Resumo

Este artigo discute a análise e classificação das orações subordinadas-Q que alguns autores têm classificado como exclamativas indiretas, como [não sabes] quão desiludidos ficámos, distinguindo-as das genuínas interrogativas indiretas, como [não sei] quão desiludidos eles vão ficar. Após uma revisão da literatura que propõe ou adota a classe das exclamativas indiretas, no inglês e bem assim no português, consideram-se primeiro as suas propriedades semântico-pragmáticas distintivas e depois as suas propriedades morfossintáticas particulares. A presença de uma implicatura factiva é a propriedade que mais claramente distingue as construções, não sendo a maior parte das orações distinguíveis por propriedades morfossintáticas. Este facto favorece a sua categorização como membros de uma mesma macroclasse sintática (interrogativas indiretas lato sensu), que pode depois ser subdividida pela presença ou ausência da implicatura, dispensando-se a criação de uma classe autónoma de orações completivas: as exclamativas indiretas. Porém, a observação mais pormenorizada de um conjunto de propriedades morfossintáticas mostra que a classe das exclamativas indiretas pode afinal ter pertinência na descrição gramatical do português, pelo menos para o pequeno grupo de orações que mimetizam, em posições de subordinação, comportamentos morfossintáticos que se encontram em exclamativas matriz, mas não em interrogativas matriz. Entre estes, destaca-se a presença do complementador exclamativo que, como em [olha] que bom aspeto que isto tem, ou de morfemas-Q exclusivamente exclamativos,  como o quantificador verbal o que, em [nem sabes] o que eu me diverti.