1. INTRODUÇÃO
Consideremos as orações subordinadas completivas entre parênteses retos nos exemplos (1) e (2) abaixo:
- (1)
Sei bem [quão difíceis são estas provas]. Tenho de começar já a estudar.
⇒ Implicatura: as provas são muito difíceis.
- (2)
Não sei [quão difíceis são estas provas]. Espero que sejam fáceis.
⇒ Sem implicatura quanto ao grau de dificuldade das provas.
Ambas são orações com um constituinte-Q deslocado para posição inicial (quão difíceis) e um morfema-Q que representa uma variável não ligada (neste caso, um quantificador sobre o adjetivo difícil). Assumindo que a presença de uma variável predicativa livre é a marca distintiva das orações chamadas (por vezes, algo enganadoramente) interrogativas, podemos considerar que ambas as orações são orações interrogativas indiretas, num sentido lato do termo. A diferença crucial entre elas assenta na presença ou ausência de uma implicatura que condiciona diretamente a interpretação da variável livre em causa: havendo essa implicatura, como acontece em (1), assume-se que a variável apenas pode assumir valores elevados na escala (“muito difíceis”). Muitos autores, na sequência de ou , têm optado por classificar estas orações com implicatura como membros de um grupo separado de orações completivas: as exclamativas subordinadas, que, usando o termo “indireto” em analogia com o que é feito em “interrogativas indiretas”, podemos também designar como exclamativas indiretas. Esta classificação permite um paralelismo com as orações matriz; com efeito, as exclamativas matriz, mas não as interrogativas matriz puras, são factivas e desencadeiam implicaturas, que designarei doravante como “implicaturas factivas”; estas implicaturas são prototipicamente escalares, isto é, envolvem valores de propriedades em escalas: “exclamations are analyzed as inherently factive [...] – the propositional content of an exclamation [...] is always pressupposed” (); “Exclamatives introduce a conventional scalar implicature to the effect that the proposition they denote lies at the extreme end of some contextually given scale. [...] this aspect of its meaning can be labeled an implicature because it goes beyond the sentence’s truth-conditional meaning. It must be a conventional, rather than a conversational, implicature because it is nondefeasible [...] and detachable [...].” ().
Creio que pelo menos uma parte da questão da classificação das orações subordinadas-Q do tipo de (1) – como exclamativas ou, alternativamente, como interrogativas – é meramente de nomenclatura: nada de essencial muda na semântica das construções, que é relativamente bem compreendida, quer as designemos “orações exclamativas indiretas” quer as designemos – usando o termo interrogativo numa aceção lata que abrange todas as proposições com uma variável livre – “orações interrogativas indiretas com implicatura factiva”. As vantagens de separar em duas classes ou agrupar numa mesma macroclasse este tipo de orações subordinadas-Q passam crucialmente pela identificação de propriedades morfossintáticas que, a par das diferenças nas implicaturas referidas, as possam distinguir. Este trabalho pretende dar um contributo para esse objetivo, com foco no português.
Começarei por fazer, na secção 2, uma breve revisão da literatura sobre as orações exclamativas subordinadas, considerando centralmente e , que problematizam a inclusão da classe na descrição gramatical, , que também assume a classe, mas com uma delimitação mais estreita, e , que adaptam as classificações relevantes ao português. Considerarei ainda, embora mais marginalmente, Zanuttini & Portner (, ), que discutem estruturas comparáveis do italiano, numa perspetiva sintático-semântica.
Seguidamente, na secção 3, considerarei os aspetos mais semânticos ou semântico-pragmáticos das construções, nomeadamente a presença de implicaturas factivas e a relevância do tipo de predicados que selecionam as orações em causa.
Finalmente, na secção 4, atenderei a aspetos predominantemente morfossintáticos, do português. Procurarei caracterizar mais pormenorizadamente as chamadas orações exclamativas subordinadas, observando diferenças morfossintáticas entre orações exclamativas-Q matriz e orações interrogativas-Q matriz e verificando em que medida essas diferenças se refletem em posições de subordinação. Considerarei, nomeadamente: a (in)compatibilidade com o complementador exclamativo que, a (in)compatibilidade com a negação expletiva, a combinação com morfemas-Q quantificacionais exclusivamente exclamativos e a (in)compatibilidade com interjeições do tipo de oh. Dos dados analisados, ressalta a existência de diferenças significativas dentro do grupo das orações subordinadas-Q com implicatura factiva, que podem aconselhar uma divisão binária. Mais concretamente: verifica-se que a generalidade dessas orações, como a de (1), tem um comportamento morfossintático afim do das interrogativas-Q, favorecendo o seu agrupamento com as interrogativas indiretas, numa subclasse que poderíamos designar de interrogativas indiretas com implicatura factiva; porém, há um pequeno grupo de orações, como a exemplificada em (3), entre parênteses retos, que apresentam propriedades presentes em exclamativas matriz e não encontradas nas interrogativas matriz, como a presença do complementador exclamativo que (cf. Que carro que compraste! vs. * Que carro que compraste?); isto sugere a pertinência, pelo menos para este subgrupo, de uma separação das interrogativas indiretas, potencialmente como instâncias de genuínas orações exclamativas indiretas.
2. AS EXCLAMATIVAS SUBORDINADAS NA LITERATURA
2.1. e
Penso que remonta a – embora o autor cite vários autores anteriores com ideias semelhantes (Poutsma, em 1929, Kruisinga, em 1932, e Onions, em 1969) – a primeira proposta desenvolvida de integrar na descrição gramatical, do inglês, uma classe de orações subordinadas exclamativas (“embedded exclamations”), distinta da das subordinadas interrogativas. Esta classe inclui centralmente orações dependentes de predicados mirativos, que o autor denomina “exclamatory predicates” – e.g. it’s amazing [how extremely intelligent he is], it’s fantastic [what an expensive car she drives] (p. 11) –, mas inclui também orações dependentes de outros predicados compatíveis com subordinadas interrogativas, como know – e.g. I know [how tall she is and what a fantastic shoe size she takes] (p. 43). , retoma e aprofunda esta proposta. A autora destaca quatro propriedades (notadas por Elliott), duas exclusivas de exclamativas e duas exclusivas de interrogativas. Em primeiro lugar, as orações exclamativas podem integrar a forma what a (com um determinante indefinido explícito), que não ocorre em orações interrogativas – what a fool he is! (exclamativa matriz) vs. *what a fool is he? (interrogativa matriz); it’s amazing what a fool he is (exclamativa subordinada) vs. *John will ask what a fool he is (interrogativa subordinada); este contraste demonstra, para a autora, que “the distinction between matrix questions and exclamations is [...] preserved in embedding” (p. 281). Em segundo lugar, as orações exclamativas admitem a combinação do morfema how com o quantificador very, que as orações interrogativas também não admitem – it’s amazing how very tall John is (exclamativa subordinada) vs. *Fred will ask how very tall John is (interrogativa subordinada) – cf. pp. 282–283. Em terceiro lugar, a conjunção subordinativa whether, exclusiva das orações interrogativas polares, não ocorre com predicados que, segundo ela, selecionam apenas orações exclamativas, nomeadamente os predicados mirativos – *it’s amazing whether he is a fool, *I was surprised at whether he lived in a large house (p. 281). Em quarto lugar, remetendo para , além de , Grimshaw sublinha que “exclamations are inconsistent with a state of ignorance on the part of the speaker”, pelo que frases dependentes de I don’t know, I have no inkling ou I don’t realize não podem ser exclamativas (e, logo, não se combinam com what a ou how very, por exemplo) – cf. *I don’t know what a fool Bill is (pp. 283, 285).
assume que as diferenças entre subordinadas interrogativas e subordinadas exclamativas se situa predominantemente no plano semântico, ou semântico-pragmático, mais concretamente na variável representada pelo morfema-Q, que é “indeterminada” no caso das interrogativas e “determinada” no caso das exclamativas: “Interrogatives are characterized by indeterminacy in the value of the variable represented by the wh-word. [...] Exclamatives, in contrast, require determinacy on the part of the wh-variable. [...] the value of wh must be in some sense extreme [...].” (p. 284). A autora refere o “requisito de determinação das exclamativas” como uma “implication”.
É curioso notar que há uma certa hesitação em quanto ao tratamento ou não na sintaxe das diferenças entre as duas subclasses oracionais. Por um lado, a autora refere que, apesar das possíveis marcas distintivas das duas subclasses, as diferenças não se situam no plano sintático: “[...] the differences between exclamatory and interrogative complements do not seem to call for a syntactic description – all the available evidence indicates that the two complement types have the same constituent structure [...]. Indeed, in many cases, the two types are completely identical in form.” (p. 284). Mas, por outro lado, propõe uma diferenciação na sintaxe, para dar conta do facto de que as duas classes de orações são selecionadas por predicados distintos. Nomeadamente, Grimshaw estende a proposta de Bresnan (1972) de um “abstract complementizer wh, which occurs in the underlying structure of interrogatives” às exclamativas: “an abstract complementizer ex occupies the underlying Complementizer position for exclamations” (p. 314). Consequentemente: “questions and exclamations would have [...] distinct syntactic representations, and predicates which select exclamations could be subcategorized for ex, and thus be separate from those which select questions ().
Com efeito, considera tratar-se centralmente de uma questão de seleção categorial: há predicados que apenas selecionam exclamativas, como amazing ou be surprised at (predicados mirativos), predicados que apenas selecionam interrogativas, como ask ou wonder (e.g. predicados de inquirição), e predicados que admitem ambos os tipos de complementos oracionais, como know e find out (e.g. predicados epistémicos). Estes últimos podem dar origem a frases ambíguas, já que, excetuando casos particulares como o da presença de sequências exclusivamente exclamativas (e.g. what a, how very), as frases das duas subclasses são superficialmente idênticas. Exemplos de frases ambíguas seriam Fred knows how tall John is ou Fred found out how fast John can run (p. 282): na leitura exclamativa, assume-se que o John “must be unusually tall” e “run unusually fast”, respetivamente; na leitura interrogativa, não há qualquer “implication” acerca da altura do John ou da velocidade a que ele corre.
A propósito da distinção ou não na sintaxe de exclamativas e interrogativas subordinadas, importa sublinhar que alguns autores posteriores, nomeadamente , defendem que seja feita uma distinção em termos configuracionais. Para eles, as duas classes partilham uma “WH operator-variable structure”, mas as exclamativas têm um nó sintático adicional – FACT – representativo do seu valor factivo, que não está presente nas interrogativas: “Exclamatives contain an abstract morpheme FACT in the CP domain. [...] Exclamatives are factive, that is, their propositional content is presupposed; this presuppositionality is the result of the abstract morpheme FACT [...].” (p. 40).
2.2.
Seguindo e , integra na sua tipologia de subordinadas completivas uma subclasse de orações exclamativas: “exclamative content clauses”. Esta subclasse está ilustrada em (5), que contém, entre parênteses retos, a contrapartida, em contextos de subordinação, da oração exclamativa direta em (4).
Importa sublinhar que há diferenças significativas entre , de um lado, e ou , do outro, no que respeita tanto ao elenco dos morfemas-Q exclamativos como à análise de frases dependentes de predicados mirativos. Para , as exclamativas subordinadas estão limitadas a dois morfemas-Q, how e what adnominal, que são os únicos morfemas-Q que ocorrem canonicamente em orações exclamativas matriz do inglês. Recorde-se que estes dois morfemas têm homónimos interrogativos, o que dificulta a distinção entre orações interrogativas e exclamativas subordinadas, mas há duas diferenças de forma que se manifestam em contextos particulares: o morfema how admite intensificação com very (how very), que o homónimo interrogativo não admite, e o morfema what pode preceder um artigo indefinido (na sequência what a, que é exclusivamente exclamativa). e têm uma visão menos restritiva e classificam também como exclamativas (subordinadas) orações com outros morfemas-Q que não ocorrem em exclamativas matriz, e.g. who e what pró-SN. Consideram que estes morfemas introduzem orações exclamativas quando estas dependem de predicados que, segundo eles, só selecionam exclamativas, como os mirativos: “wh-complements introduced by who and what [pró-SN] also occur as both exclamations and questions: [...] it’s amazing {who / what} John saw [...]”, apesar de que “who and what do not occur readily in matrix exclamations: [...] *Who John saw! *What John saw!” (). Note-se, marginalmente, que nas frases exclamativas matriz do português, que realizam atos de fala expressivos, ocorre um elenco de morfemas exclamativos mais amplo que no inglês. Assim, a tradição gramatical portuguesa classifica (justificadamente) como exclamativas formas pronominais e adverbiais contrapartidas dos morfemas ingleses who (quem), what pró-SN (o que) ou where (onde), entre outros, que não ocorrem em exclamativas matriz em inglês – cf. e.g. as exclamativas matriz A quem eles foram pedir ajuda!, O que ele foi dizer! ou Onde nós nos metemos! O mesmo se aplica mutatis mutandis ao italiano (cf. , ).
No que respeita à análise de frases dependentes de predicados mirativos, diverge significativamente de e (e bem assim de , que partilham as opiniões destes últimos). Para Huddleston, embora as leituras exclamativas sejam fortemente preferidas com predicados mirativos, estes também se combinam com interrogativas indiretas. Em particular, todas as estruturas subordinadas que usam morfemas-Q diferentes de how e what adnominal, como as de (6), são, para o autor, interrogativas, não exclamativas.
O autor sublinha que em frases como estas há um “componente exclamativo”, mas ele tem origem no predicado mirativo matriz (amazing), não na oração subordinada, que não é exclamativa (já que usa morfemas que não ocorrem em exclamativas matriz). Já com predicados mirativos e os morfemas how e what adnominal, coloca a emergência da leitura exclamativa da subordinada em termos de (forte) preferência: em it’s amazing [how old they were], “the expression governing the content clause [amazing] incorporates within its meaning something very akin to the ‘remarkable’ feature that is associated with the exclamative construction, and this favours the exclamative interpretation so strongly that one would generally not use this form to express the interrogative meaning” (p. 992); a mesma preferência, aliás, pode ser observada com how e outros predicados: frases como this just shows [how immature he was] ou I remembered [how frail he was] são normalmente interpretadas como “conveying that he was immature or frail to a remarkable degree, hence as exclamative” (p. 992). Mas o autor sublinha – muito sintomaticamente – que os dois sentidos, exclamativo e interrogativo, não são incompatíveis e que o primeiro de algum modo pressupõe o segundo:
The exclamative reading is effectively more specific, more informative than the interrogative one, rather than being in conflict with it. If I remembered that he was remarkably frail [exclamative reading], then I remembered the answer to the question ‘How frail was he?’ – it’s just that the answer involves a high degree of frailty. ()
Ou seja, apesar de adotar a classe das orações subordinadas exclamativas, faz um uso mais limitado do conceito, aplicando-o apenas a orações que integram marcas morfossintáticas identificáveis em exclamativas matriz. Insiste ainda, de forma que me parece especialmente interessante, na separação entre o “componente exclamativo” induzido por predicados superiores (e.g. mirativos) e a classificação das orações subordinadas.
2.3.
Na linha dos autores acima referidos, consideram que a classe das exclamativas subordinadas é relevante na descrição gramatical do português: “as estruturas exclamativas também podem ocorrer em contextos de subordinação” (p. 2565).
Os autores apresentam diversos exemplos de exclamativas subordinadas. Na minha opinião, eles podem dividir-se em três grandes grupos. Num primeiro grupo, há exclamativas parciais, em que o morfema-Q tem um valor quantificacional (paralelamente ao que acontece com how e what adnominal do inglês): e.g., que [N], que [A], quão [A], quanto [N], quanto [V] e como [V], ilustrados em (7) a (12), respetivamente.
- (7)
Todos sabemos [que disparates ele foi capaz de dizer naquela noite].
()
- (8)
Só mais tarde percebi [que grave era a situação].
()
- (9)
É incrível [quão agressivo ele é capaz de ficar].
()
- (10)
Impressiona-me [quanta asneira ela é capaz de dizer].
()
- (11)
É incrível [quanto nevou].
()
- (12)
Os pais deles estão cientes de [como ele é imaturo].
()
Neste grupo, com claras implicaturas escalares, os morfemas-Q são contrapartidas aproximadas dos dois morfemas exclamativos ingleses, what adnominal (cf. (7)) e how, quer how [A/ADV] (cf. (8)- (10)) quer how [V] (cf. (11)- (12)).
Num segundo grupo, também de exclamativas parciais, o chamado morfema exclamativo não tem um valor quantificacional: aqui incluem-se quem (contrapartida de who), o que (contrapartida de what) ou onde (contrapartida de when). Note-se que, como já foi referido, estes morfemas, ao contrário das suas contrapartidas inglesas, podem ocorrer em exclamativas matriz, pelo que a sua classificação como operadores exclamativos, é plenamente justificada na descrição gramatical do português. Deste segundo grupo, apenas é dado um exemplo em posição de subordinação em :
Neste segundo grupo, não é tão claro como é no anterior que surjam implicaturas que possamos apelidar de “escalares” (termo frequentemente usado na literatura para referir as implicaturas associadas às exclamativas subordinadas). A implicatura em (13) seria qualquer coisa como: “Ela foi meter-se numa coisa que é muito complicada, que não é muito boa,...”. Em eles não sabem com quem se foram meter¸ a implicatura seria qualquer coisa como: “Eles foram meter-se com pessoas muito complicadas, muito poderosas, não muito boas,...”. Assim, prefiro usar aqui o termo, mais abrangente, implicatura “factiva”, ainda que em muitos casos esteja em causa, com efeito, um valor de tipo escalar.
Num terceiro grupo, há interrogativas globais com o morfema como (que não creio possuir uma contrapartida-Q em inglês). São exemplos de exclamativas globais matriz frases do tipo de como as crianças comeram a sopa toda! (p. 2570) ou como o Pedro se lembrou da avó! (p. 2571). Estes casos distinguem-se por não haver um sintagma deslocado por movimento-Q de uma posição interna à frase. Deste terceiro grupo, são exemplos, em posição de subordinação:
- (14)
É incrível [como ela se esqueceu do dia de anos da mãe].
()
- (15)
É impressionante [como a resposta chegou a tempo].
()
Creio que estas construções são de um tipo muito particular e merecem uma análise separada, não sendo claro que elas envolvam uma implicatura escalar ou afim. Ignorá-las-ei doravante neste artigo, concentrando-me apenas nas subordinadas-Q não globais.
destacam o facto de poder haver ambiguidade entre exclamativas subordinadas (EXCL) e interrogativas subordinadas (INT) com certos predicados, como descobrir ou saber (desde que não na fórmula não sei, que apenas seleciona interrogativas), como em (16)-(17):
- (16)
O Pedro já descobriu [EXCL / INT quantos filhos ele tem].
()
- (17)
Eles sabem [EXCL / INT no que ela se foi meter].
()
destacam ainda uma diferença formal entre exclamativas matriz e exclamativas subordinadas, que é interessante sublinhar, e a que voltarei adiante, na secção 4.1: as exclamativas subordinadas não permitem normalmente a adição do complementador que (COMP) a seguir ao constituinte exclamativo; compare-se (18), uma frase matriz, com a frase subordinada de (19):
- (18)
Que corruptos queCOMP eles são!
()
- (19)
{??Os eleitores já perceberam / *É inacreditável} [que corruptos queCOMP eles são].
()
Finalmente, quanto aos aspetos semântico-pragmáticos, destacam as mesmas propriedades que os autores anteriormente citados, a saber: a factividade e a presença de uma “implicatura (convencional) escalar”:
Dizemos que as frases exclamativas introduzem uma implicatura (ou implicitação) escalar no sentido de que a proposição que exprimem se situa no ponto extremo de uma escala contextualmente dada. [...] Este tipo de implicitação é convencional no sentido em que é inferível através da construção gramatical em si e não em função de considerações de natureza conversacional ou pragmática. ()
3. PROPRIEDADES SEMÂNTICO-PRAGMÁTICAS
3.1. Implicaturas factivas
Como já foi referido, a propriedade linguística fundamental que distingue as chamadas orações subordinadas exclamativas das orações subordinadas interrogativas comuns situa-se no plano das inferências, não do plano da asserção, e envolve a presença uma implicatura (sobre cuja subclassificação não me irei aqui pronunciar), tipicamente escalar.
Porém, importa notar que a existência de implicaturas escalares não separa liminarmente os tipos sintáticos oração exclamativa / oração interrogativa. Com efeito, algumas orações interrogativas diretas – nomeadamente não puras (cf. ), isto é, retóricas e afins – podem estar associadas a implicaturas de tipo semelhante (sem que tenha sido proposto, por esse facto, que elas passem a ser classificadas como orações exclamativas).
- (20)
Ele é mesmo burro! Quão difícil pode ser juntar estas duas peças, como eu lhe pedi?
⇒ Implicatura: não é muito difícil juntar as duas peças em causa.
- (21)
“Que importarão [...] os momentos de emoção ontem vividos naquele descampado [...] onde a Renault irá fazer uma grande festa [...]? Quão grande não será a frustração de todos quantos desejavam presenciar destemidas ultrapassagens num local onde é quase impossível realizá-las em segurança?”
(, ext1333806-des-97b-1)
⇒ Implicatura: a frustação (de todos quantos desejavam presenciar destemidas ultrapassagens) deve ter sido muito grande.
Como também já foi mencionado, a presença de implicaturas pode depender do estado de conhecimento do locutor. Assim, tomar essas implicaturas como marca de uma diferença de classe sintática de frases pode ter o efeito – porventura indesejável – de ter de atribuir uma subcategoria sintática a frases perfeitamente idênticas do ponto de vista morfossintático:
- (22)
Eu não sei [quantas mentiras foram ditas].
⇒ classificação da subordinada apenas como interrogativa (não estando implicado que foram ditas muitas mentiras)
- (23)
Tu não sabes [quantas mentiras foram ditas].
⇒ classificação da subordinada como exclamativa ou como interrogativa, consoante esteja implicado que foram ditas muitas mentiras, ou não
A emergência de implicaturas em subordinadas-Q do tipo em apreço é ainda condicionada por outros fatores. Por exemplo, observa-se que certos predicados escalares que representam tendencialmente extremos ou pontos muitos elevados/baixos das escalas relevantes (cf. e.g. quão sinistro, quão inútil, quão maravilhoso) tendem a favorecer as implicaturas e a não ocorrer em genuínas interrogativas com variável livre, enquanto que outros mais neutros (cf. quão difícil, quão fácil, quão importante, quão longe) permitem mais facilmente o surgimento das duas leituras, com ou sem implicatura. Porém, não se trata de uma correspondência obrigatória – cf. e.g. este regime foi certamente sinistro, mas o julgamento final da História depende de [quão sinistro se vier a provar que ele realmente foi] (oração genuinamente interrogativa, sem implicatura de que o regime foi “muito sinistro”).
Observa-se ainda que a coordenação copulativa de predicados associados a escalas diferentes favorece a implicatura – cf. (24) –, ao passo que a coordenação disjuntiva de predicados associados à mesma escala bloqueia a implicatura – cf. (25) (ou (40) adiante):
- (24)
Naquela altura, não sabíamos ainda [quão incoerente, retrógrada e incrivelmente hipócrita a sua argumentação iria ser].
- (25)
Naquela altura, não sabíamos ainda [quão válidos ou inválidos os seus argumentos iriam ser].
Globalmente, não parece evidente que a presença ou ausência de implicaturas possa servir como base a uma subclassificação sintática bem motivada.
3.2. Subtipos de predicados selecionadores
Para , há dez tipos de predicados que selecionam orações interrogativas subordinadas. Destes, cinco também selecionam exclamativas subordinadas, não havendo – segundo ele – nenhum predicado que selecione apenas exclamativas, sem se combinar com interrogativas (cf. p. 993). Recorde-se que, para , ao contrário do que parece ser o entendimento de , ou , os predicados mirativos (grupo surprise) são compatíveis com orações classificáveis como interrogativas, sendo esta a única análise possível para as frases em que não ocorrem os morfemas-Q exclamativos what adnominal ou how, como as de (6) acima – e.g. it’s amazing who they appointed (cf., em português, surpreende-me muito quem eles nomearam). Os grupos de predicados considerados em comportam-se de forma muito semelhantes em inglês e em português, língua em que me concentrarei doravante.
3.2.1. Predicados que não selecionam complementos exclamativos
Os cinco grupos de predicados superiores que, segundo não se combinam com estruturas exclamativas, ou, noutros termos, tendem a bloquear a implicatura factiva são: asking (e.g. perguntar), deciding (e.g. decidir), dependence (e.g. depender), significance (e.g. importar) e disbelief (e.g. dúvida). Vejam-se os exemplos a seguir, com o morfema quão em orações dependentes de cada um dos primeiros quatro grupos de predicados, respetivamente, e em que as variáveis quantificacionais relevantes estão claramente em aberto (ou seja, contendo genuínas orações interrogativas indiretas, sem implicatura factiva):
- (26)
“Gostavam de ser uma destas pessoas [...] [que estão] a segurar uma parte do olho do Presidente Mao? Pergunto-me quão bem se sentiriam se estivessem por detrás de um destes cartões?” (, ext154819-clt-93a-1)
- (27)
“Ao anunciarem a sua cooperação, Schoenhuber e Frey indicaram que competirá aos membros de cada partido decidirquão próxima ela será.” (, ext1259218-pol-94b-2)
- (28)
“[...] um resultado diferente do esperado provocaria uma reacção negativa [...] dependendo de quão radical seja a eventual mudança de política em relação à do actual governo [...].” (, ext1161642-pol-94b-1)
- (29)
“Não importaquão ricos, famosos e populares somos, porque chegará o nosso dia.” (, ext1401934-soc-95b-1)
Porém, deve notar-se que mesmo com estes predicados é possível criar contextos em que são fortemente sugeridas implicaturas, apontando para uma questão do plano pragmático-discursivo, mais do que estritamente formal (semântico-lexical):
3.2.2. Predicados que selecionam tanto complementos exclamativos como complementos interrogativos
Quatro grupos de predicados superiores combinam-se claramente tanto com subordinadas-Q que têm sido classificadas como exclamativas como com subordinadas-Q genuinamente interrogativas: knowing (e.g. saber),guessing (e.g. calcular, adivinhar, imaginar), telling (e.g. dizer), concerning (e.g. respeitar). Com estes predicados pode, em princípio, gerar-se ambiguidade entre as duas leituras ou haver fatores contextuais que, excluindo uma das leituras, deixem apenas uma leitura exclamativa ou uma leitura interrogativa (ou, nos termos que prefiro, induzam ou bloqueiem uma implicatura factiva). Vejam-se os quatro exemplos a seguir, com o morfema quão (ou o quão) e predicados superiores das classes knowing, em (31), e guessing, em (32); nas alíneas ɑ, não há implicatura factiva (e, portanto, obtém-se uma interpretação de genuína interrogativa) e, nas alíneas b, há essa implicatura (e, portanto, obtém-se a interpretação que tem sido apelidada de exclamativa):
-
(31)
- a.
“[...] o mercado aguardava pelo[s] valores na certeza de que estes seriam negativos. A questão estava em saberquão negativos seriam [...].” (, ext520509-eco-96b-1)
⇒ Sem implicatura quanto ao grau de negatividade dos valores.
- b.
“O mais importante será definir o tipo de jogo que faremos em casa. [...] todos devem saberquão importante é ganhar, mostrando sempre uma atitude ofensiva.” (, ext167556-des-95b-2)
⇒ Implicatura: é muito importante ganhar.
- a.
-
(32)
- a.
“[...] para calcularquão larga uma imagem é em relação a outra, basta dividir a diagonal maior pela mais pequena, e elevar o resultado ao quadrado.”
(, ext1452610-clt-soc-95b-2)
⇒ Sem implicatura quanto à largura (de uma imagem em relação à outra).
- b.
“«Albufeira dispõe [...] de todas as condições [...] para transformar-se numa praia [...] de primeira ordem», vaticinou o escritor, sem poder adivinharo quão longe iria «o despertar das iniciativas locais [...]»” (, ext966657-nd-96a-1)
⇒ Implicatura: o despertar das iniciativas locais iria/foi muito longe.
- a.
Genericamente, observa-se que certos contextos gramaticais e/ou certos subgrupos de predicados parecem favorecer muito fortemente – ou mesmo induzir – uma das duas interpretações. Por exemplo, é muito salientado na literatura que saber (e afins) quando usados na primeira pessoa do presente do indicativo em frases negativas bloqueiam a implicatura factiva (cf. e.g. ; ). Assim, uma frase como a seguinte tem apenas a interpretação de genuína interrogativa:
- (33)
“«Não seiquão séria é esta lesão, não sou médico», disse o seleccionador [...].” (, ext400034-des-98a-2)
Porém, mesmo com estas formas na estrutura matriz, parece possível induzir uma implicatura factiva, apontando mais uma vez para o plano pragmático-discursivo, e retórico, mais do que estritamente formal (cf. ainda a nota de rodapé 8):
- (34)
Eu não sei mesmo quão incrivelmente burra uma pessoa tem de ser para acreditar numa coisa dessas!
- (35)
Dizes que eu não seiquão séria é a lesão, mas isso não é verdade.
Sei-o perfeitamente. [negação em discurso indireto]
Por outro lado, certos predicados, como por exemplo imaginar, provar ou sublinhar, parecem sugerir fortemente a implicatura:
- (36)
“[...] eu respeito [...] a [consciência individual] de Leonor Beleza. Imaginoquão difícil e dolorosa será a sua posição pessoal, familiar e política.” (, ext991801-nd-94a-1)
⇒ Implicatura: a posição pessoal, familiar e políticas de Leonor Beleza é muito difícil e dolorosa.
- (37)
“Mas, se o gesto tem algum significado, [...] é o de provarquão frágil se encontra o [...] eixo Paris-Bona [...].” (, ext817462-nd-98a-2)
⇒ Implicatura: o eixo Paris-Bona encontra-se muito frágil.
- (38)
“[...] logo após [...] [as] reacções públicas, os dirigentes do PSG apressaram-se a sublinharquão preocupados ficaram com os incidentes.” (, ext1442627-des-93b-2)
⇒ Implicatura: os dirigentes do PSG ficaram muito preocupados com os incidentes.
Porém, mesmo com estes predicados (pelo menos com imaginar), é possível que a implicatura não surja (cf. ainda Quadro 1, abaixo):
- (39)
Imagina uma praia. Agora tenta imaginarquão longe consegues nadar.
- (40)
Não consigo neste momento imaginarquão difícil ou quão fácil vai ser resolver o problema.
Já com provar ou sublinhar, ou com imaginar integrado em frases exclamativas matriz (e.g. imagina...! nem imaginas...! não imaginas...!), à semelhança do que acontece com predicados mirativos, a implicatura é quase sempre assumida:
- (41)
Provámosquão fácil é enganar o sistema.
- (42)
Depois de sublinharquão fácil é enganar o sistema, apresentou a sua proposta de remodelação.
- (43)
Nem imaginasquão fácil é enganar o sistema!
Uma pesquisa exploratória no corpus de texto jornalístico português (com cerca de 195 milhões de palavras), para oito predicados ilustrativos de três das quatro classes em análise nesta secção, confirma que a predominância da implicatura factiva pode de facto variar muito de predicado para predicado dentro do mesmo grupo. Eventualmente outros fatores, como o tipo específico de morfema-Q, podem também ser relevantes. Deixo uma análise mais pormenorizada destas variações, e um trabalho mais sistemático de análise de dados em corpora, para investigação futura.
3.2.3. Predicados mirativos
Como já foi referido, para alguns autores , , , mas não ), os predicados mirativos selecionam sempre subordinadas-Q exclamativas, nunca interrogativas. Independentemente da classificação dos seus complementos, os predicados mirativos formam, pela natureza do seu próprio significado, um grupo aparte, sendo muito difícil combiná-los com subordinadas-Q sem implicatura factiva. atribui esse facto ao significado dos próprios predicados mirativos, que incorporam uma “componente exclamativa”, não considerando que eles necessariamente bloqueiem a seleção de orações interrogativas (aliás, todas as orações que não usam os morfemas how ou what adnominal são, para Huddleston, não exclamativas).
As propriedades destes predicados não são exatamente iguais em inglês e português, mas coincidem na generalidade dos aspetos. Segue-se uma breve caracterização centrada no português, considerando predicados como surpreender, espantar, admirar e afins.
A combinação de predicados mirativos com subordinadas-Q (interrogativas com implicatura factiva, na classificação que prefiro) apresenta muitas restrições que não encontramos com outros predicados que selecionam o mesmo tipo de argumentos oracionais (e.g. perguntar, saber ou dizer), ou seja, estes verbos têm um comportamento sintático algo atípico, e único. Comecemos por ver algumas combinações possíveis em português, com diferentes morfemas-Q:
- (44)
Surpreendeu-me a quem eles pediram ajuda.
- (45)
Surpreendeu-me quem o ministro nomeou.
- (46)
Surpreendeu-me como ele resolveu o assunto.
- (47)
Surpreendeu-me quão rapidamente ele resolveu o assunto.
- (48)
Surpreendeu-me quanto tempo aguentaste debaixo de água sem respirar.
Entre as especificidades, destaca-se a incompatibilidade dos predicados mirativos com interrogativas polares, muito notada para o inglês (e aparentemente uma idiossincrasia deste grupo de predicados) – cf. *surpreendeu-me se o Pedro foi nomeado (ou não). Destaca-se ainda, para o português, a incompatibilidade com certas interrogativas-Q, incluindo as que usam os pronomes exclusivamente interrogativos qual e que adnominal – cf. *surpreendeu-me quais foram as pessoas que foram nomeadas, *surpreendeu-me que pessoas foram nomeadas. Finalmente, destaca-se a estranheza da inserção de é que (expressão que normalmente pode acompanhar interrogativas indiretas em português) – cf. ??surpreendeu-me a quem é que eles pediram ajuda, ??surpreendeu-me como é que ele resolveu o assunto, ??surpreendeu-me quanto tempo é que aguentaste debaixo de água sem respirar. Adicionalmente, os predicados mirativos aceitam complementos oracionais declarativos (cf. surpreendeu-me que o Pedro tivesse sido nomeado) e, interessantemente, estes complementos podem ser usados para parafrasear subordinadas-Q do tipo em apreço; compare-se (44)-(48) com, respetivamente: surpreendeu-me que eles tivessem pedido ajuda a esta(s) pessoa(s) (e não a outra(s)), surpreendeu-me que o ministro tenha nomeado esta(s) pessoa(s) (e não outra(s)), surpreendeu-me que ele resolvesse o assunto desta maneira (e não de outra maneira), surpreendeu-me que eles tivesse resolvido o assunto tão rapidamente, surpreendeu-me que tivesses aguentado tanto tempo debaixo de água sem respirar. As paráfrases evidenciam que só nos dois últimos exemplos as implicaturas são genuinamente escalares, podendo recorrer-se aos intensificadores tão e tanto.
Os predicados mirativos aceitam ainda complementos da categoria SN com certos traços, e.g. [+Humano] (o Pedro surpreendeu-me), [+Objeto] (a Igreja da Sagrada Família de Gaudí surpreendeu-me) ou [+Situação] (a queda do muro surpreendeu-me), criando condições para a emergência de ambiguidades interrogativa (ou exclamativa) indireta / relativa livre, com certos morfemas-Q. No , não se encontram muitos exemplos claros de interrogativas-Q com predicados mirativos. A maior parte das construções podem ser interpretadas como SNs com orações relativas livres. Mas alguns exemplos parecem ter (ou poder ter) uma interpretação interrogativa/exclamativa afim da de (44)-(48):
- (49)
“Mas faça-se, ao menos, esta justiça ao presidente do Governo Regional da Madeira: ele entende o que ouve e não se espanta com quem lhe faz oposição.” (, ext982780-opi-98a-2)
⇒ leitura interrogativa: ‘não se espanta que sejam essas pessoas e não outras a fazer-lhe oposição’; leitura relativa: ‘as pessoas que lhe fazem oposição não são pessoas que o espantem’
4. PROPRIEDADES (PREDOMINANTEMENTE) MORFOSSINTÁTICAS
Mesmo os autores que defendem a existência de uma subclasse de orações subordinadas exclamativas reconhecem que certos fenómenos exclusivos das orações exclamativas matriz (não partilhados pelas orações interrogativas matriz) não emergem em contextos de subordinação. Um dos casos mais relevantes é o das expressões exclamativas (sem contrapartidas interrogativas) tão e tanto em posição inicial. Como sublinham as exclamativas subordinadas não podem ser construídas com essas formas tão e tanto – compare-se (50a), uma frase matriz, com a frase subordinada de (50b):
Outra diferença relevante, que tanto quanto sei não foi referida na literatura, e que explorarei adiante em 4.4, envolve a impossibilidade de usar interjeições (do tipo de oh ou ah) em posições subordinadas:
Considerarei nesta secção diferentes propriedades morfossintáticas, na tentativa de identificar outras divergências, e eventuais aspetos comuns, entre as chamadas exclamativas subordinadas, de um lado, e as exclamativas matriz e/ou as interrogativas matriz, do outro. Apesar de não ser possível realizar aqui um estudo exaustivo dessas propriedades, penso que ficarão claras semelhanças e diferenças que apontam para um comportamento não uniforme das subordinadas-Q que têm sido apelidadas de exclamativas, que me interessa destacar.
4.1. Compatibilidade com o complementador exclamativo que
O complementador que (contrapartida do complementador che do italiano, estudado por , ) ocorre com frequência a seguir a constituintes exclamativos em certas exclamativas matriz, quer exclamativas-Q, como (52), quer exclamativas com tão e tanto iniciais, como (53). Por facilidade de referência e distinção de outros complementadores que, refiro-o aqui como “complementador exclamativo”. Em frases matriz, este operador parece ser uma marca exclusiva das construções exclamativas, não sendo usado em interrogativas (cf. e.g. *que diplomático queCOMPele é?).
Para o português, são os únicos autores que conheço que referem a questão da utilização deste complementador que em orações subordinadas. Segundo eles, as orações subordinadas exclamativas não permitem o uso de que a seguir ao constituinte exclamativo, o que sinaliza uma diferença importante entre exclamativas matriz e exclamativas subordinadas:
- (54)
{??Os eleitores já perceberam / *É inacreditável} [que corruptos queCOMP eles são].
()
- (55)
*{Ela sabe / É impressionante} [quantas mentiras queCOMP ele disse].
()
Esta impossibilidade, a ser categórica, favoreceria a hipótese de que em posição de subordinação não há genuínas orações exclamativas, no sentido em que os mecanismos morfossintáticos específicos destas orações em posição matriz não emergem em posições de subordinação. Acontece que a impossibilidade não é de facto categórica, não sendo o complementador exclamativo que liminarmente bloqueado em todos os contextos de subordinação. Consideremos a questão com mais algum pormenor, referindo situações tanto quanto sei não discutidas na literatura.
Em primeiro lugar, há registos do complementador que em orações subordinadas-Q em texto literário português. No corpus (de autores clássicos portugueses dos séculos XVI a XX, c. 14 milhões de palavras), encontrei 3 registos com [quão A'] que – cf. (56)-(57) – e pelo menos 4 com [que N'] que – cf. (58)-(60). Estendem-se dos séculos XVI a XIX e alguns parecem exemplificar uma sintaxe arcaizante.
- (56)
“[...] para que se veja quais são os juízos dos homens e quão impugnadas queCOMPcostumam ser as obras de que Deus se quer servir.”
(Padre António Vieira, História do Futuro, 1659, in)
- (57)
“Não se mostrou logo o Silfo, querendo [...] antes de aparecer, dar-me [...] guapa ideia de quão galã queCOMPele era, e adular-me assim a minha vaidade [...].”
(Filinto Elísio, Sucessos de Madama de Senneterre por ela referidos, 1798, in)
- (58)
“Oh! se soubesses, Fernando, que trova queCOMPfiz agora!”
(Gil Vicente, Farsa do Juiz da Beira, 1525, in)
- (59)
“É isso, venha jantar connosco, veráque apetite queCOMPela traz...”
(Almeida Garrett, Tio Simplício, 1846, in)
- (60)
“Olha as macieiras que maçãs queCOMPdão: Gangrena por fora, dentro podridão!”
(Guerra Junqueiro, Pátria, 1896, in)
Como se pode verificar, na matriz, predominam os verbos percetivos (ver, olhar) e os predicados epistémicos (saber, dar ideia). Em todos os casos, há uma implicatura factiva, pelo que as orações são do tipo afim das exclamativas; a presença do complementador que pode funcionar como um argumento para a sua classificação como genuínas orações exclamativas subordinadas (já que em interrogativas o complementador que não ocorre).
Adicionalmente, mesmo contemporaneamente, algumas combinações parecem ser sentidas como naturais. Neste trabalho, não é meu objetivo tentar fazer uma identificação exaustiva dos contextos relevantes, que remeto para investigação futura; destaco apenas dois contextos, que me parecem particularmente favorecedores da construção em causa: (i) que X' em frases dependentes de verbos percetivos, principalmente em contextos exortativos – cf. (61); (ii) que X' em frases negativas com os verbos imaginar ou saber – cf. (62), integradas em frases matriz exclamativas.
Observa-se ainda que, em contextos semelhantes, podem ser usados outros morfemas-Q, nomeadamente (o) quão X', (o) quanto (F) e quanto N':
4.2. Compatibilidade com a negação expletiva
Como veremos, algumas orações subordinadas-Q que têm sido classificadas como exclamativas admitem com grande naturalidade a presença de negação expletiva (EXPL). Este facto não constitui por si só um argumento categórico contra a classificação dessas orações como interrogativas e a favor da sua classificação como exclamativas, porque a negação expletiva também ocorre num subgrupo – ainda que limitado – de orações interrogativas, não puras. Em todo o caso, sendo a negação expletiva um fenómeno que parece ser contemporaneamente prototípico das orações exclamativas, importa ponderar a questão. Vejamos os factos.
A negação expletiva ocorre com alguma frequência em orações exclamativas matriz (cf. e.g. ; ; ), incluindo exclamativas-Q parciais, que nos interessam aqui especialmente. Segundo , o português é “a língua românica que, modernamente, menos admite a negação expletiva” e este tipo de negação persiste essencialmente em frases exclamativas. Vejam-se exemplos de diferentes tipos:
- (66)
O que eles nãoEXPL terão sofrido para subir aquela montanha! ()
- (67)
Que problemas ele nãoEXPL teve de enfrentar! ()
- (68)
Quantas coisas nãoEXPL lhe aconteceram! ()
A negação expletiva é agramatical nas chamadas interrogativas puras, que representam atos de fala diretivos, em que se pretende que o interlocutor forneça o valor de uma variável proposicional, apresentada como completamente livre:
- (69)
Em que estádio francês (*nãoEXPL) colapsou uma bancada em 1992, causando dezenas de mortos e feridos?
- (70)
Quantas comunições (*nãoEXPL) estão previstas no congresso?
Porém, a negação expletiva pode ocorrer em interrogativas-matriz não puras, de tipo retórico ou afim, com uma sugestão de resposta, envolvendo uma implicatura factiva, tipicamente escalar, como nos dois exemplos seguintes (e ainda em (20)-(21) acima):
- (71)
O que é que tu nãoEXPL davas para estar agora de férias, hã?
⇒ Implicatura: (eu acredito que) tu davas muito para estar agora de férias.
- (72)
“«Entre marido e mulher não metas a colher», prescreve o ditado popular. Quanto sofrimento e dor nãoEXPL originou já o respeito a esta suposta sabedoria do povo? (, ext6502-nd-91b-2)
⇒ Implicatura: o respeito à suposta sabedoria do povo já originou muito sofrimento e dor.
apresenta dois exemplos em contextos de subordinação que me interessa aqui destacar. Num, encontramos uma estrutura subordinada-Q inquestionavelmente interrogativa, na medida em que depende de um verbo de inquirição (interrogar-se), que não seleciona orações exclamativas:
- (73)
“Podemos sempre interrogar-nos sobre o que nãoEXPLteria já acontecido em alguns países para onde a ONU costuma mandar missões de fiscalização [...].”
(Expresso, 18.11.2000, apud)
Esta interrogativa subordinada tem – à semelhança das interrogativas matriz em (71) e (72) – um caráter retórico, parecendo estar associada a uma implicatura factiva: a sugestão de que “já aconteceram muitas coisas nos países em causa”. Exemplos deste tipo mostram que a negação expletiva, só por si, não pode ser tomada como critério decisivo para determinar o caráter sintático exclamativo ou interrogativo de uma subordinada-Q. Vejam-se mais exemplos de subordinadas-Q inquestionavelmente interrogativas (porque dependentes de perguntar ou de não sei), com negação expletiva:
- (74)
“Em 1974, [...] a Ordem dos Médicos belga aplicou a um médico responsável pela passagem reiterada de atestados de doença injustificados nada menos do que a suspensão da actividade profissional por dois anos. É de perguntarquantos médicos nãoEXPLestariam suspensos em Portugal por condutas semelhantes, tão correntes elas são.” (, ext174864-opi-97a-2)
⇒ Implicatura: muitos médicos estariam suspensos em Portugal por condutas semelhantes, se a Ordem dos Médicos portuguesa procedesse como a Ordem dos Médicos belga.
- (75)
Não seio que é que eu nãoEXPLfaria se soubesse que estava a ser enganado.
⇒ Implicatura: eu faria muito se soubesse que estava a ser enganado.
Outro exemplo de inclui uma subordinada-Q dependente de um predicado que seleciona tanto subordinadas interrogativas como subordinadas exclamativas (imaginar):
Existem muitas abonações, de texto literário e de texto jornalístico contemporâneo, com predicados deste tipo (em que a classificação das subordinadas-Q como exclamativas ou como interrogativas se pode colocar).
- (77)
“A fisionomia do doutor era um espelho do espírito. Por ela via-se quão enrugada e árida por lucubrações antilombrigóides nãoEXPLdevia de estar-lhe a alma!”
(Camilo Castelo Branco, Duas Horas de Leitura, 1857, in)
⇒ Implicatura: a alma devia estar-lhe muito enrugada e árida por lucubrações antilombrigoides.
- (78)
“Já vêem, pela energia da expressão, que dor tão sublime nãoEXPLdevia ser a que assim se exprimia por jactos de calorosa eloquência!”
Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago, 1854, in)
⇒ Implicatura: a dor que assim se exprimia devia ser muito sublime.
[Atente-se no uso do intensificador tão na oração subordinada.]
- (79)
“[...] este Governo, contando bem, tem dezenas de membros, veja-se só quanto pessoal de gabinete isso nãoEXPLrepresenta [...].” (, ext999660-pol-94b-2)
⇒ Implicatura: isso representa muito pessoal de gabinete.
Finalmente, atente-se no seguinte exemplo curioso de :
Aqui temos uma oração subordinada dependente de um verbo percetivo (olhar) integrada numa frase matriz exclamativa, e num contexto exortativo, um tipo já destacado na secção 4.1 como favorecedor da emergência do complementador exclamativo que. Esta estrutura, que tem uma contrapartida com morfossintaxe paralela em galego (¡Mira se nonEXPLé parvo!, , apud), distingue-se de todas as outras que vimos até aqui por não integrar uma subordinada-Q, mas antes uma oração introduzida por uma forma conjuncional (se).
Genericamente, dada a compatibilidade da negação expletiva tanto com orações exclamativas como com orações interrogativas não puras, creio que a presença desta negação não permite, só por si, argumentar a favor ou contra a postulação de uma subclasse de exclamativas indiretas autónoma, distinta da classe das interrogativas indiretas.
4.3. Combinação com morfemas-Q exclusivamente exclamativos
Em português, há vários morfemas-Q – essencialmente de valor quantificacional – com homónimos que ocorrem em exclamativas matriz, mas não (normalmente) em interrogativas matriz. Veja-se o morfema exclamativo qual em (81), com valor de quantificação nominal (“espanto Q-grande”), que não ocorre em interrogativas, pelo menos puras (cf. *Qual não foi o meu/seu espanto...?):
Há ainda pelo menos dois outros morfemas quantificacionais que ocorrem em exclamativas, mas normalmente não em interrogativas, facto que, tanto quanto sei, não foi discutido na literatura: os morfemas o que e como como quantificadores verbais, de valor semelhante entre si. Estes operadores são grosso modo equivalentes a quanto exclamativo, que se distingue deles por poder também ocorrer em interrogativas.
Ora, é possivelmente um argumento forte a favor da existência de genuínas orações exclamativas subordinadas a possibilidade de ocorrência dos quantificadores exclamativos em causa em frases encaixadas, pelo menos nos dois contextos especiais que já foram acima identificados (como favorecedores da presença do complemento exclamativo que).
- (84)
Imagina [qual não foi o meu espanto quando percebi o logro]!
- (85)
Vê bem [{o que / como} eu me esforço]!
- (86)
{Nem imaginas / Se soubesses} [{o que / como} eu me ri]!
Deixo também para investigação posterior a tentativa de identificação exaustiva dos contextos em que ocorrem os dois morfemas exclusivamente exclamativos em causa. Vejam-se alguns exemplos do (discurso direto, registo oral):
- (87)
“Se soubesseo que a gente aqui tem sofrido!” (, ext691490-soc-93a-2)
- (88)
“Fiquei tão triste... [...] Ah! Se soubessecomo fiquei triste!” (, ext485964-des-91a-1)
- (89)
“Os que se acham aqui aos ares, não querem que isto se espalhe, [...] mas não imaginamcomo se está bem!” (, ext941700-soc-91b-1)
Note-se, marginalmente, que os dois quantificadores exclamativos o que e como apresentam diferenças sintáticas na combinação com a negação expletiva, admitindo-a o que (tal como qual quantificacional – cf. (81) – e quanto), mas não como:
4.4. Compatibilidade com interjeições
O uso de interjeições do tipo de oh ou ah, que sinalizam diretamente o valor exclamativo em frases matriz, não são usadas em frases subordinadas:
Este facto, juntamente com a impossibilidade de usar as formas exclamativas tão e tanto em posição inicial em orações subordinadas, referida no início desta secção 4, distingue as frases matriz das frases subordinadas, aparentemente de forma absoluta (ao contrário dos outros fenómenos – presença de complementador que, de negação expletiva, ou dos quantificadores-Q o que, como e qual – que têm alguma expressão em posições de subordinação).
Interessantemente, é possível associar a interrogativas indiretas com implicatura factiva exclamações intercaladas, que “materializam” o conteúdo da implicatura. Aliás, a possibilidade de adição da exclamação direta intercalada é um bom teste para identificar a presença de implicaturas factivas (IF) e para desambiguar frases.
5. CONCLUSÕES
Pelo menos em português, parece haver vantagens em integrar a generalidade das chamadas orações exclamativas subordinadas, como e.g. não sabes [quão triste me deixas] ou não sabes [no que te vais meter], numa macroclasse de orações interrogativas indiretas – entendidas meramente como estruturas proposicionais com uma variável livre –, remetendo as suas particularidades para o plano pragmático das proposições implícitas, nomeadamente daquilo que podemos designar como uma “implicatura factiva”. Que a questão é mais pragmática que morfossintática pode ser observado pelo contraste entre frases exatamente iguais, mas com o verbo na segunda ou na terceira pessoa vs. na primeira pessoa: as últimas não admitem a implicatura factiva (escalar), por razões que são claramente do foro pragmático – incompatibilidade de uma asserção de desconhecimento com a implicatura de um facto que envolve um valor elevado:
- (96)
Eles não sabem [quão difícil vai ser chegarem hoje ao trabalho].
- (97)
Não sei [quão difícil vai ser chegar hoje ao trabalho].
Porém, um subgrupo muito limitado de orações subordinadas-Q (que inclui pelo menos orações dependentes de predicados percetivos e epistémicos em contextos exortativos ou exclamativos) apresenta marcas morfossintáticas exclusivas das orações exclamativas, nomeadamente a possibilidade de integrar um complementador exclamativo que ou quantificadores-Q exclamativos (QT), como o que e como:
Adicionalmente, em muitas destas subordinadas-Q ocorre com plena naturalidade a negação expletiva, que, não sendo um fenómeno exclusivo das orações exclamativas (já que pode também surgir em orações interrogativas não puras, subordinadas ou não), é contemporaneamente associado prototipicamente às exclamativas.
A negação expletiva pode inclusive coocorrer com as marcas exclusivamente exclamativas referidas acima:
- (101)
Imagino [o queQT isso nãoEXPL deve ter doído]!
- (102)
Imagino [que rico queCOMP ele nãoEXPL deve ser], para ter uma coleção de joias dessas!
Para as orações que apresentam estas marcas morfossintáticas poderá fazer sentido ponderar a postulação de uma classe de genuínas orações exclamativas indiretas, na medida em que essas marcas parecem ser indiciadoras de um estatuto sintático distinto. Remeto a identificação precisa desta classe de orações – a fazer preferencialmente com recurso a corpora de texto oral (dado o tipo de registo em que elas mais comummente ocorrem) – para investigação posterior.
As orações subordinadas-Q que não pertencem a este subgrupo muito limitado – incluindo as que dependem de predicados mirativos (cf. (104)) – não se combinam naturalmente com que exclamativo, negação expletiva ou os quantificadores-Q o que e como:
- (103)
??{Já todos sabemos / Já nos disseram}...
{que/quão simpáticos que eles são / o que eles se estão a divertir / quanto não vai ser preciso gastar}.
- (104)
??Surpreendeu-nos muito...
{que/quão simpáticos que eles eram / o que eles se estavam a divertir / quanto não seria preciso gastar}.
Em suma, creio que as estruturas que têm sido classificadas como exclamativas subordinadas na literatura podem ser divididas em dois grandes grupos: as que no plano morfossintático, ainda que não no plano semântico-pragmático (dada a presença de implicaturas factivas), são indistintas das orações interrogativas e as que parecem inequivocamente exclamativas no plano morfossintático também. Numa visão mais estreita da classe das orações exclamativas indiretas, ela integraria só as orações do segundo tipo. As do primeiro tipo poderiam ser classificadas – porventura de forma mais perspícua – como um subtipo de orações interrogativas, entendidas como estruturas predicativas com uma variável livre, nomeadamente, interrogativas indiretas com implicatura factiva.
Financiamento
Este trabalho foi financiado com verbas do projeto estratégico do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa UIDB/214/2025 (https://doi.org/10.54499/UID/00214/2025).
Referências bibliográficas
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Corpora consultados
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Corpus brasileiro. n.d. Corpus brasileiro v. 7.0. Disponível em: http://www.linguateca.pt/ACDC/ [01/2024-10/2024]
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Vercial. n.d. Corpus Vercial v. 14.8. Disponível em: http://www.linguateca.pt/ACDC/ [01/2024-10/2024]
Notas
[1] Há alguma variação na literatura quanto à classificação da informação implícita nas exclamativas: alguns autores falam em pressuposição, outros em implicação (“implication”), outros em implicatura, termo que aqui adoto, por conveniência, sem problematizar a sua escolha.
[2] Em português brasileiro, a construção é gramatical, mas com uma leitura que não é aqui relevante, em que o segundo que não é um morfema exclamativo, mas antes, possivelmente, uma redução da expressão enfática típica das orações interrogativas é que (cf. equivalência a Que carro é que compraste?) –cf. exemplos do Corpus Brasileiro da : “Que lembrança que vai guardar da Mônica?”; “Que balanço que o sr. faz dos três primeiros anos do Real?”.
[3] considera que o uso de outros morfemas-Q, nomeadamente, which, who, where, when and why, em exclamativas diretas (e.g. Who you met on the street!) gera dúvidas de aceitabilidade nos falantes, ainda que não o exclua liminarmente: “Many native speakers, including the writer, have difficulty arriving at clear judgments about the grammaticality of such sentences.” (p. 22).
[4] A implicatura presente nesta frase pode envolver quer a quantidade das asneiras (quantos disparates) quer o seu tamanho (quão grandes disparates).
[5] estendem às orações exclamativas subordinadas a distinção entre orações exclamativas parciais e orações exclamativas globais, que eles (e outros autores –cf. e.g. para o português usam para as exclamativas matriz. Nas exclamativas globais, que usam o morfema como, “toda a proposição constitui o foco da exclamação” (p. 2577), como acontece em (14)-(15). Nas exclamativas parciais, que usam diversos morfemas-Q, “o foco da exclamação é o constituinte exclamativo qu-” (p. 2577), como em (7)-(13).
[6] Poderá haver variação entre PE e PB na aceitação destas formas, que aqui não considerarei. Um parecerista anónimo brasileiro considera as construções de (19) gramaticais.
[7] Discordo dos autores quanto à afirmação de que o ponto ter de ser extremo; pode ser apenas elevado, sem o requisito de superlatividade –cf. e.g. é incrível [quanto nevou] ; claro que poderia ter sido pior –o ano passado até nevou bem mais–, mas o que nevou já causou imensa perturbação.
[8] Mas veja-se a possibilidade de uma implicatura afim, mesmo com eu não sei, em: Eu não/nem sei [quantas mentiras foram ditas pelo Trump na campanha eleitoral] . O homem é um mentiroso compulsivo.
[9] Na realidade, no próprio exemplo (26), há uma sugestão implícita de que os interlocutores não se sentiriam muito bem (evidenciando que as implicaturas factivas também surgem em orações inquevocamente interrogativas).
[10] Foram pesquisadas sequências dos oito verbos imediatamente seguidos dos morfemas-Q em causa (e.g. [lema="mostrar"] "quant.*|quão"; [lema="mostrar"] "o" "quant.*|quão"). Todos os resultados foram lidos individualmente, com um contexto alargado, para determinar se havia ou não implicatura factiva (e para eliminar registos irrelevantes). No caso de saber e dizer, os resultados são estimados: foram lidos apenas os primeiros 200 registos de cada verbo e aplicada a taxa de relevância ao total de resultados da pesquisa.
[11] Os predicados mirativos combinam-se também com orações interrogativas encobertas sensu Baker (1968), tratadas como exclamativas encobertas (“concealed exclamations”) em , que remete para de : Surpreendeu-me {as pessoas que foram nomeadas / o tempo que aguentaste debaixo de água sem respirar / o dia que eles escolheram para a reunião}. Trata-se de formas coincidentes superficialmente com sintagmas nominais (SN), mas que integram um conteúdo predicativo, como as orações.
[12] Observa-se aqui uma diferença entre o inglês e o português. Em inglês, os predicados mirativos combinam-se com orações introduzidas por which, ao passo que as suas contrapartidas portuguesas não se combinam com orações introduzidas por qual: it’s amazing which ones they preferred (Huddleston 2002: 992); *{surpreendeu-nos / é espantoso} quais eles preferiram.
[13] Merece menção especial a combinação, plenamente natural, de como sem valor de modo com é que: (i) “Eu tenho muita força. Até me surpreende como é que tenho tanta força.” (, ext1131220-des-91a-1); (ii) “Era natural que, mais tarde ou mais cedo –até me admiro como é que não foi antes–, aparecessem mais galerias no Porto.” (, ext200061-clt-98a-1); (iii) “Levava uma vida «extravagante», escreve [...] o «Herald News», que se espanta como é que alguém conseguia esticar um vencimento mensal [...] em despesas que à vista desarmada ultrapassavam em muito o seu ordenado.” (, ext1404476-soc-97b-1). Tanto quanto sei, estas construções não foram discutidas na literatura sobre o português.
[14] sublinha a possibilidade de parafrasear exclamativas subordinadas com orações declarativas que integram so e such (it’s unbelievablehow intelligent he is = it’s unbelievable that he isso intelligent).
[17] Note-se que, em (56), há coordenação copulativa da oração com quão (com implicatura factiva) e uma oração incontroversamente interrogativa indireta (sem implicatura factiva), quais são os juízos dos homens. Esta possibilidade de coordenação favorece uma classificação sintática semelhante das duas estruturas.
[18] Parece mais natural a construção com um complemento superficialmente nominal: nem sabes a asneira que eu fiz!
[19] Para a autora, são exemplos de uma “variedade do português conservadora” aqueles –documentados em – que integram negação expletiva em contextos negativos, não exclamativos, como os que dependem de predicados de valor negativo (impedir, deixar de) e de negação oracional comum (tal não impediu que nãoEXPL houvesse críticas violentas à atual direção, ele não deixou de nãoEXPL dizer que se sentia preocupado, não tardará muito que nãoEXPL haja quem lhe chame «escultor maldito») .
[20] A frase interrogativa com como é agramatical na leitura em que este morfema tem valor quantificacional (equivalente a quanto?), que é a única relevante aqui. É obviamente gramatical com como com valor de modo (equivalente a de que maneira?).
[21] O encaixe em orações exclamativas, sendo um fator favorecedor, não parece ser um requisito absolutamente necessário. Veja-se, por exemplo: se soubesses [o queeu me estou a divertir com este livro], não me pedias para parar; sabendo [{o que / como} ele se tinha esforçado], decidiu recompensá-lo. Esta questão merece certamente uma análise mais aprofundada, que remeto para investigação futura.
[22] No caso de como, importa distinguir o uso com valor quantificacional, que parece exclusivo de exclamativas, de outros usos com os quais por vezes se pode confundir, nomeadamente: uso com valor de modo (cf. “[...] olha só como aquela está a comer o macarrão!”,, ext711549‑); uso como operador de subordinação, afim da conjunção integrante que (“[...] Albarran demonstrou na guerra do Golfo que é o maior, e depois só não viu quem não quis ver como ele não deixava Cavaco Silva falar!”,, ext1372736-nd-91b-2).
[23] Importa não confundir estas construções, de genuína subordinação, com outras –possivelmente difíceis de distinguir na oralidade– em que existe justaposição, e presença de uma genuína frase exclamativa matriz. Na escrita, a pontuação pode esclarecer –cf. uso de dois pontos em (i) e (ii). Note-se que, nestes contextos, podem usar-se formas que não ocorrem em subordinação, como tão X inicial –cf. (ii).
(i)Vê bem: que parvo que eu fui! [sem subordinação, ao contrário de (98)]
(ii){Vê bem / Nem imaginas / É incrível}: tão parvo que eu fui!


