1. INTRODUÇÃO
Este trabalho tem como propósito apresentar as variantes ocorrentes para o item lexical Via Láctea no falar dos moradores do estado do Amapá —situado na Região Norte do Brasil—, a partir dos dados coletados por meio do Atlas Linguístico do Amapá (ALAP) (). Além disso, há o intuito de contrastar os resultados obtidos para o conceito Via Láctea no Atlas Linguístico dos Karipuna do Amapá (ALIKAP) () e na Tese de doutoramento intitulada Diversidade lexical em comunidades afro-amapaenses: contornos diatópicos, diastráticos e diarreligiosos (). Dessa forma, esta pesquisa está inserida no campo de estudos da Geolinguística Pluridimensional, na qual exibe os resultados, coletados in loco, fazendo o uso de cartas linguísticas que apresentam aspectos de variação interna (i.e. fonético-fonológico, semântico-lexical, morfossintático, prosódico ou discursivo) e externa (i.e. sexo, idade, escolaridade, rendimento econômico, religião etc.), considerados de acordo com a metodologia requerida pelos geolinguistas brasileiros ().
A Geolinguística Pluridimensional considera como fator de variação os fenômenos socioculturais que, eventualmente, podem ocasionar modificações consideráveis na língua em uso. Esses princípios foram cunhados pela Sociolinguística Variacionista () e adaptados aos estudos dialetológicos e geolinguísticos. Sendo assim, ao considerar esses fenômenos extralinguísticos, a Geolinguística Pluridimensional no Brasil pode difundir a variação sociocultural junto ao enfoque específico de variação interna à língua, tal como o léxico. Os geolinguistas tendem a agrupar a variação lexical por meio de questionários que contemplem campos semânticos, nos quais as lexias se enquadrem em suas naturezas específicas (). Nessa perspectiva, o conceito lexical abordado neste trabalho pertence ao campo semântico astros e tempo (), haja a vista que desde o princípio do desenvolvimento humano, o homem se dedica a interpretar e reconhecer o céu, seja para discernir os fenômenos da natureza ou para desenvolver as suas atividades sociais e culturais ().
Diante da vastidão do céu noturno do hemisfério boreal e tropical, é possível identificar os mais variados corpos celestes e, em lugares com pouca ou nula poluição luminosa, é exequível observar uma faixa esbranquiçada que cruza o firmamento de um lado ao outro. O seu significado recebeu interpretações por diferentes culturas em todo o mundo antigo (). Atualmente, esse fenômeno é chamado de Via Láctea — conhecida no Brasil e na Península Ibérica por sua outra variante denominada Caminho / Camiño de Santiago —, e é definida como uma faixa luminosa larga, tênue e irregular, constituída por um imenso número de estrelas e outros corpos celestes que fazem parte da nossa Galáxia ().
Sendo assim, nas próximas seções serão apresentadas: (I) as origens e significados de Via Láctea e Caminho de Santiago, (II) as ocorrências do conceito Via Láctea nos atlas linguísticos da Península Ibérica (ALEPG, ALGa e ALPI), (III) a metodologia adotada pela equipe do ALAP, (IV) a descrição do conceito nas pesquisas geolinguísticas no Amapá, (V) a discussão dos resultados obtidos e, por fim, (VI) as considerações finais.
2. VIA LÁCTEA/CAMINHO DE SANTIAGO: ORIGENS E SIGNIFICADOS
Entre as diversas estrelas e constelações contempláveis no céu noturno tropical e do hemisfério norte, há uma grande estrutura embranquecida, em forma de faixa que cruza o céu durante a noite. A sua existência e significado foi interpretada de maneira própria pelos diversos povos na antiguidade, recebendo várias assimilações: “com trigo, com sêmen, com prata, com pedras preciosas, com brasa e cinza, com poeira de animais ao galopar, com faíscas levantadas pelos seus cascos, com palha, com leite derramado” (). Entre os dicionários , e , foi possível definir características próprias para a Via Láctea, evidenciadas por : “i) faixa luminosa que atravessa o céu; ii) grande ou longa mancha branca no escuro do céu; iii) com aparência leitosa; iv) sistema formado por estrelas, gás e poeira interestelares; v) semelhante a uma esteira brilhante quando vista pela luneta”. Outra variante conhecida, porém carregada de sentidos e significados de cunho especificamente religioso, é denominada Caminho de Santiago. Embora não seja uma lexia devidamente dicionarizada no Brasil, os dicionários supracitados acima não deixam de fazer referência a essa denominação ao se tratar da Via Láctea.
2.1. A Via Láctea na antiguidade
Sobre o olhar Ocidental, na antiga cultura grega, a origem da palavra Via Láctea se difundiu a partir do mito grego do herói Hércules, filho de Zeus, que enquanto recém-nascido foi levado até ao Olimpo por seu pai para ser amamentado pela deusa Hera que, ao despertar, apartou Hércules com força, fazendo com que assim jorrasse seu leite que marcou o céu e formou a Via Láctea (). Essa influência do mito também se propagou no léxico que é difundido atualmente, visto que, de acordo com o Dicionário Grego-Português (DGP) (), gála/galaktos (γάλα / γάλακτος) deu origem ao nome científico Galáxia, na qual significa leite, referindo-se ao mito supracitado. Com a absorção da cultura grega pelo Império Romano, a palavra preservou-se sobre a forma de lactus que possui os seguintes significados: “de leite, lácteo, leitoso” (). Sendo assim, a Via Láctea é uma variante latinizada que, ao interpretar de forma literal, significa caminho de leite.
De acordo com o período antigo, não havia distinção entre a cosmologia, a mitologia e a religião. Os antigos egípcios, por exemplo, integravam fenômenos celestes em sua cosmologia, e há indícios de que a Via Láctea poderia ter sido associada à deusa Nut que simbolizava a personificação do céu. Segundo , a deusa Nut era frequentemente representada como uma figura arqueada sobre a Terra, separando o deus Geb — que representava a Terra — das águas primordiais de Nun. A deusa era considerada a responsável por engolir o Sol ao anoitecer e dar à luz ao astro novamente pela manhã, simbolizando o ciclo diário do Sol. Em determinadas épocas do ano, a Via Láctea forma um arco no céu que poderia ser interpretado como a silhueta de Nut. Além disso, alguns textos egípcios descrevem Nut de uma maneira compatível com as mudanças sazonais na orientação da Via Láctea (). Na visão de , no verão, a Via Láctea poderia representar o torso ou coluna vertebral da deusa Nut, enquanto no inverno suas formas se alinhariam melhor com seus braços estendidos.
2.2. Santiago de Compostela: entre a religião, a guerra e os astros
No que se refere à denominação Caminho de Santiago, de acordo com , e , a Via Láctea tem variantes de cunho religioso, tais como: Caminho de Santiago / São Tiago, Carreira e/ou Carreiro de São Tiago e Estrada de Santiago / São Tiago. A partir da história cristã, Tiago Maior, filho de Zebedeu e irmão de João (o Evangelista), foi um pescador chamado por Jesus Cristo para ser um “pescador de homens”, tornando-se assim um dos seus apóstolos (). Santiago foi um dos primeiros apóstolos a sofrer o martírio por difundir a crença cristã, sofrendo a morte por decapitação em Jerusalém a mando de Herodes Agripa, no ano de 44 d.C. ().
De fato não há referências ou documentos fundamentais para a afirmação que Santiago realizou a sua peregrinação na Península Ibérica, entretanto, de acordo com a tradição da Igreja Católica Apostólica Romana, foi na Hispania que Santiago realizou a sua missão evangelista e, após o martírio, seu corpo foi transladado de volta para a Galiza, mais precisamente para Iria Flavia, cidade ainda existente e localizada próxima de onde atualmente está localizada a cidade de Santiago de Compostela (). O túmulo de Santiago foi encontrado no século IX por um eremita que, após presenciar fenômenos sobrenaturais no local, relatou o ocorrido ao Bispo de Iria Flavia, Teodomiro (). O bispo constatou a veracidade do túmulo de Santiago e, após a divulgação do facto aos nobres, o Rei Afonso II das Astúrias mandou construir a primeira igreja, consagrada no ano de 834 ().
A constatação da veracidade do túmulo do apóstolo foi uma das principais fontes de inspiração dos combatentes cristãos para reconquistar a Península Ibérica — que na época (711-1492) fora perdida pela dominância bélica da política, cultura e religião muçulmana —, visto que as relíquias dos apóstolos tinham alta estima para a cristandade (). A combinação da tradição oral aliada à necessidade de reconquistar as terras cristãs fizera da imagem do apóstolo evangelizador um verdadeiro guerreiro cristão. Dessa forma, Santiago, como um combatente espiritual, foi fundamental para exaltar os ânimos dos soldados castelhanos rumo à vitória, entoando assim a famosa frase: “Dios, ayuda, et sanct Yage!” ().
A igreja da cidade de Santiago de Compostela tornou-se um dos principais destinos de peregrinação cristã, equiparando-se a Jerusalém, local de peregrinação em honra a Jesus Cristo, e Roma, onde se encontram os túmulos dos apóstolos São Pedro e São Paulo ().
Entre os diversos caminhos de peregrinação para chegar ao túmulo de Santiago, é importante destacar quem existem rotas utilizadas por cristãos franceses, ingleses, espanhóis e portugueses. A peregrinação a Santiago de Compostela revela sua complexidade e importância por meio de caminhos que atravessam a Península Ibérica de sul a norte e de leste a oeste, conectando cristãos de diferentes regiões da Europa à Galiza. Esse percurso possibilita o compartilhamento da fé e promove o intercâmbio cultural entre povos de diversas nações.
Além da peregrinação, Santiago da Compostela também faz referência à Via Láctea, visto que, de acordo com , há uma história na qual “Carlos Magno, o grande Imperador do Sacro-Império Romano-Germânico, teve um sonho em que lhe foi dito que deveria atingir Compostela [campus stēlæ], seguindo a Via Láctea até o túmulo do apóstolo São Tiago”. Dessa forma, uma das hipóteses para a palavra compostela é justamente a sua origem latina campus stēlæ que ao traduzir significa campo de estrela, fazendo alusão à faixa repleta de estrelas da Via Láctea.
3. CAMINHO DE SANTIAGO NOS ATLAS LINGUÍSTICOS ROMÂNICOS
Nesta seção, apresentamos os resultados obtidos para o conceito Via Láctea nos principais atlas da Península Ibérica, a saber: o Atlas Linguístico-Etnográfico de Portugal e da Galiza (ALEPG), o Atlas Lingüístico Galego (ALGa) e o Atlas Lingüístico de la Península Ibérica (ALPI), a fim de evidenciar os registos europeus em relação às variantes encontradas no estado do Amapá, região amazônica situada no Norte do Brasil.
3.1. Atlas Linguístico-Etnográfico de Portugal e da Galiza (ALEPG)
O Atlas Linguístico-Etnográfico de Portugal e da Galiza (ALEPG) teve sua origem em 1957, durante o III Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, realizado em Lisboa, quando foi inicialmente proposto como um projeto voltado ao estudo do domínio linguístico galego-português (). De acordo com , apesar de tentativas anteriores nas décadas de 1930 e 1940, o projeto só foi efetivamente iniciado em 1970, sob a coordenação de Luís F. Lindley Cintra, e segue em desenvolvimento pelos pesquisadores do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa (CLUL). A partir do estudo realizado por sobre o conceito Via Láctea, é possível obter uma visão espacial das respostas coletadas no território português (Figura 1).
De acordo com , esse conceito apresenta forte variação lexical no domínio português, sendo predominantemente expresso por formas compostas. Os autores destacam que o primeiro elemento dessas construções varia sobretudo entre caminho/camiño e estrada. Já o segundo elemento revela influências etnográfico-religiosas e culturais, com ocorrências como (de) Santiago, (de) São Vicente ou (de) Nossa Senhora, além de referências às atividades humanas (almocreves e pastor). Essa diversidade evidencia não apenas a criatividade lexical, mas também a estreita relação entre língua, cultura e religiosidade em Portugal.
3.2. Atlas Lingüístico Galego (ALGa)
O Instituto de Língua Galega (ILG) foi criado em 1971, sendo dedicado à investigação e à divulgação da língua galega (). O Atlas Lingüístico Galego (ALGa) representa o principal projeto do ILG e teve início em 1974, com o objetivo de analisar os diferentes níveis da língua (). Segundo , o primeiro volume do ALGa foi publicado em 1990, sendo dedicado ao estudo da morfologia verbal da língua galega.
No que diz respeito ao conceito Via Láctea, é possível encontrá-lo no ALGa, volume IV, dedicado ao léxico, ao tempo atmosférico e à cronologia ().
Conforme consta na Figura 2, as variantes registadas na carta, referentes ao conceito Via Láctea, revelam um repertório lexical bastante rico e culturalmente marcado para nomear esse fenômeno celeste. Predominam formas compostas com variação no primeiro elemento, tais como camiño, carreira e vereda, frequentemente acompanhadas de especificadores religiosos, como (de) Santiago, (de) San Andrés e (de) San Campio, o que evidencia a associação simbólica entre a Via Láctea e rotas de peregrinação cristã.
Paralelamente, surgem variantes mais localizadas e menos frequentes, como carro de estrelas e poldras, que apontam para denominações metafóricas ou arcaizantes, restritas a determinadas áreas. Esse conjunto de formas demonstra a convivência entre designações amplamente difundidas e outras de uso regionalizado, refletindo tanto a diversidade lexical quanto o enraizamento cultural dessas denominações no território galego.
3.3 Atlas Lingüístico de la Península Ibérica (ALPI)
O Atlas Lingüístico de la Península Ibérica (ALPI) constitui um dos projetos mais relevantes da geolinguística espanhola do século XX (). Concebido nas primeiras décadas desse período, teve como objetivo mapear a diversidade linguística da Península Ibérica por meio de levantamentos dialetais sistemáticos. Idealizado sob a influência de Ramón Menéndez Pidal e desenvolvido sob a direção de Tomás Navarro Tomás, o projeto teve suas pesquisas de campo realizadas principalmente entre 1931 e 1936, envolvendo uma equipe de investigadores que percorreu diferentes regiões para coletar dados diretamente dos falantes ().
Entretanto, a Guerra Civil Espanhola interrompeu o andamento dos trabalhos, provocando a dispersão dos materiais e atrasos significativos na publicação, que ocorreu de forma parcial em 1962. Como destacam , a ausência de uma publicação completa do ALPI fez com que a geolinguística espanhola se baseasse fundamentalmente em atlas regionais, situação que vem sendo modificada com o atual processo de edição digital do ALPI.
A partir do trabalho publicado por sobre o conceito Via Láctea, é possível observar a distribuição diatópica das variantes ocorrentes (Figura 3).
Conforme a análise dos próprios autores, a carta mostra a predominância da variante camino de Santiago. Assim como no ALGa, é possível observar variação no termo camino (camín, caminu, caminico, caminito), bem como nas formas carrera, carretera, vereda e paseo (). Além disso, foram registadas composições referentes ao caminho trilhado pelos peregrinos cristãos (e.g. San Vítor, Roma, cielo, Galicia). Algumas ocorrências mostraram-se distintas, tais como: (de) la(s) uva(s) e (de) los uveros.
De modo geral, tal como no ALEPG e no ALGa, o ALPI reforça que, no contexto da Península Ibérica, a denominação da Via Láctea está fortemente associada ao aspecto etnográfico-religioso (), uma vez que faz referência direta ao caminho percorrido pelos peregrinos cristãos.
4. METODOLOGIA DO ATLAS LINGUÍSTICO DO AMAPÁ
O Amapá é uma das 26 unidades federativas que compõem o Brasil. Situado na Amazônia brasileira, o estado apresenta uma realidade distinta daquela observada no eixo Sudeste, onde se concentram unidades mais conhecidas, i.e. Rio de Janeiro e São Paulo. Um aspeto interessante é que sua capital, Macapá, é atravessada pela Linha do Equador. Além disso, o Amapá não possui conexão terrestre com os demais estados brasileiros, sendo acessível principalmente por vias aérea e fluvial. Em contrapartida, mantém ligação terrestre com a Guiana Francesa por meio da Ponte Binacional Franco-Brasileira.
Segundo o , o estado do Amapá possui uma área territorial de 142.470,762 km² e uma população de pouco mais de 733 mil habitantes. Entre seus habitantes, destacam-se grupos tradicionais, como quilombolas, indígenas e ribeirinhos.
O estado é composto por 16 municípios: Amapá, Calçoene, Cutias, Ferreira Gomes, Itaubal, Laranjal do Jari, Macapá, Mazagão, Oiapoque, Pedra Branca do Amapari, Porto Grande, Pracuúba, Santana, Serra do Navio, Tartarugalzinho e Vitória do Jari.
Do ponto de vista linguístico, de acordo com a classificação dialetal proposta por , o Amapá situa-se no subfalar amazônico, integrando o falar do Norte do Brasil. Com o intuito de esclarecer a situação linguística do Amapá proposta por Nascentes, e de evidenciar a relevância da variedade do português falado no estado a partir do panorama linguístico nacional, foi desenvolvido o Atlas Linguístico do Amapá (ALAP).
O ALAP foi criado em 2010, sob a coordenação do professor Abdelhak Razky, da Universidade Federal do Pará (UFPA) e Celeste Ribeiro, da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP). A fim de manter alinhamento metodológico, o projeto adotou os mesmos padrões desenvolvidos pelo Atlas Linguístico do Brasil (ALiB) (). Dessa forma, a equipe de inquiridores foi composta por professores e estudantes da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP). Com a equipe formada, foram selecionados dez pontos de inquérito localizados dentro do território que abrange o estado do Amapá (1- Macapá, 2- Santana, 3- Mazagão, 4- Laranjal do Jari, 5- Pedra Branca do Amapari, 6- Porto Grande, 7- Tartarugalzinho, 8- Amapá, 9- Calçoene e 10- Oiapoque). Após a escolha das localidades, foram definidos 40 colaboradores, sendo um homem e uma mulher da primeira faixa etária (18-30 anos), e um homem e uma mulher da segunda faixa etária (50-75 anos) para cada ponto de inquérito. Sendo assim, a organização desses dados pode ser constatada na tabela 1.
Após a organização dos dados, conforme consta na tabela 1, os inquiridores realizaram a coleta das informações in loco entre 2012-2014, considerando, além da variação diatópica, a variação por sexo (diassexual) e idade (diageracional). Dessa forma, foram aplicados os questionários fonético-fonológico (QFF) e semântico-lexical (QSL), desenvolvido pelo . Para esta pesquisa, os colaboradores responderam a seguinte questão do QSL (): “Numa noite bem estrelada, aparece uma banda ou faixa que fica no céu de fora a fora, onde tem muitas estrelas muito perto umas das outras. Como chama esta banda ou faixa?”. Vale destacar que o item lexical Via Láctea corresponde a um conceito que não foi publicada no primeiro volume do ALAP, devendo integrar o volume 2 do Atlas Linguístico do Amapá, que atualmente está em fase final de revisão para ser publicado em breve. Diante disso, a tarefa de analisar, mapear e descrever esses dados de forma inédita ficou a cargo dos autores desta pesquisa. Para a cartografia linguística, os dados foram organizados no software de planilhas Excel e em seguida a carta foi desenvolvida no software de design gráfico Inkscape.
Fonte: , adaptada pelos autores
5. O ITEM LEXICALVIA LÁCTEA NAS CARTAS LINGUÍSTICAS AMAPAENSES
Mediante ao item lexical Via Láctea, foi possível detectar o mesmo item cartografado linguisticamente em outras duas pesquisas geolinguísticas realizadas no estado do Amapá, sendo elas o Atlas Linguístico dos Karipuna do Amapá (ALIKAP) () e na Tese de doutoramento Diversidade lexical em comunidades afro-amapaenses: contornos diatópicos, diastráticos e diarreligiosos (). Apesar dos trabalhos estarem inseridos no território amapaense, as variantes ocorrentes entre essas duas obras são divergentes e é possível constatar essa afirmação nas seções subsequentes.
5.1. O Atlas Linguístico dos Karipuna do Amapá
O Atlas Linguístico dos Karipuna do Amapá (ALIKAP) é fruto da tese de doutorado do professor Romário Duarte Sanches, realizada na Universidade Federal do Pará (UFPA), em 2020. O maior marco da obra é a descrição contatual do português e do kheuól, línguas faladas pelos Karipuna do Amapá. Vale evidenciar que, apesar do ALIKAP ser um atlas bilíngue, apenas a carta com as lexias em língua portuguesa foi considerada nesta pesquisa.
Diante disso, o ALIKAP é composto por 106 cartas linguísticas com diversos campos semântico-lexicais para nomear plantas, frutas, brincadeiras, entre outros. As cartas estão com a cruz de estratificação (+), o que possibilita identificar o colaborador por meio do sexo e da faixa etária, bem como podemos observar no quadro 1.
Fonte: , adaptado pelos autores.
Conforme consta no quadro 1, a informação estratificada, quando compreendida, facilita a linguistas, pesquisadores e estudiosos a identificação das informações sobre os colaboradores por meio da própria carta linguística. Sendo assim, a metodologia do ALIKAP seguiu a seleção de 36 colaboradores divididos em nove localidades (1-Manga, 2-Santa Isabel, 3-Espírito Santo, 4-Açaizal, 5-Curipi, 6-Kariá, 7-Ahumã, 8-Ariramba e 9-Kunanã), com cada ponto de inquérito composto por um homem e uma mulher de 18 a 30 anos, e um homem uma mulher acima de 50 anos. Entre as cartas contidas no ALIKAP, foi possível identificar a carta P18 (Figura 4) que apresenta as denominações para o conceito lexical Via Láctea ().
Por meio da figura 4, foi possível constatar que não há a ocorrência das lexias Via Láctea e Caminho de Santiago. A variante que predominou foi sete estrelas (com 24 ocorrências), seguida de sete marias (quatro menções), cruzeiro (duas ocorrências), quatro irmãs (uma ocorrência), além de sete informantes que não conseguiram denominar o item referente.
Para facilitar a interpretação dos dados, na tabela 2 estão as variantes divididas por sexo e faixa etária.
Fonte: , adaptado pelos autores
Na tabela 2, a variante sete estrelas ocorreu na fala dos homens e das mulheres com 12 ocorrências, mas ao comparar com as duas faixas etárias, os informantes mais velhos mencionaram 14 vezes em comparação com os mais jovens com dez menções. Sete estrelas é nome popular dado às Plêiades, que são um aglomerado estelar aberto que se formou a partir de uma nuvem molecular e evoluiu ao longo de 125 milhões de anos (). As Plêiades são facilmente vistas no céu noturno e estão dentro da Via Láctea observável, ou seja, a sua facilidade de detecção pode ter influenciado os colaboradores a denominarem essa lexia. Apesar de ser a variante de maior ocorrência, sua presença na fala dos colaboradores pode refletir também uma estratégia de tradução para o português, uma vez que os indígenas falantes de Kheuól denominam em sua língua como set zetuel, que traduzindo de forma literal significa sete estrelas.
A variante sete marias foi informada duas vezes entre os homens e duas vezes entre as mulheres. Acerca da faixa etária, os informantes mais jovens mencionaram três vezes e os mais velhos com apenas uma ocorrência. Essa variante não é dicionarizada, mas a hipótese indica semelhança dessa lexia com sete irmãs (Alcíone, Astérope, Celeno, Electra, Maia, Mérope e Taigete), nome dado para as Plêiades na mitologia grega, nas quais eram filhas do titã Atlas e da oceânide Plêione (). Outra hipótese seria a assimilação do grupo de estrelas chamada três marias, que compõem o Cinturão de Órion (Alnitak, Alnilam e Mintaka). Sendo assim, da mesma forma como a variante sete estrelas, sua ocorrência reforça a tentativa de apresentar uma resposta coerente com o que foi perguntado pelo inquiridor.
No que diz respeito a variante cruzeiro, houve uma ocorrência na fala de um homem e de uma mulher da faixa etária mais jovem. A variante cruzeiro faz referência à constelação do Cruzeiro do Sul ou Cruz do Sul, que também é facilmente observável no céu noturno. De acordo com , a primeira menção dessa constelação está datada em 1500, em uma carta escrita pelo físico Mestre João, que pertencia à comitiva de Pedro Álvares Cabral, para o rei de Portugal. A constelação fica próxima da Via Láctea observável, o que também válida a menção dessa variante pelos colaboradores. A Cruz do Sul é bastante conhecido entre os brasileiros, pois envolve fatores históricos e culturais, visto que é um símbolo nacional que está presente na bandeira do Brasil.
Para a variante quatro irmãs, ela foi mencionada uma vez por um informante homem da segunda faixa etária. Essa variante não está dicionarizada, entretanto, a sua semelhança possibilita inferir que faça referência às Plêiades ou à Cruz do Sul, além de caracterizar mais uma variante genérica, i.e. reflexo do desconhecimento do fenômeno atmosférico entre os colaboradores da pesquisa.
A ausência de respostas foi mais frequente na fala das mulheres (cinco ocorrências) em comparação com os homens (duas menções). No que se refere à variação por faixa etária, a ausência mostrou-se mais recorrente na fala dos colaboradores mais jovens (cinco ocorrências), em comparação com os mais velhos, entre os quais se registraram apenas duas ocorrências.
5.2. A Tese Diversidade lexical em comunidades afro-amapaenses: contornos diatópicos, diastráticos e diarreligiosos
A pesquisa intitulada Diversidade lexical em comunidades afro-amapaenses: contornos diatópicos, diastráticos e diarreligiosos () é fruto da Tese de doutoramento da Professora Helen Costa Coelho, defendida na Universidade Federal do Pará (UFPA). A pesquisa caracteriza-se como um atlas em comunidade tradicional, assim como o ALIKAP, mas o diferencial é que a realização desse trabalho foi desenvolvida em comunidades afro-amapaenses.
O trabalho de contém cartas do campo semântico-lexical Religião e Crenças e Astros e Tempo, com um total de dez cartas apresentadas. As cartas foram estratificadas com a cruz de estratificação (+) para dividir os colaboradores entre sexo e faixa etária. Por meio do quadro 2 é possível compreender as informações contidas nas cartas da pesquisa Diversidade lexical em comunidades afro-amapaenses: contornos diatópicos, diastráticos e diarreligiosos ().
Fonte: , adaptado pelos autores
Dessa forma, conforme consta no quadro 2, os colaboradores foram divididos por sexo e idade. A distribuição dos colaboradores foi realizada em cinco pontos de inquérito (01-Mazagão Velho, 02-Curiaú, 03-Mel da Pedreira, 04-Cunani e 05-Kulumbu do Patuazinho), com um homem e uma mulher de 18-30 anos, e um homem e uma mulher acima de 50 anos por localidade.
Uma das cartas analisadas na pesquisa desenvolvida por é a carta L02b – Via Láctea/Caminho de Santiago, conforme consta na figura 5. Na carta foi possível constatar que a variante com maior ocorrência foi Caminho de Santiago (oito menções), seguida de sete estrelas (cinco ocorrências), Via Láctea (três ocorrências), constelação (três ocorrências), três marias (duas menções), Cruzeiro do Sul (uma menção), outras variantes (duas ocorrências) e sem respostas (quatro ausências).
Apesar da possibilidade de observar os dados individualmente por sexo e idade contidos na carta, para facilitar a demonstração por meio da tabela 3, é possível compreender a variação por sexo e faixa etária de forma mais simples.
Fonte: , adaptado pelos autores
De acordo com a tabela 3, a variante Caminho de Santiago foi mais frequente na fala dos homens (seis menções) em comparação com as mulheres (duas menções). O mesmo ocorre com a variação por idade, com maior ocorrência entre os mais jovens (cinco ocorrências) ao comparar com os mais velhos (três ocorrências). Caminho de Santiago foi uma variante bastante produtiva na pesquisa Diversidade lexical em comunidades afro-amapaenses: contornos diatópicos, diastráticos e diarreligiosos (), visto que a sua metodologia também considerou a variação diarreligiosa. Conforme consta na carta L02b, as maiores ocorrências para Caminho de Santiago se destacam no ponto de inquérito 01-Mazagão Velho, haja a vista que a história da localidade está estritamente ligada à Portugal. Tudo começou no século XVIII, quando a Coroa Portuguesa se sentiu ameaçada pelos mulçumanos e transferiu a sua colônia portuguesa do Marrocos — chamada de Mazagan e conhecida atualmente como El Jadida — para uma região da floresta Amazônica, atual estado do Amapá (). Dessa forma, assim como os portugueses começaram a povoar a localidade que passou a ser chamada de Mazagão, vieram também os costumes e práticas religiosas de origem cristã, como a festividade São Tiago, que retrata a vitória dos cristãos sobre os mulçumanos na Península Ibérica. Essa festividade mante-se viva até os dias atuais, sendo o maior evento religioso da localidade. De acordo com , os colaboradores afirmaram que o Caminho de Santiago fica visível no céu conforme a aproximação da festividade de São Tiago — 28 de julho — na comunidade.
Para a variante sete estrelas, a sua ocorrência se fez presente na fala dos homens (três ocorrências) e das mulheres (duas ocorrências), assim como entre os grupos de faixa etária mais jovem (uma ocorrência) e mais velha (quatro ocorrências). Acerca da variante padrão Via láctea, a sua menção ocorreu nos agrupamentos por sexo e idade, tal como a variante constelação. A variante três marias foi ocorrente na fala de um homem e uma mulher, ambos da faixa etária mais jovem. Essa variante faz referência às três estrelas que compõem o Cinturão de Órion (Alnitak, Alnilam e Mintaka). No que tange à variante Cruzeiro do Sul, sua menção ocorreu na fala de um colaborador do sexo masculino da primeira faixa etária. Além disso, a nomenclatura outras variantes ocorreu na fala de um homem e uma mulher da segunda faixa etária. Por fim, a ausência de respostas foi ocorrente apenas na fala das mulheres da faixa etária mais jovem (duas ocorrências) e mais velha (duas ocorrências).
6. RESULTADOS OBTIDOS NO ATLAS LINGUÍSTICO DO AMAPÁ
Por meio da carta L88 (Via Láctea; Figura 6) do Atlas Linguístico do Amapá (ALAP) (), foram informadas as seguintes variantes: Constelação (10% de ocorrência), Via Láctea (7% de ocorrência), conjunto de estrelas (7% de frequência), Cruzeiro do Sul (5% de frequência), grupo de estrelas (2% de ocorrência), sete estrelas (2% de ocorrência), outras (5% de menções) e sem respostas (62% de ausências).
De acordo com a figura 6, grande parte dos colaboradores não conseguiram responder ao inquiridor, com ausência total de respostas nos pontos 3-Mazagão, 7-Tartarugalzinho e 8-Amapá. A variante constelação foi a mais ocorrente, porém com apenas uma ocorrência em cada localidade. No que se refere à variante Via Láctea, a sua ocorrência foi constatada apenas no ponto 6-Porto Grande.
Vale ressaltar que na capital (1-Macapá) a variante com maior ocorrência foi Cruzeiro do Sul. A cidade de Macapá é cortada pela linha do Equador, sendo assim, é possível observar tanto constelações do hemisfério norte quanto do sul ao longo do ano, incluindo a marcante Cruz do Sul e a extensa Via Láctea. Além disso, essa posição equatorial implica variações sazonais na porção do céu visível, associadas à inclinação do eixo de rotação da Terra e ao movimento aparente ao longo da eclíptica. Embora, do ponto de vista astronômico, a Via Láctea seja mais ampla e impressionante, no cotidiano urbano a Cruz do Sul tende a ser percebida com maior frequência, por ser formada por estrelas brilhantes e mais visíveis mesmo sob a poluição luminosa da cidade de Macapá. Adicionalmente, sua relevância histórica e cultural, especialmente no contexto da navegação no hemisfério sul, pode contribuir para sua maior saliência na percepção local.
Acerca da variação por sexo e faixa etária no ALAP, as informações podem ser observadas na tabela 4.
Fonte: elaborado pelos autores
No que diz respeito à tabela 4, a variante constelação foi ocorrente apenas na fala dos colaboradores do sexo masculino. Acerca da variante Via Láctea e conjunto de estrelas, foi possível identificar ocorrência na fala dos homens e das mulheres pertencentes às duas faixas etárias. Vale ressaltar que a variante Cruzeiro do Sul foi mencionada somente na fala de duas mulheres, com cada uma pertencente a um grupo de faixa etária. As variantes grupo de estrelas e sete estrelas foram ocorrentes apenas na fala dos colaboradores do sexo masculino. As outras variantes (cometa e satélite) foram informadas pela mesma colaboradora que pertence a segunda faixa etária.
A falta de resposta se caracterizou com maior ausência na fala das mulheres (14 ausências) em comparação com os homens (11 ausências). É cabível dizer que a ausência de resposta também é uma resposta, visto que essa informação gera hipóteses. Para o item lexical Via Láctea do ALAP, a hipótese gira em torno da mudança do comportamento social e cultural dos colaboradores, que integram cidades urbanizadas, em comparação com os colaboradores do ALIKAP e da pesquisa Diversidade lexical em comunidades afro-amapaenses: contornos diatópicos, diastráticos e diarreligiosos que estão inseridos em comunidades tradicionais. No passado, antes do advento das tecnologias atuais, era comum os indivíduos se orientarem sobretudo por meio da observação dos sinais celestes e das posições das estrelas, especialmente durante a noite, para a realização de atividades como a caça e a pesca (). No Brasil, essas práticas ainda se perpetuam entre as comunidades tradicionais e, habitualmente, essas atividades são realizadas por homens. Sendo assim, esse fato justifica a menor frequência de resposta na fala das mulheres.
7. DISCUSSÃO
Após a descrição, os dados apresentados evidenciam que a variação lexical para a designação da Via Láctea no estado do Amapá não se restringe a uma simples alternância denominativa, mas reflete diferentes formas de percepção, interpretação e categorização do fenômeno pelos falantes. Nesse sentido, entre as variantes registradas, definimo-las em quatro classes de respostas: (I) etnográfico-religiosa, (II) científica, (III) genérica descritiva e (IV) genérica identificável. A categoria etnográfico-religiosa fundamenta-se na proposta de , que destacam a presença de motivações culturais e religiosas na nomeação de referentes celestes. As demais categorias foram estabelecidas no âmbito deste trabalho, com o objetivo de sistematizar os diferentes níveis de especificidade e de conhecimento mobilizados pelos informantes, distinguindo entre denominações baseadas no saber científico e aquelas de caráter mais amplo, descritivo ou identificável, ainda que não correspondentes diretamente ao referente em análise.
A classe (I) etnográfico-religiosa, com base em , abrange interpretações do céu diretamente vinculadas a práticas culturais e tradições religiosas dos grupos sociais específicos. Nesse contexto, as denominações atribuídas à Via Láctea refletem não apenas uma observação astronômica, mas também um sistema simbólico construído historicamente e transmitido socialmente. Ao observar o trabalho Diversidade lexical em comunidades afro-amapaenses: contornos diatópicos, diastráticos e diarreligiosos (), na localidade do Mazagão, a variante predominante foi Caminho de Santiago, relacionada à Festa de São Tiago, o que evidencia a permanência de elementos da tradição ibérica reinterpretados no contexto amazônico. Dessa forma, essa categoria expressa a intersecção entre religiosidade, memória coletiva e percepção do espaço celeste. Essa perspectiva encontra respaldo nos estudos de natureza geolinguística desenvolvidos por García Mouton (; ), que demonstram que a nomeação de fenômenos naturais está frequentemente associada a sistemas de crenças e tradições culturais. Segundo García Mouton (; ), muitas dessas denominações resultam de processos históricos de ressignificação, nos quais formas mais antigas foram progressivamente substituídas ou reinterpretadas sob a influência do cristianismo, dando origem a nomes relacionados a santos ou elementos da tradição religiosa.
Na classe (II) científica, incluem-se respostas que identificam a Via Láctea a partir de um entendimento baseado no conhecimento astronômico formal. Nessa perspectiva, a Via Láctea é reconhecida como uma galáxia, conforme definido pela Astronomia moderna, caracterizada como um vasto sistema composto por bilhões de estrelas, poeira e gás interestelar. Diante disso, entre os três trabalhos geolinguísticos realizados no estado do Amapá, apenas as localidades de Porto Grande — integrante da rede de pontos do ALAP — e Mel da Pedreira — vinculada ao estudo desenvolvido por — apresentaram ocorrências dessa variante. Assim, essas ocorrências isoladas indicam um acesso restrito ao conhecimento institucionalizado sobre esse fenômeno celeste no Amapá, geralmente associado à educação formal, distinguindo-se das interpretações simbólicas ou empíricas.
A categoria (III) genérica descritiva reúne respostas de caráter amplo e pouco específico, que se limitam a descrever a Via Láctea como um agrupamento de elementos celestes, sem identificação precisa. Nesse grupo, incluem-se variantes como constelação, sete estrelas, conjunto de estrelas e grupo de estrelas. Tais respostas evidenciam uma percepção visual direta do fenômeno, sem necessariamente recorrer a sistemas simbólicos estruturados ou a conhecimentos astronômicos formais, refletindo um nível mais geral de reconhecimento do céu noturno.
No que diz respeito à categoria (IV) genérica identificável, incluem-se respostas que, embora não correspondam corretamente à Via Láctea, demonstram uma tentativa de identificação mais específica de elementos do céu noturno. Nessa classe, surgem denominações como Três Marias, Sete Marias, Sete Irmãs ou Cruzeiro (do Sul). Essas referências são reconhecíveis, porém distintas da Via Láctea. Sendo assim, esse tipo de resposta revela um nível intermediário de conhecimento, no qual o indivíduo busca nomear o fenômeno com base em elementos conhecidos do céu noturno, ainda que de forma imprecisa.
Diante disso, a análise empreendida reforça a importância de uma abordagem interpretativa na geolinguística, capaz de articular dados empíricos a referenciais teóricos e comparativos. Ao considerar não apenas a distribuição das variantes, mas também suas motivações e implicações culturais, torna-se possível compreender de maneira mais abrangente os processos que orientam a variação lexical no português brasileiro.
8. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante dos resultados, os colaboradores do Atlas Linguístico do Amapá (ALAP) tiveram dificuldades para nomear o conceito Via Láctea, o que evidencia o desuso e/ou desconhecimento da lexia referida entre os pontos de inquéritos considerados na metodologia. Outra evidência constatada ao contrastar os resultados entre as três cartas, foi a divergência na variante com maior ocorrência, sendo elas: constelação (ALAP), sete estrelas (ALIKAP) e caminho de Santiago (Diversidade lexical em comunidades afro-amapaenses: contornos diatópicos, diastráticos e diarreligiosos). Assim como também houve variantes que não se repetiram entre as cartas referentes ao conceito Via Láctea, tais como: conjunto de estrelas e grupo de estrelas (ALAP), sete marias e quatro irmãs (ALIKAP), caminho de Santiago e três marias (Diversidade lexical em comunidades afro-amapaenses: contornos diatópicos, diastráticos e diarreligiosos).
No que tange à variação por sexo, as três pesquisas confirmaram que as mulheres tiveram mais dificuldades em nomear o conceito Via Láctea. No ALAP foram 14 mulheres (totalizando 56% ao comparar com a ausência de respostas com os homens) que não responderam ao questionário, no ALIKAP foram cinco mulheres (totalizando 71% ao comparar com a ausência de respostas entre os homens), e na pesquisa Diversidade lexical em comunidades afro-amapaenses: contornos diatópicos, diastráticos e diarreligiosos foram quatro mulheres (totalizando 100% ao comparar com a ausência de respostas entre os homens).
Mediante as constatações divulgadas neste trabalho, o estudo mostrou que, para o conceito Via Láctea, existem contrastes consideráveis na comparação dos dados. A relação do homem com o céu se transformou ao longo do tempo, especialmente em contextos urbanizados, onde a conexão com os astros e estrelas se enfraquece devido à modernização e à perda das antigas práticas culturais. Em contrapartida, em comunidades formadas por indígenas, quilombolas e pescadores, essa relação ainda se mantém forte, pois o contato constante com o ambiente natural favorece a observação e a nomeação dos corpos celestes. A familiaridade com essas práticas influencia diretamente a capacidade de nomeação, visto que, quanto maior o envolvimento dos costumes com a observação do céu, maior será a facilidade em identificar e nomear constelações e corpos celestes. Por outro lado, indivíduos que não possuem o hábito de olhar para o céu ou que não foram expostos a essa prática por estarem inseridos em espaços urbanos, tais como os colaboradores ALAP, tendem a utilizar denominações genéricas, tais como conjunto de estrelas ou grupo de estrelas, por não possuírem um repertório específico para designá-los.
Outro ponto ligado aos valores históricos, culturais e religiosos, foi a ocorrência majoritária da ocorrência Caminho de Santiago nos atlas da Península Ibérica (i.e. ALEPG, ALGa e ALPI) e a reprodução dessa ocorrência na pesquisa de , mais precisamente na localidade do Mazagão, que possui forte ligação dos seus moradores com a ancestralidade ibérica.
Esses fenômenos demonstram como as práticas e heranças culturais estão atreladas com a preservação e transmissão dessas nomeações. Portanto, a relação com o cosmo não é apenas uma questão de observação, mas também de ancestralidade, vivência e prática dentro de um contexto sociocultural que valoriza essa interação.
Agradecimentos
Com profunda gratidão, expresso meus sinceros agradecimentos ao professor Romário Duarte Sanches, cuja dedicação e incentivo foram fundamentais para minha trajetória nos estudos geolinguísticos. Sua orientação não apenas abriu caminhos para a realização desta pesquisa, como também viabilizou sua divulgação na revista Estudos de Lingüística Galega.
Agradeço, igualmente, às professoras Helen Costa Coelho e Greize Silva, cujo apoio constante foi essencial para o fortalecimento deste percurso, motivando-me a avançar na busca pelo conhecimento e no aprofundamento das investigações geolinguística.
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Notas
[1] De acordo com , a poluição luminosa é o excesso de iluminação das cidades, na qual interfere o ciclo natural da noite, causando prejuízos aos seres vivos e ofuscando as maravilhas naturais do céu noturno.
[2] Para a antiga civilização egípcia, Nun era a personificação do estado infinito que existia antes da criação do mundo.
[3] Chamado e conhecido como São Tiago Maior para diferenciá-lo de São Tiago Menor que também era apóstolo de Jesus Cristo ().
[5] De acordo com , o Kheuól é um crioulo de base francesa falado pelos povos indígenas Galibi-Marworno e Karipuna. Essa variedade linguística deriva do crioulo guianense, utilizado em Caiena, na atual Guiana Francesa, e resulta de um processo histórico de contato e interação contínua entre a língua francesa, línguas ameríndias e, em períodos mais recentes, o português.
[6] Atlas linguísticos desenvolvidos especificamente em comunidades tradicionais, tais como as comunidades formadas por indígenas, quilombolas e pescadores do Brasil, com muitas pesquisas na Região Norte do país ().
[7] De acordo com , a carta linguística L02a contém as primeiras informações coletadas na pesquisa de campo realizada pela professora Helen Coelho, com a carta L02b contendo os dados finais para o item lexical Via Láctea/Caminho de Santiago. Sendo assim, nesta pesquisa foi considerada a carta com os dados finais.








