Talvez esteja numa das epígrafes o descritivo mais sintético para o percurso deste livro de Diogo Nóbrega, que se nos afigura tão invulgar quanto estimulante. Trata-se de uma frase de Heidegger, anunciando a preponderância do caminho face ao conteúdo. Esta passagem – preciosa, na sua função sinalizadora do timbre do que se seguirá – começa por sugerir o que este livro manifestamente não é.
Este livro não é um manual, nem um guia de leitura. Não tem uma ambição explicativa nem uma pretensão didática em torno da obra e do pensamento de Gilles Deleuze. Não é tampouco uma tese, no sentido académico e canónico do termo, por desobedecer ao percurso de ortodoxia metodológica que vulgarmente assombra a obrigação curricular. Talvez seja essa, aliás, uma das suas maiores fidelidades ao pensamento de Deleuze: o modo como assume a condição da leitura filosófica como uma prática de desvio e de não correspondência para com o ímpeto que a inspira ou para com o pensador que a preocupa.
Este livro corresponde, então, a um processo ensaístico que lê Deleuze com seriedade, mas que se propõe pensar essencialmente a partir dessa leitura. Neste desiderato, é um ensaio pródigo na manifestação de um estilo de escrita, de uma forma singular de fazer e de escrever Filosofia. No que parece constituir-se como uma estratégia filosófica e discursiva interessante, Diogo Nóbrega age por aproximação suficiente, até que a clarificação do conceito permita a base necessária para um exercício de deambulação e de errância. Trata-se, desta maneira, de uma escrita não-deleuzeana a ler Deleuze, que encara (com muita justiça, diríamos nós) o pensamento de Deleuze como uma base ensaística a partir do qual se processa um movimento de pensar que se desvia, em permanência, da sua referencialidade. Sem perder o foco da sua leitura, sem que o nome de Deleuze chegue a ser um mero pretexto ou ante-texto, diríamos antes que a leitura de Deleuze se faz operar, para Diogo Nóbrega, como uma espécie de filosofia em ação, que, como o próprio indica, se encontra “no limiar de uma contra-assinatura” (p.19).
Em permanente estado de desassossego terminológico, o movimento do livro reparte-se por duas etapas: uma primeira parte, onde é acautelado o movimento deleuziano de excedência e de derivação face às margens delimitadas do conceito (pp.13 e sgs.), onde ideias como “corpo sem órgãos” (pp. 39 e sgs.) ou “temporalidade” (pp.58 e sgs.), mas principalmente “figura” e “perversão” são lidos e encadeados numa teia coerente de relações pensáveis; uma segunda parte, cujo título, “Protodemocracia”, insinua já o estado de consubstancial “perversão” que reclama a “democracia” como “implosão de uma ordem” (pp.87 e sgs.)
O título da primeira parte da obra – “De um mau caminho” –, no exato sentido já apontado pela referida epígrafe, enfatiza um rumo que aponta para a predominância do desvio, da alteridade, da iteração, da excedência e do contra-conceito como movimentos fundamentais do roteiro filosófico de Diogo Nóbrega. Fora do itinerário estabelecido e inteiramente cartografável, o caminho do conceito, enquanto termo matricial em Deleuze, é devolvido à sua natureza pulsional, na exata medida em que corresponde também a uma dinâmica locomovida pelo desejo que se não sacia. Como explicita o autor, é “sempre excessivo, um mau caminho” (p.22). E é a natureza transbordante desse “mau caminho” que permitirá corresponder, por exemplo, à Figura como intimidade excedente (“extimidade”, na expressão de Lacan adotada pelo autor), maior do que a possibilidade da sua representação figural (pp. 30-31), ou à própria “Perversão” como “desvio perpétuo”. Toda a primeira parte deste livro corresponde à ramificação plural dessa perversão, ou, se o quisermos dizer com o autor, desse “mau caminho” como norteador da obra.
A segunda parte apresenta-se como uma aproximação digressiva ao problema da democracia, que o autor sintetiza na formulação de Nicole Loraux: “Há uma maneira democrática de falar de democracia?” (p.83). Sabemos de antemão não lograr resposta, mas reconhecemos, tanto na noção de democracia como na escrita que acontece a partir dela, a fuga a uma rigidez cristalizadora, que coloca Deleuze no conjunto de pensadores contemporâneos que não limita a democracia aos limites de um sistema político. Para Deleuze, para Diogo Nóbrega lendo Deleuze, a democracia não é realmente um sistema, uma ordem ou um regime. A democracia é o acontecer da sua perversão, do seu desvio constituinte, da sua irrealizabilidade. A perversão da democracia manifesta-se, então, na sua recusa ao confinamento no interior de uma fronteira conceptual, já que a vida democrática faz a ordem implodir, excede as instituições, dá-se como abertura ao que não pode estar determinado previamente. A estrutural perversão da democracia está na sua ausência de modelo, na sua recusa à obediência modelar – a democracia só pode ser perversa. Perverte-se na sua diferença constituinte, sem modelo prévio, sem horizonte de reconhecimento, numa diferença constitutiva que a subtrai de qualquer hemisfério delimitado e previsível.
A democracia como não coincidência, como iterabilidade na repetição, como conceito exposto à sua perversão imprevisível, instiga o trabalho de repensamento e de confrontação com alguns dos mais usuais redutos de uma certa práxis política: no sentido mais corrente do “engajamento”, nos redutos da “militância” ou nas malhas do que a contemporaneidade delineou como “compromisso intelectual” e intervenção cívica / cidadã.
Alguns dos “personagens conceptuais” deste livro (recorrendo-se a uma expressão deleuziana que o autor não refere) desfilam sob o pretexto deste mesmo exercício de repensamento, onde figuras como as de Aristóteles, de Heidegger ou de Sartre convivem filosoficamente com as de Robinson Crusoe ou de Antígona. Locomovem-se na agilidade do argumento, na paciência do labor filosófico de Diogo Nóbrega, de forma tão singular quanto escrupulosa, tão exigente quanto interpelante, nos escolhos e desvãos que este livro procura, em vez de evitar.
Destaque-se, igualmente, o gesto de cuidado filológico revelado a par e passo, quase página a página. Não é questão de pormenor, nem corresponde a qualquer exercício de erudição supérflua. Indicia, antes, uma radicalidade, um retorno à raiz como forma de recapturar um movimento que se mantém livre e rebelde. Porque, como desde logo avisa o autor, o “movimento do conceito”, nunca plenamente capturável, necessita do “passo atrás de que depende a sua órgica liberdade” (p.17).
Primeiro volume de uma série prometida, trata-se, em suma, de uma obra inscrita numa linha crítica de pensamento que, na sua intensidade sem concessões, deve merecer toda a atenção possível, tanto no âmbito dos estudos deleuzianos quanto em contextos filosóficos mais latos.


