras, Cardoso optou por não seguir uma ordem alfabética estrita e o autor do DPC não se incomodou com isso.
[13] Além do material aqui utilizado, a escrita de Ruggieri pode ser encontrada nas seguintes fontes: manuscrito FG[3314]1185 na Biblioteca Nazionale di Roma ) e manuscritos Jap.–Sin., 101 I (fólios 8–11, 116r–v), Jap. –Sin., I, 198 (fólios 1r-31v, 170r-189v), Jap. –Sin., II, 159 (11 fólios), Jap.– Sin., 9 II 257r–58v, Jap.– Sin., 9 II 263r–64v, Jap.– Sin., 9 II 307r–308v no ARSI (; ; ; ).
[14] Tanto no DPC quanto nos documentos M2 e M3, identificou-se uma correção da letra
“p” para “g”. No M2, na linha [20], essa alteração foi observada:
. No manuscrito do DPC, por exemplo, há:
.
[15] Aqui não estamos assumindo que havia apenas um tradutor presente no momento da produção do dicionário.
[17] Nos fólios 40a e 63v ainda aparecem anotações com tintas marcadamente distintas, mas aparentemente de uma outra mão ocidental (PT3), de autoria ainda não identificada. Na Figura i, tem-se duas entradas em português e suas formas romanizadas no fólio 40a. A mesma mão redigiu também o fólio 40v. Igualmente, essa escrita adicional é consistente com aquela encontrada nas entradas nos fólios soltos que seguem o DPC. Dado que a numeração dos fólios ocorreu em um momento posterior e que o foco do estudo aqui recai sobre o DPC em si, excluímos o fólio 40a de nossa hipótese acerca das mãos na produção do DPC.
[24] Na seção A-C, é comum que, se uma entrada não tivesse um equivalente em chinês, também não haveria romanização correspondente.
[25] Há no DPC dezenas de caracteres chineses escritos com uma mão imatura nas artes caligráficas chinesas. Defendemos que essa mão é de Ruggieri e que houve um progresso técnico no uso da escrita chinesa ao longo do tempo, partindo de uma escrita muito imatura, para uma caligrafia mais avançada.
[27] A prática de Ruggieri de fazer emendas riscando o seu próprio texto, principalmente na coluna das romanizações, é regular nas seções D-Z do DPC.





![Figura 3. Caractere chinês escrito por uma mão imatura, fólio 32v, linha [19], Jap. –Sin., I, 198](https://revistas.usc.gal/index.php/elg/article/download/9879/version/8352/15312/94126/9879_gf3.png)
![Figura 4. Caractere chinês escrito por uma mão madura, fólio 32v, linha [19], Jap. –Sin., I, 198](https://revistas.usc.gal/index.php/elg/article/download/9879/version/8352/15312/94127/9879_gf4.png)
![Figura 5. Caractere chinês escrito por uma mão imatura, fólio 120v, linha [21], Jap. –Sin., I, 198](https://revistas.usc.gal/index.php/elg/article/download/9879/version/8352/15312/94128/9879_gf5.png)
![Figura 6. Caractere chinês escrito por uma mão madura, fólio 32v, linha [19], Jap. –Sin., I, 198](https://revistas.usc.gal/index.php/elg/article/download/9879/version/8352/15312/94129/9879_gf6.png)

![Figura 8. Caracteres chineses escritos por uma mão imatura, fólio 146r, linha [21], Jap. –Sin., I, 198](https://revistas.usc.gal/index.php/elg/article/download/9879/version/8352/15312/94131/9879_gf8.png)
![Figura 9. Caractere chinês escrito por uma mão madura, fólio 77v, linha [6], Jap. –Sin., I, 198](https://revistas.usc.gal/index.php/elg/article/download/9879/version/8352/15312/94132/9879_gf9.png)
![Figura 10. Caractere chinês escrito por uma mão madura, fólio 78v, linha [14], Jap. –Sin., I, 198](https://revistas.usc.gal/index.php/elg/article/download/9879/version/8352/15312/94133/9879_gf10.png)


































