<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<!DOCTYPE article PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Publishing DTD with OASIS Tables with MathML3 v1.3 20210610//EN" "https://jats.nlm.nih.gov/publishing/1.3/JATS-journalpublishing-oasis-article1-3-mathml3.dtd">
<?xml-model type="application/xml-dtd" href="http://jats.nlm.nih.gov/publishing/1.3/JATS-journalpublishing-oasis-article1-3-mathml3.dtd"?>
<article xmlns:ali="http://www.niso.org/schemas/ali/1.0/" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" dtd-version="1.3" article-type="book-review" xml:lang="pt">
  <front>
    <journal-meta>
      <journal-id journal-id-type="publisher-id">Agora</journal-id>
      <journal-title-group>
        <journal-title specific-use="original">Agora. Papeles de Filosofía</journal-title>
      </journal-title-group>
      <issn pub-type="ppub">0211-6642</issn>
      <issn publication-format="electronic">2174-3347</issn>
      <publisher>
        <publisher-name>Universidade de Santiago de Compostela</publisher-name>
        <publisher-loc>
          <country>España</country>
          <email>sepinter@usc.es</email>
        </publisher-loc>
      </publisher>
    </journal-meta>
    <article-meta>
      <article-id pub-id-type="art-access-id">10279</article-id>
      <article-id pub-id-type="doi">https://doi.org/10.15304/ag.44.2.10279</article-id>
      <article-categories>
        <subj-group subj-group-type="heading">
          <subject>Reviews</subject>
        </subj-group>
      </article-categories>
      <title-group>
        <article-title>PESSOA, Fernando (2023). <italic>Envelopes Filosóficos: Filosofia &amp; Heteronímia</italic>. (Coordenação científica, introdução, posfácio e seleção Nuno Ribeiro, Cláudia Souza, Paulo Borges, Maria Celeste Natário), Porto: Instituto de Filosofia e U. Porto Press (Universidade do Porto), 189p.</article-title>
      </title-group>
      <contrib-group>
        <contrib contrib-type="author" corresp="yes">
          <contrib-id contrib-id-type="orcid">https://orcid.org/0000-0003-2607-3390</contrib-id>
          <name>
            <surname>Soto</surname>
            <given-names>Luís G.</given-names>
          </name>
          <xref ref-type="aff" rid="aff-1-10279"><sup>1</sup></xref>
        </contrib>
        <contrib contrib-type="author" corresp="yes">
          <contrib-id contrib-id-type="orcid">https://orcid.org/0000-0002-1289-2937</contrib-id>
          <name>
            <surname>Martínez Quintanar</surname>
            <given-names>Miguel Ángel</given-names>
          </name>
          <xref ref-type="aff" rid="aff-1-10279"><sup>1</sup></xref>
        </contrib>
      </contrib-group>
      <aff id="aff-1-10279">
          <label><sup>1</sup></label>
          <institution content-type="original">Universidade de Santiago de Compostela</institution>
          <institution content-type="orgname">Universidade de Santiago de Compostela</institution>
          <country country="ES">España</country>
        </aff>
      <pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
        <year>2025</year>
      </pub-date>
      <pub-date date-type="pub" publication-format="electronic" iso-8601-date="2025-09-30">
        <day>30</day>
        <month>09</month>
        <year>2025</year>
      </pub-date>
      <volume>44</volume>
      <issue>2</issue>
      <elocation-id>10279</elocation-id>
      <product product-type="book">
        <person-group person-group-type="author">
          <name>
            <surname>Pessoa</surname>
            <given-names>Fernando</given-names>
          </name>
        </person-group>
        <person-group person-group-type="custom" custom-type="Coordenação científica, introdução, posfácio e seleção">
          <name>
            <surname>Ribeiro</surname>
            <given-names>Nuno</given-names>
          </name>
          <name>
            <surname>Souza</surname>
            <given-names>Cláudia</given-names>
          </name>
          <name>
            <surname>Borges</surname>
            <given-names>Paulo</given-names>
          </name>
          <name>
            <surname>Natário</surname>
            <given-names>Maria Celeste</given-names>
          </name>
        </person-group>
        <source>Envelopes Filosóficos: Filosofia &amp; Heteronímia</source>
        <isbn>978-9897463662</isbn>
        <publisher-name>Instituto de Filosofia e U. Porto Press (Universidade do Porto)</publisher-name>
        <publisher-loc>Porto</publisher-loc>
        <year>2023</year>
        <size units="pages">189</size>
      </product>
      <history>
        <date date-type="received">
          <day>23</day>
          <month>11</month>
          <year>2024</year>
        </date>
        <date date-type="accepted">
          <day>13</day>
          <month>05</month>
          <year>2025</year>
        </date>
      </history>
      <permissions>
        <copyright-statement>Copyright © Universidad de Santiago de Compostela</copyright-statement>
        <copyright-year>2025</copyright-year>
        <copyright-holder>Universidad de Santiago de Compostela</copyright-holder>
        <license license-type="open-access" xlink:href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/">
          <ali:license_ref>https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/</ali:license_ref>
          <license-p>Artículo en acceso abierto distribuido bajo los términos de la licencia Atribución-NoComercial-SinObraDerivada 4.0 Internacional (CC BY-NC-ND 4.0)</license-p>
        </license>
      </permissions>
      <counts>
        <fig-count count="0"/>
        <table-count count="0"/>
        <equation-count count="0"/>
        <ref-count count="0"/>
      </counts>
    </article-meta>
  </front>
  <body>
    <p>No “Prefácio” a professora e investigadora Maria Celeste Natário (p. 15) explica que os textos recolhidos neste livro são inéditos da autoria de Fernando Pessoa. A finalidade de publicá-los é contribuir a recolocar a obra pessoana na Filosofia: “É este o espaço, por excelência, onde o seu pensamento se inscreve” (p. 15).</p>
    <p>A “Introdução” dos investigadores Nuno Ribeiro e Cláudia Souza (pp. 17-42) é uma análise em pormenor de cada um dos textos publicados nesta edição e a sua íntima relação com o projeto artístico-especulativo pessoano da heteronomia. Para ajudar os especialistas em filosofia que poderiam questionar o carácter filosófico destes textos de Pessoa, põem uma pergunta de atualidade: “Afinal, em que consiste a Filosofia? Em grandes conceitos e sistemas ou em exercícios de pensamentos?” (p. 17).</p>
    <p>A Parte I “Filosofia &amp; Heteronímia” (pp. 45-118) recompila a produção textual de Pessoa desdobrado noutros “eus”, outras personalidades pensantes que produzem e assinam reflexões filosóficas. Os heterónimos são personagens fictícias que expressam as suas próprias derivas, projetos, ideias e doutrinas filosóficas.</p>
    <p>O primeiro heterónimo é Charles Robert Anon. Assina vários textos. O primeiro, “Identidade do Ser e do Não-ser”, é uma análise filosófica da questão clássica da ontologia sobre o carácter do ser e não-ser. Anon defende a tese de que o puro ser é igual ao puro não-ser. O segundo, “Teoria da percepção”, investiga a relação entre a perceção e o pensamento através da análise dos processos de pensamento involucrados na perceção dos objetos. O terceiro, “Raciocínio e as suas falácias”, é uma brevíssima nota sobre a contradição conatural ao/no pensamento. O quarto, “Sobre o Livre-arbítrio”, recolhe índices e um fragmento nos quais sublinha o carácter ilusório do conceito, e também facultade, da vontade. O quinto, “Sobre os limites da ciência”, sustém que a investigação empírica se baseia numa ficção e que, por esta razão, não é útil para fundamentar a construção de um sistema filosófico. O sexto, “Plausibilidade de todas as filosofias” está escrito conjuntamente com outra personalidade heteronímica: Horace James Faber. Argumenta a favor do perspetivismo criador e do onirismo teórico. Todas as filosofias são plausíveis porque as perspetivas são múltiplas, igualmente legítimas, e também fundamentadas. Por analogia, a fragmentação do eu também é plausível e a constituição de variadas perspetivas no interior de um mesmo sujeito, correspondentes a diferentes modos de pensar e sentir, pode ser admitida sem género de dúvida algum.</p>
    <p>O segundo heterónimo é Alexander Search. É autor de três textos. O primeiro, “Milhares de teorias”, aponta ideias sobre a questão da multiplicidade de filosofias e o pluralismo filosófico criativo de teorias contraditórias entre si. A multiplicidade de pontos de vista sobre mundo, homem, metafísica, abre à criação de uma infinidade de diferentes modos de pensar, ver e sentir o mundo. O segundo, “A natureza interna das faculdades” é uma análise da natureza das faculdades da mente e a sua interação interna. Estabelece e define diferenças entre pensamento, sentimento e volição. O terceiro, “Ensaio sobre a Ideia de causa” explora as ideias que, segundo Schopenhauer, abrange a ideia de causa (ou a causa tomada como princípio): causalidade, excitação, motivação.</p>
    <p>O terceiro grupo de heterónimos está composto por A. Moreira e Faustino Antunes. Assinam, em comum, “Ensaio sobre a intuição”. Abordam, em esquema, uma discussão sobre a natureza e constituição da noção filosófica de intuição. Defendem a tese do carácter onírico do conhecimento humano sobre a existência.</p>
    <p>O quarto heterónimo é Frederick Wyatt. Sob o título “Fragmentos filosóficos”, descreve um sujeito com competências metafísicas, inapto para a vida real e o raciocínio comum, uma espécie de habitante de espaços oníricos acostumado a postular teorias metafísicas, mas incompetente para argumentá-las.</p>
    <p>Com o nome “Fernando Pessoa”, nome próprio ou, talvez, heterónimo hiper-realíssimo, Pessoa publica em 1924 na revista <italic>Athena</italic> um texto com o mesmo título da revista. Discute a divisão da alma em duas partes, a origem e finalidade da arte em contraste com a função da ciência, o simbolismo de Apolo e Atena, e o papel respetivo da sensibilidade e a contemplação.</p>
    <p>O sexto heterónimo é Álvaro de Campos. Assina o texto “O que é a metafísica?”, publicado no número 2 da revista <italic>Athena</italic>. É uma réplica ao ensaio “Athena” de Pessoa. Argumenta que a metafísica não é essencialmente uma arte, é uma ciência virtual. O que distingue arte e metafísica é o fim de cada uma destas atividades: o fim da metafísica é conhecer factos, o da arte substituir factos. Contudo, os factos objeto de estudo da metafísica são infundados, ou com fundamentos deficientes, ainda não suficientemente conhecidos. Por esta razão é ciência virtual que, sobretudo, deve ser concebida como atividade artística. A proposta de Campos é fazer entrar à metafísica numa deriva de multiplicação: construir metafísicas variadas, arranjar sistemas do universo coerentes, mas sem os vincular a uma vontade de verdade, ao igual que na arte se descreve e expõe uma emoção interessante sem considerar se corresponde ou não a uma verdade objetiva.</p>
    <p>O sétimo heterónimo é António Mora. Escreve os fragmentos recolhidos sob o título “Introdução ao estudo da metafísica”. Sustém que, apesar de que a filosofia nasceu com a aspiração de ser uma ciência em função da sua utilidade com respeito à orientação na vida, ao longo do decurso histórico perdeu esta função. A filosofia, portanto, deve transmutar em arte, isto é, mudar de função: de buscar a verdade para o governo da vida passar a construir sistemas do universo sem outro fim que o de entreter e distrair graças à beleza dos seus sistemas. As filosofias são obras de arte que servem para entreter, ainda que não foram erguidas com essa finalidade.</p>
    <p>O oitavo heterónimo é Ricardo Reis. Assina o texto “Fragmentos filosóficos”. Põe o problema da inexistência de uma moral científica, o conflito entre ciência e metafísica, a função da educação na eliminação da religião. Propõe a substituição não violenta da metafísica recreativa, que é religião, por uma instrução científica que cultiva a imparcialidade.</p>
    <p>O noveno heterónimo é Raphael Baldaya, autor do “Tratado da negação”. O Tratado está dividido em onze teses que dialogam com as tradições da teosofia e filosofia. Desenvolve a ideia de que o mundo está formado por duas ordens de forças: afirmativas (criadoras, emanadas sucessivamente do Único) e negativas (emanadas de além do Único). O papel da ilusão, pensamento, não-ser e ser, matéria, ficam mais claros graças a este sistema construído entre o misticismo e a ontologia de Górgias de Leontinos.</p>
    <p>A parte II “Adenda” (pp. 123-142) recolhe três textos. O primeiro, “Excomunhão”, assinado por Charles Robert Anon, contém uma autoapresentação de Anon (entre específica, clínica e filosófica) acompanhada de uma sentença excomunhão de qualquer seita. O segundo, “Ultimatum” de Álvaro de Campos, inclui uma autoafirmação do pensamento livre face aos qualificados “mandarins da Europa” (p. 125) e uma proclamação. A proclamação são três anúncios e as suas explicações filosóficas: “A Lei de Malthus da sensibilidade” (os estímulos da sensibilidade aumentam em progressão geométrica, enquanto que a sensibilidade só em progressão aritmética); “A Necessidade da Adaptação Artificial” (ato de cirurgia sociológica ou transformação violenta da sensibilidade com a finalidade de torná-la apta para acompanhar a progressão dos seus estímulos); “A intervenção cirúrgica anti-cristã” (abolição do dogma da personalidade, do preconceito da individualidade, e do dogma do objetivismo pessoal). Remata com uma apologia do super-homem. O terceiro texto, “Fragmento sobre filosofia e arte” de Ricardo Reis, apresenta a supremacia de duas artes sobre as demais: escultura e poesia.</p>
    <p>Com o título “Origem dos textos” (pp. 145-146) os autores assinam uma nota com a origem exata e numerada de cada um dos textos antologiados: “Os textos recolhidos na presente edição foram transcritos dos documentos originais do espólio de Fernando Pessoa, bem como de publicações que o poeta e pensador português realizou no decurso da sua vida” (p. 145).</p>
    <p>Com certeza, a edição e reunião destes textos contribui a salientar o pendor filosófico, metafísico e estético, mas também ético e político, da obra de Fernando Pessoa. Fornecem uns como traços abstratos ou pinceladas gerais da filosofia que, no seu trabalho poético, aparece disseminada e multiplicada em pormenor e em matizes: no Pessoa ortónimo que dialoga com o pensamento esotérico, heterodoxo e ocultista; o Ricardo Reis que incorpora a filosofia clássica greco-latina, nomeadamente o epicurismo e o estoicismo; o Álvaro de Campos que excede as coordenadas filosóficas (designadamente, as futuristas) do “Ultimatum” e tende pontes com o pensamento existencial; etc., etc.</p>
    <p>O “Posfácio/Estudo” intitulado “Ser sem eu. Fernando Pessoa e a tradição místico-contemplativa” (pp. 149-189), escrito pelo professor e investigador Paulo Borges, é uma documentada, original e inovadora exploração do “elo de articulação entre autores e textos à primeira vista muito distantes entre si: o poeta-pensador Fernando Pessoa e os representantes da tradição contemplativa universal (designada no Ocidente, na transição do séc. XVI para o XVII, como mística)” (p. 149). O elo é o papel central em ambas as duas da possibilidade de experimentar a ausência ou transcensão do eu.</p>
    <p>O primeiro apartado, “Introdução. Fernando Pessoa e a tradição místico-contemplativa”, estabelece o quadro geral prévio (metodológico e conceptual) de relações de convergência e divergência entre a experiência pessoana da ausência ou transcensão do eu e a experiência contemplativa da realidade última que envolve uma dissolução ou desaparecimento do eu. Com certeza há diferenças de forma, conteúdo e contexto entre ambas as duas experiências (por exemplo, a pessoana transcorre em epifanias súbitas vinculadas a uma procura individual de autocognição, independentemente de qualquer tradição, via e prática espiritual ou religiosa metódica, ao contrário que as contemplativas). Contudo, “isto torna ainda, mas destacáveis e relevantes as afinidades entre as referidas experiências, que podem manifestar a potencialidade de um <italic>ser eu</italic> ou <italic>para além do eu</italic> como um universal da experiência humana” (p. 150). Esta capacidade de “<italic>ser sem eu</italic>” (<italic>Idem</italic>), autodescentramento, impulsos transcendentes ou estados de (hiper/não)-consciência, é tematizada de diversas maneiras por Kenneth Rose, Ernst Tugenhadt, Já Ken Wilber, Stanislav Grof, Abraham Maslow, maneiras que Borges resume e comenta.</p>
    <p>O segundo apartado, “Ausência e transcensão do eu em Fernando Pessoa”, situa mais em concreto a Pessoa no horizonte antedito. Estabelece o vínculo implícito com Antero de Quental, precursor na exploração da possibilidade de uma vida espiritual e mística laica e não religiosa, percebida como pleno desenvolvimento das supremas possibilidades holotrópicas da consciência. Contudo, Pessoa rejeita, ou descarta, o cultivo metódico, disciplinado, regulado, das tradições contemplativas. Prefere a exploração do desassossego estético e poético de viajar por outras formas de imaginar e sonhar eus “que sempre se sabem e abandonam como irreais, no processo que designou como «outrar»” (p. 153). Acrescenta Borges: “Se a possibilidade de uma experiência radicalmente livre de sujeito afasta Pessoa do pilar fundamental da modernidade e o aproxima de muitas vertentes das tradições contemplativas e místicas, bem como das suas versões laicas e ateias ou agnósticas, o que no entanto singulariza a experiência pessoana é esta experiencia de si como não-si não ser um mero ponto de chegada soteriológico, mas antes um cais de partida à aventura da viagem heteronímica por ilimitadas possibilidades de se imaginar ou sonhar, lúcida e criativamente, numa <italic>outração</italic> múltipla e contínua em que o não-sujeito teatralmente se metamorfoseia em ilimitadas subjetividades ou personalidades fictícias” (p. 157).</p>
    <p>O terceiro apartado, “King of Gaps, além-Deus e ultra-Ser: teologia e egologia negativas em Fernando Pessoa”, analisa em detalhe três conjuntos de passagens pessoanas. Primeiro, as passagens em que na dissipação do eu-sujeito conspira com a de Deus-objeto num mesmo vazio ou intervalo sem cercados, e a desconstrução mística do objeto-Deus é paralela ao progressivo esvaecimento do eu. A dissolução do humano e do divino delineia uma abertura sem contornos identificáveis, em que rege a superação de toda a ontologização, entificação, reificação e objetivação do transcendente e, talvez, também, do imanente por relação a ele. O segundo conjunto de passagens é o referido ao autodesconhecimento do próprio eu. Centra-se no desaparecimento do sujeito cartesiano presente ante si e para si, possuído <italic>per se</italic> de uma autoevidência e autodomínio inexpugnáveis. O último conjunto examina a qualidade onírica e estranha da vida e da existência, a presunção de que não há um eu que a experiência profunda de si possa confirmar de maneira inequívoca.</p>
    <p>O quarto apartado, “A intervenção cirúrgica para remover os fatores de autocentramento e a trans-filosofia multifilosófica”, é uma exposição e interpretação da secção “A intervenção cirúrgica anti-cristiã” do “Ultimatum” da autoria de Álvaro de Campos. A chave hermenêutica é clara: são linhas programáticas de uma transgressão e transcensão do autoconfinamento egológico, ou monopersonalista, por meio da acumulação crescente de personalidades que, numa linha convergente com o pensamento de Agostinho da Silva, pode responder, desde uma filosofia nova, à exuberância fenoménica do real e do possível.</p>
    <p>O quinto apartado, “Fernando Pessoa e as tradições contemplativas não-(mono)teístas” desvela pontos de divergência e convergência na descoberta pessoana da ausência do eu, a transcensão da consciência egológica (autocentrada e separadora), e a superação da dualidade sujeito-objeto, com três tradições: hinduísmo, budismo e taoísmo. Em paralelo, o sexto apartado, “Fernando Pessoa e as tradições contemplativas teístas”, pondera as passagens pessoanas em que pode existir um campo comum impensado. Judaísmo, cristianismo (nomeadamente o Mestre Eckhart), islamismo (sobretudo o sufi Ibn ‘Arabi), desenham o âmbito inefável de uma autodespossessão que transcende qualquer ontoteologia e ontoegologia.</p>
    <p>O último apartado, “Conclusão. Viver sem eu: uma multidimensional mudança de paradigma” deixa claro que, apesar das afinidades de Pessoa com as tradições contemplativas (no atinente ao autodescentramento e desconstrução da autorreferência egológica), há uma grande diferença que persiste: “é que a experiência de ser sem eu, que nas referidas tradições é estável e vivida como uma forma suprema de serenidade e abertura amorosa ao mundo e aos seres, em Pessoa é consideravelmente instável e quase sempre vivida sob o signo de um profundo e ensimesmado desassossego, muitas vezes indiferente e desprovido de amor, o que, à luz dessas mesmas tradições, é um sinal claro de imaturidade e falta de plena realização espiritual” (p. 182). Porém, com independência desta discrepância, a riqueza dos estados alternativos de consciência que revela Pessoa, (trans)porta, segundo Borges, uma potência inédita de pensamento e ação que deve ser investigada, una mudança de paradigma “na complexa encruzilhada contemporânea” (p. 184) na qual a questão de ser eu, ou não ser eu, aponta a um recurso filosófico fértil e, com certeza, inesgotável.</p>
    <p>Eis o valor filosófico, metafísico e marcadamente ético, sublinhado pelo estudo de Borges, inscrito nesta coletânea de textos de Fernando Pessoa. Pois, na sua indagação não apenas se confrontam e dialogam o texto pessoano e a sabedoria e experiência místicas, mas também atravessam e ressoam problemáticas cruciais, nomeadamente as conceções e vivências do eu, do ser-se e o não ser, no pensamento e a cultura morais contemporâneas.</p>
  </body>
</article>