A profecia de Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas
Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas é o livro inacabado, a última vontade de um intelectual de quem, em momentos da história da humanidade tão obscuros como os presentes, se sente a falta. Pois, em tempos tão difíceis, seria ainda mais preciso um intelectual não inócuo como José Saramago, que sabia denunciar com paixão e determinação pecados e pecadores, um espírito livre. De alguma forma, se poderia dizer que, sem que ele o soubesse, em 2010 deixou-nos um legado, um último património que nasceu do poder da palavra, um livro que nos faz refletir sobre os acontecimentos atuais. Pois, a sinopse do livro explica:
Aquando do seu falecimento, em 2010, José Saramago deixou escritas trinta páginas daquele que seria o seu próximo romance; trinta páginas onde estava já esboçado o fio argumental, perfilados os dois protagonistas e, sobretudo, colocadas as perguntas que interessavam à sua permanente comprometida vocação de agitar consciências. ()
Na verdade, Rosina Mattia define Alabardas como “livro manifesto”, o último reflexo da “intervenção pública no cenário mundial” e do engajamento literário de Saramago, isto é, uma “edição engajada” que “reverbera os anseios do escritor desde há tempos manifestados em prol da mobilização para a paz” ().
Pois, José Saramago já nas Notas do romance explicita a preocupação da qual surgiu a ideia do mesmo:
Afinal talvez ainda vá escrever outro livro. Uma velha preocupação minha (porque nunca houve uma greve numa fábrica de armamento) deu pé a uma ideia complementar que, precisamente, permitirá o tratamento ficcional do tema. Não esperava, mas aconteceu, aqui sentado, dando voltas à cabeça ou dando-me ela voltas a mim. ()
As referidas Notas representam uma parte paratextual fundamental para a compreensão e análise crítica do romance. Na verdade, em 2014, a Fundação José Saramago e a Porto Editora tinham publicado Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas, ou melhor, os primeiros três capítulos que Saramago chegou a escrever (na sinopse falava-se de trinta páginas), junto com as «Notas a Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas do caderno de José Saramago», textos de Fernando Gómez Aguilera e Roberto Saviano e ilustrações de Günter Grass.
Voltando e continuando a leitura das Notas (que datam de 15 de agosto 2009 a 22 de fevereiro 2010, ano da morte do autor), Saramago explica, antes de mais, para além da preocupação da qual surgiu a ideia do romance, a evolução na escolha do título: “O livro, se chegar a ser escrito, chamar-se-á Belona, que é o nome da deusa romana da guerra (...)” (). Logo a seguir o título passou a ser Produtos Belona, S.A. e, finalmente, Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas (), que inicialmente, tinha de ser apenas a epígrafe do romance. O título definitivo apresenta uma evidente relação intertextual com a tragicomédia Exortação da Guerra (1513) de Gil Vicente: “É de Gil Vicente, da tragicomédia Exortação da Guerra.” ().
A frase em questão foi pronunciada pela primeira vez na referida obra do maior representante do teatro lusófono de todos os tempos. Como explicam os autores da biografia As 7 vidas de José Saramago, “subentende-se ser uma expressão militar de incentivo ao ataque utilizando duas armas, a alabarda (espécie de lança finalizada com dois gumes, um em forma de espigão, outro em forma de meia-lua) e a espingarda, então emergente na Europa como uma espécie de pequeno canhão manual. Dito de outro modo, na investida militar, à alabarda (arma clássica) deveria juntar-se a espingarda” (). A citação vicentina, porém, aparece pela primeira vez, em 2008, em A Viagem do Elefante: “Nem tudo na vida são alabardas alabardas espingardas espingardas” (), frase proferida pelo comandante da expedição portuguesa numa conversa com o alcaide de Figueira de Castelo Rodrigo (etapa da viagem do elefante) e cujo significado conotativo e metafórico resulta evidente: nem na vida de um militar, “tudo é apelo às armas.” ().
Para além das referidas relações intertextuais, as duas obras têm uma subtil e fundamental relação temática: o homem, ou melhor, a mentalidade do homem. Se por uma parte, Gil Vicente retrata a mentalidade “(...) do Homem português da primeira metade do século XVI” dominada pela “cultura de guerra e de expansão de territórios e de conversão de povos não cristãos”, Saramago crítica o século XXI, onde “predomina uma cultura de paz entre os povos europeus, mortos que estão os impérios. Porém, entre as frestas desta pacificação geral, ressuscitando o antigo espírito guerreiro europeu, emergem as fábricas de armamento de guerra, tema central do novo romance” () e principal ambiente de desenvolvimento da ação. O centro de tudo é o homem, principal preocupação e interesse da obra do Prémio Nobel da literatura portuguesa que continua a ter os mesmos vícios: “o dinheiro, a glória pouco recomendável nascida da riqueza permitida pelo comércio (...)”, a corrupção, “a avareza, o ganho desonesto do dinheiro” () e a violência, que se traduz em guerras. Os mesmos são denunciados mais uma vez pelo autor através de um livro que, como todos os livros de Saramago, está bem longe de poder ser considerado como neutro. O que significa que “o discurso de Gil Vicente, mutatis mutandis, reside hoje, como expressão mais pura no capitalismo, (...) nos fabricantes de armamento. (...) e o romance, surgido de uma reflexão de contraposição entre a antiguidade (a alabarda) e a modernidade, ou melhor, a atualidade (a espingarda) passa-se justamente numa fábrica de armamento.” ().
Resulta evidente a urgência e a pressa do autor em escrever o seu último livro, devido à consciência do pouco tempo que lhe restava para viver. Já aquando da publicação de Caim, na última frase do romance, parecia que Saramago estivesse a anunciar o fim do seu trabalho, não apenas a extinção da humanidade: “A história acabou, não haverá nada mais que contar” (). Pois, como comenta Fernando Gómez Aguilera, no posfácio ao livro, um ensaio intitulado “Um livro inacabado, uma vontade firme”:
O tempo urgia desde que em 2006, enquanto gerava As Pequenas Memórias a doença se instalou na rotina da sua vida. A pulsação da sua literatura acelerava-se contra a morte. O próprio escritor, consciente do cerco paulatino a que a adversidade o submetia, soube explicá-lo com uma metáfora eloquente: «Talvez a analogia perfeita seja a da vela que lança uma chama mais alta no momento em que se vai apagar» (...). ()
Alternam-se momentos de incerteza e falta de força com momentos de inspiração e criação prolífica, como podemos ver numa nota escrita a 16 de setembro de 2009: “Creio que poderemos vir a ter o livro. O primeiro capítulo, refundido, não reescrito, saiu bem, apontando já algumas vias para a tal história «humana». Os carácteres de Felícia e do marido aparecem bastante definidos.” (). Logo as forças o abandonavam e no dia 26 de dezembro de 2009 anotava no seu caderno: “Dois meses sem escrever. Por este andar talvez haja livro em 2020”. Em momentos de desconforto e dúvidas: “Apesar de não estar nada seguro de poder levar o livro a cabo, mudei-lhe o título (...)” (). Mas Saramago tinha ainda coisas para dizer e, “por conseguinte, tinham de ser ditas ou, pelo menos, tentadas” (). Por isso, até a última nota de 22 de fevereiro de 2010 tinha ideias iluminadas para continuar a narração, pois, como ele próprio dizia, “as ideias aparecem quando são necessárias” ().
Enquanto estava a conceber Alabardas, dedicou-se ao lançamento de Caim. Pois, a produtividade de Saramago seguia o “impulso da sua firme determinação” (), enquanto a doença avançava. À beira da morte, tinha de fechar as últimas portas, críticas mordazes a lançar ao ser humano, cuja condição miserável ele representou mais uma vez com personagens, inclusive metafóricas, como o elefante. Para além disso, em A Viagem do Elefante é evidente a crítica à incapacidade humana de viver e de respeitar os animais, o ambiente, até ao ponto de se destruir um com o outro. O clímax descrito, na verdade, encontra a sua culminação em Caim, livro cujo tópico principal é a crítica ao mito religioso. Já em 2004, com Ensaio sobre a Lucidez “penetrou na inconsistência e nos desvios da democracia, abordando o espaço sociopolítico e a ética pública” (), mas sobretudo com Ensaio sobre a Cegueira profetizou, com uma operação que poderia ser julgada semelhante àquela de Alabardas, uma pandemia mundial: a cegueira, metáfora da desumanização e da irracionalidade que fustigam o mundo. Hoje em dia, depois da pandemia mundial que acabamos de viver, sabemos que tudo aquilo que Saramago adiantou, pode ser considerado como uma verdadeira profecia.
Como se Saramago o soubesse, começando a escrever uma história que, embora ficcional, deixa de ser metáfora (como sempre tinha sido a partir de Ensaio sobre a cegueira), com Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas, o autor descreveu a última “faceta do mal e do erro humano” (). Já em O Caderno, Saramago tinha adiantado a sua denúncia, essa última faceta do erro humano:
Toda a vida tenho estado à espera de ver uma greve de braços caídos numa fábrica de armamento, inutilmente esperei, porque tal prodígio nunca aconteceu nem acontecerá. Era essa a minha pobre e única esperança de que a humanidade ainda fosse capaz de mudar de caminho, de rumo, de destino. ()
O pretexto, ou melhor, como explicou o próprio Saramago “O gancho para arrancar com a história já o tenho e dele falei muitas vezes: aquela bomba que não chegou a explodir na Guerra Civil de Espanha, como André Malraux conta em L’Espoir” (). Menos de um mês depois corrigiu-se e especificou: “A memória enganou-me, o episódio não está recolhido em L’Espoir nem em Por quem os sinos dobram de Hemingway. Li-o em qualquer parte, mas não recordo onde. Tenho a sorte de Malraux fazer no seu livro uma referência (brevíssima) a operários de Milão fuzilados por terem sabotado obuses. Para o meu objetivo é quanto basta” (). Pois, aí estava o apoio, o acontecimento histórico-literário que lhe servia para o tratamento ficcional do tema. Isto representa um rasgo e um aspeto que desde o começo ― como evidenciámos anteriormente ― caracterizou o processo de escrita saramaguiana. Pois, os seus romances tinham sempre uma base histórica e/ou literária que exigia um processo de pesquisa e investigação por parte do autor, homem a quem não faltavam nunca referências úteis e apropriadas. Na verdade, também neste caso, como explica Aguilera: “Os episódios de sabotagem de armamento, ligados a mensagens de encorajamento para as fileiras republicanas não são desconhecidos das páginas da literatura espanhola nem de jornais da época como Milícia popular. O testemunho literário mais mencionado é dado por Arturo Barea em La Llama (...) Um projétil lançado sobre Madrid não explode; (...) depois encontra-se no seu interior uma tira de papel, manuscrita em alemão: “Camaradas. Não temais. Os obuses que eu carrego não explodem. Um trabalhador alemão (...)” (). Saramago comoveu-se por esses episódios fraternais por parte de operários espanhóis, alemães, italianos e portugueses e foi especialmente impressionado por um episódio semelhante onde a ser lançado foi um bilhete português: “Esta bomba não rebentará” (). Não sendo fruto da escrita da obra (L’espoir de Malraux) que Saramago tencionava citar, não o pôde utilizar como ponto de viragem da narração. Mesmo assim, incluiu o episódio nas primeiras páginas, referido pela protagonista. Na verdade, todo o material encontrado, lembrado e anotado por Saramago dava à narração “(...) energia e carácter narrativo, mas também densidade de contraste moral, moldando-se escrupulosamente ao seu objetivo derradeiro de denúncia (...)” ().
Uma vez estabelecidas as questões éticas a enfrentar e encontrado os suportes para concretizar a ideia, Saramago tinha de pensar na adaptação narrativa: “A dificuldade maior está em construir a história «humana» que encaixe” (). Era precisa uma história de amor, o que tornava um livro um romance. Já tinha definido A Viagem do Elefante “uma «noveleta»” () por não conter histórias de amor. Imediatamente o meio ficcional surgiu como uma iluminação que lhe dirigia a mão: “a história de Artur Paz Semedo, um homem fascinado por peças de artilharia, empregado numa fábrica de armamento, que leva a cabo uma investigação na sua própria empresa, incitado pela ex-mulher, uma mulher com carácter, pacifista e inteligente” (). Já no primeiro capítulo ― como referido anteriormente ― “os caracteres de Felícia e do marido aparecem bastante definidos”, bem como o espaço e a ação que moverá a narração. Artur Paz Semedo é “Um simples chefe de faturação menor sem ofício nem benefício (...) nada que outra pessoa não pudesse fazer” (), cuja arma é uma aura de respeitabilidade, de falsa educação feita por pormenores inúteis e muito longe de estar caraterizada por ética e moral. Pois, “(...) o sujeito em questão é um interessante exemplo de contradições entre o querer e o poder. Amante apaixonado de armas de fogo, jamais disparou um tiro, não é sequer caçador de fim de semana, e o exército, perante as suas evidentes carências físicas, não o quis nas fileiras” (). É, como resumiu de forma muito pontual Aguilera, um “burocrata fraco, adulador e cinzento” (). Felícia, “uma nova Blimunda da paz, espelho de coerência moral e esperança de humanização” (), “(...) sendo militante pacifista convicta acabou por não suportar mais tempo ver-se ligada pelos laços da obrigada convivência doméstica e do dever conjugal a um faturador de uma empresa produtora de armas” e por “questão de coerência” () mudou o seu nome de Berta (canhão ferroviário alemão que na primeira guerra mundial bombardeou Paris) por Felícia. A mulher faz uma sugestão de pesquisa ao ex-marido, através da qual aprenderia “mais alguma coisa do teu trabalho e da vida” (): teria de investigar se durante a Guerra Civil espanhola, Produções Belona S.A. vendeu armas aos fascistas, com a desculpa de um estudo comparativo integrado sobre o trabalho de contabilidade entre os anos 30’ e os tempos atuais. Portanto, temos o espaço da ação: o arquivo da empresa de armamento, espaço saramaguiano reconhecível que evoca aquele de Todos os Nomes.
É através da história de Artur e da “evolução do pensamento do protagonista” que Saramago nos leva a “refletir sobre o lado mais sujo da política internacional, um mundo de interesses ocultos que subjaz à maior parte dos conflitos bélicos do século XX” (). O leitor que, numa tensão constante, segue Artur nas páginas do livro, acompanhando-o nas suas pesquisas no arquivo da empresa, entre “papéis relatórios, correspondências, pareceres, atas, memorandos, apontamentos, resumo de reuniões....em que, de uma maneira ou de outra, apareça refletida a participação da empresa no acontecimentos da época” () ― os anos 30’ ―, fica com a respiração suspensa quando o livro chega ao fim. Pois, não saberemos nunca qual seria a efetiva evolução psicológica e ideológica de um homem apaixonado pelas armas e pela violência que, inclusive perante a história de “operários fuzilados em milão por terem sabotado obuses” (), sentiu “a comiseração, a falta de piedade e a irritação” e cuja “reação prevalente foi a contrariedade, o desagrado, a zanga” () por não terem sido fiéis ao trabalho e à empresa deles. Faltava a história por escrever, o avanço do relato. Por essa razão, este romance pode ser definido como “a literatura aspirada para sempre pelo vazio” (). Na verdade, a partir de outubro 2009, Saramago não teve mais as forças para voltar a escrever. Porém, nas Notas encontramos ainda testemunhos acerca da forma como o escritor tencionava continuar o livro, quer no que diz respeito à relação amorosa entre Artur e Felícia: “Uma ideia será fazer voltar Felícia a casa quando se apercebe do que o marido começa a deixar-se levar pela curiosidade e certa inquietação de espírito. Tornará a sair quando a administração «compre» o marido pondo-o à frente da contabilidade de uma secção que trata de armas pesadas” (Alabardas, 2014, p. 80); quer no que diz respeito ao enredo como à prossecução do romance (última nota escrita por Saramago):
A ideia aparece quando são necessárias. Que o administrador-delegado, que passará a ser mencionado só como engenheiro, tenha pensado em escrever a história da empresa, talvez faça sair a narrativa do marasmo que a ameaçava e é o melhor que podia ter-me acontecido. Veremos se se confirma. ()
Continuava também a preocupar-se, para além do enredo da obra literária, da forma, pelas palavras escolhidas, que eram sempre palavras certas, mesuradas. Também Aguilera descreve o processo de depuração da linguagem: “uma expressão depurada de barroquismo, austera, direita e serena: os diálogos ágeis, arreigados na linguagem quotidiana; o seu conhecido narrador todo-poderoso, sábio, reflexivo e totalizador; uma mecânica de entrançado cartesiano” (), que não renuncia à análise dos pormenores psicológicos na verbalização do pensamento, mas o faz com exatidão.
Até ao último segundo Saramago explicitou nas suas notas o esforço que isso lhe exigia:
Corrigi os três primeiros capítulos (é incrível como o que parecia bem o deixou de ser) e aqui deixo a promessa de trabalhar no novo livro com maior assiduidade. Sairá ao público no ano que vem se a vida não me falta. ()
Aguilera quem foi testemunho ocular dos últimos momentos de vida de Saramago relata: "(...) insistiu em refletir na narração, em fabricá-la mentalmente, sem renúncias." Acrescenta: "Espanta a tenacidade com que, à beira do grande abismo, o escritor se agarrou à literatura. Surpreende a enorme energia que as histórias revelam na imaginação e na determinação do narrador, mesmo antes de serem formalizadas no papel e de chegarem ao leitor (...)" ().
"Se eu pudesse decidir, nunca me ia embora" () ― dizia Saramago ― e até ao último instante não deixou de ser um “escritor antipático” ― como ele próprio se definia ― que escrevia porque tinha ideias (). Para ele “a literatura é o que faz inevitavelmente pensar” (), por isso, através de romances metafóricos e, por vezes, proféticos continuou a retratar as misérias do ânimo humano, "a perscrutar e iluminar essas zonas de sombra que atingem e deterioram a dignidade humana penetrando na consciência e nas formas de relação do sujeito tardo-moderno” (). Com a sua literatura queria denunciar, despertar consciências, chamar à ética e ao compromisso individual e social: “Dei-me conta, nestes últimos anos, de que estou à procura de uma formulação da ética: quero expressar através dos meus livros, um sentimento ético da existência, e quero expressá-lo literalmente” (). Na ótica do “sentimento ético da existência” () perseguida por Saramago, Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas respondia à intenção ― declarada pelo escritor ao seu círculo de confiança nos últimos tempos ― de "dissecar o paradoxo moral do empregado exemplar de uma fábrica de armamento” ().
Faz uma crítica exacerbada contra quem detém o poder e move os fios dessa realidade humana desumana onde “Todos os países, quaisquer que sejam, capitalistas, comunistas, ou fascistas, fabricam, vendem e compram armas, e não é raro que as usem contra os seus próprios naturais” (): os fabricantes de armas, os comerciantes de armas e os políticos, o “«ninho da serpente» (...) os subreptícios mas ativos produtores da guerra, que com ela lucram” (). Para eles, consciências anestesiadas, “Desde o princípio do mundo que havia armas e não morria mais gente por isso, morriam os que tinham de morrer, nada mais. Uma bomba nuclear levava pelo menos a vantagem de abreviar um conflito que doutra maneira se poderia arrastar indefinidamente (...)” (). Pois, o administrador-delegado de Belona S.A., “fez uma pausa e rematou (...) Guerras sempre as houve e haverá (...) o homem é um animal guerreiro por natureza, está-lhe na massa do sangue” (). Ele, encarnação daquele que o autor chama ironicamente de “santo dos santos de produções Belona S.A”, sentia-se justificado e acompanhado pelo “deus dos exércitos” () ― citação evidentemente bíblica ―, um deus que para Saramago não está nem sequer no céu e que sempre, na história da humanidade, foi criado e instrumentalizado pelo homem para controlar outro homem ().
Artur Paz Semedo é a personificação, a representação de uma classe sem consciência, mas também o fim da fila, a parte inferior da pirâmide, o elemento mais baixo na hierarquia, a última roda da carroça “capaz de, na sua rotina, se abstrair das consequências resultantes da sua disciplinada eficiência profissional” (). Na verdade, numa afirmação que é a evidência de uma grande incapacidade de pensamento crítico o mesmo Artur revela: “Sendo empregado da empresa, desejo que ela prospere, se desenvolva, e como cidadão, como simples pessoa, embora tenha de reconhecer que gosto de armas, devo preferir como toda a gente, que não haja guerras,” (). Através desta personagem, na verdade, “Saramago demonstrava-se interessado em examinar a dissociação habitual entre comportamento e efeitos desencadeados” que caracterizam a atitude do “bom cidadão” (). Roberto Saviano no seu ensaio de homenagem, que conclui Alabardas, intitulado “Também eu conheci Artur Paz Semedo”, afirma: “Em Artur as revelações que eu vi são as de todos os homens e as mulheres que se protegeram da idiotice ao perceber que compreenderam os dois caminhos, deixar-se estar a aguentar a vida, a cavaquear com ironia, a tentar juntar algum dinheiro e alguma família e a ficar por ali, ou outra coisa. (...) estar dentro das coisas" (): arriscar, comprometer-se.
Não sabemos se a pesquisa nas “profundezas do ignoto passado” (), entre “(...) aquelas prateleiras, versadas ao peso dos papéis” que “estavam carregadas de mortos que talvez tivesse sido preferível deixar entregues ao sono eterno em vez de os arrancar da obscuridade e da impotência resignada em que permaneciam há quase um século.” ― pois, “A prudência manda que no passado só se deva tocar com pinças, e mesmo assim desinfetadas para evitar contágios” ― () teria feito com que o faturador se tornasse realmente num homem “sem-medo”, no Artur da “paz”, como o nome evocativo da personagem sugere. Talvez seja através dessa narração suspensa que se concretiza e finaliza um percurso, por fim Saramago “revela os pilares sobre os quais construiu a sua literatura [...] um projeto de transformação social e de vida comum: a responsabilidade ética individual e coletiva” (). É através das histórias e das personagens, homens comuns que não fizeram “a grande História” (), que cada ser humano, cada leitor de Saramago consegue se identificar com Artur Paz Semedo frente à bifurcação, a escolha cotidiana entre a banalidade do mal () e a responsabilidade moral e ética para connosco próprios e para com a sociedade. Conforme a análise andorniana da obra que Barbosa oferece em “Um romance inacabado, uma ideia que leitura sdorniana de Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas” a “obra de arte” de Saramago () como qualquer obra de arte digna desse nome, não quer retratar uma visão maniqueísta da realidade. Pelo contrário, concorda com Mattia em negar qualquer tom o carácter panfletário da obra saramaguiana (como o escritor sublinhou em muitas ocasiões), mas identifica especificamente nesta obra a vontade de despertar certo pensamento e espírito crítico através da ironia e da história ficcional, onde tudo tem um carácter alegórico. A investigação de Artur no arquivo, uma verdadeira viagem, é uma alegoria da libertação da mobilidade da consciência (), instigada por Felícia - por sua vez, alegoria do cantinho de paz e felicidade no mundo ideal de Saramago ()-, até o pensamento crítico.
Saramago queria sacudir consciências, as nossas. "A alienação quotidiana da consciência individual”: esta era a última porta por fechar.
Esta obra é uma última profecia sobre a atualidade de Saramago, que em 2010 descrevia o nosso tempo da seguinte maneira: “Hoje reina a tranquilidade, a tranquilidade social, quero dizer, que nunca é de fiar ... é como a calma das águas profundas, aparência e nada mais” (). Infelizmente as suas previsões e constatações não tardaram muito em concretizar-se. Pois, vivemos em tempos em que ― como profetizou Saramago ― “já ninguém esperava que alguma vez pudesse voltar a haver paz” ().
Como afirma Roberto Saviano, neste livro “Aqui ele de novo. De carne e sangue as suas palavras inéditas neste novo livro (...). Estas novas páginas de Saramago são o criptograma do sussurro contínuo das revelações misteriosas que recebemos. Como um manual de tradução de sons, perceções e indignações” () e não nos podem deixar indiferentes.
Para concluir, considerámos que, com o trabalho de escrita de Saramago (os três capítulos de Alabardas, Alabardas, espingardas, espingardas), terminou também o trabalho de tradução de Pilar del Río, mulher do escritor (a tradutora não traduziu nem sequer os textos do posfácio). Porém, seria significativo pensar, embora não se tenha pedido confirmação à tradutora, que Pilar traduziu inclusive a ideia final, a última frase que o escritor já tinha pensado para concluir a obra. Na verdade, nas “Notas a Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas do caderno de José Saramago” o escritor anotou: “O livro terminará com um sonoro «Vai à merda» [...]Um remate exemplar” (). Proferido pela protagonista. Na verdade, numa cena do documentário José e Pilar, a tradutora pensa em como poderia ficar a tradução para o espanhol de uma expressão semelhante. Pelo menos temos a certeza de que a traduziu nas notas: “El libro terminará con un sonoro «Vete a la mierda», proferido por ella. Un remate ejemplar” (Saramango, 2014, p. 85). Um final que não consente nenhuma dúvida a respeito da polémica levantada no romance, o último fôlego aceso, a última porta fechada e, ainda, um final digno de uma consciência ética e moral que pertencia ao espírito livre de José Saramago.
Referencias
1
2
Mendes, M. G. (2010). José e Pilar. https://youtu.be/7gtRxhfcFi0
4
5
Rosina Mattia, B. (2018). Do romance inacabado ao livro-manifesto: uma leitura de Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas, de José Saramago, [Disertação (mestrado) - Repositório institucional da Universidade Federal de Santa Catarina]. https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/198744?show=full
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Notes
[1] Tivemos acesso a essas reflexões críticas sobre a literatura e a sua última obra expostas pelo próprio Saramago nos seus últimos dias graças ao ensaio de Aguilera, que na página 102 do texto refere: “Tive oportunidade de ouvir essas outras considerações, na presença da sua mulher Pilar del Río e de amigos próximos, em mais de uma conversa durante os seus últimos meses de vida em Lanzarote, quando José Saramago partilhava algumas das suas inquietações ao romance que resguardava a promessa da sua frágil vida.”

